O homem que desafiou o destino

Entre feitos heroicos e lesões, a trajetória do maior camisa nove do futebol mundial na última década.

Qualquer jogador de futebol sonha em defender seu país. Pois é nos jogos entre seleções que nascem os mitos, os momentos que ficam eternizados na memória dos fãs: é quando se diferenciam os meninos dos homens. E os homens, meros mortais, dos gigantes – os heróis, que erguem taças com a consciência tranquila do dever levado a cabo com louvor. Todos os troféus, entretanto, não passam de vã materialização de glórias imensuráveis: incompreensíveis aos olhos dos homens ordinários, amantes tórridas e confidentes dos gigantes, imortais da bola, nascidos para surpreender, decidir e mudar radicalmente o rumo dos acontecimentos.

Foi exatamente assim, de surpresa, que Oliver Kahn conheceu a camisa nove da Seleção Brasileira, então tetracampeã mundial. O chute de Rivaldo foi no meio do gol, mas a bola veio com muito veneno. O goleiro então se agachou para fazer o que seria uma defesa trivial: nem precisava ser Oliver Kahn para pegar. Mas ele subestimou o veneno do chute. Bateu roupa. Durante um segundo talvez, a bola sobra dentro da pequena área. Ela provavelmente já sabia da iminente chegada do herói: era o mesmo que havia começado a jogada, roubando-a dos pés do defensor alemão. E, como um raio, ele apareceu. Um toque nela foi suficiente para abrir as portas da vitória e deixar claro quem seria o salvador da noite. Doze minutos depois, mais uma vez era a hora da estrela, do gigante e de sua entrada definitiva na História. Dois toques na bola: um para dominá-la, outro para mandá-la no cantinho do gol, selar o quinto título mundial do Brasil e escrever o capítulo final da maior redenção que o esporte já viu. Com os dois gols na final, Ronaldo se sagrava artilheiro do Mundial da Coreia e do Japão com oito gols, igualava o número de tentos de Pelé em Copas e mandava um recado para o mundo: “nunca duvidem de um gigante predestinado a brilhar”.
ronaldo 2002

Foto: Reprodução | Depois de todo o drama no joelho, Ronaldo conquistava o mundo em 2002 de forma emocionante

A história do Fenômeno com a camisa amarela começou cedo, ainda em 1993, quando foi convocado para a disputa do Sul-Americano sub-20, ainda como jogador do São Cristóvão. Aos 17 anos, num amistoso de preparação para o Mundial de 1994, foi a vez de estrear na seleção principal, justamente contra a Argentina. Logo ela, que seria tantas vezes tomada de assalto pela velocidade surreal e pela finalização letal daquele menino franzino, então chamado de Ronaldinho. Jogou ainda outro amistoso, contra a Islândia, marcou dois gols e agradou à comissão técnica a tempo de compor o elenco campeão do mundo nos Estados Unidos, apesar de não ter entrado em campo.

Depois da Copa, entretanto, passou a ter mais oportunidades na Canarinha, e em 96 agarrou de vez a vaga de titular. Era então a principal esperança do Brasil para as Olimpíadas de Atlanta, e foi um dos poucos que escaparam da desconfiança dos torcedores com o bronze. No ano seguinte, as conquistas voltam a fazer parte da rotina da seleção brasileira: ao lado de Romário, o Fenômeno formou uma das maiores duplas de ataque da história do futebol. Durou pouco, é verdade, mas quem viu certamente se recordará para sempre do entrosamento pleno, das tabelinhas rápidas, dos muitos gols e dos títulos diretamente proporcionados por dois dos maiores craques da história.

Muitos foram os títulos com a camisa verde e amarela. Mas títulos não são tudo para os gigantes da bola. E não conseguem traduzir a trajetória do Ronaldo avassalador, que surgiu como esperança, protagonizou conquistas e momentos inesquecíveis, tombou na França, cumpriu o calvário das lesões e renasceu das cinzas no Japão, diante dos olhares perplexos daqueles que já não acreditavam mais que o menino dos joelhos estourados voltaria a impressionar o mundo da bola. O destino, para os gigantes, está ao alcance da vista. Ronaldo, o mais desafiado de todos eles, o tem aos seus pés.

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Recifense, rubro-negro, apaixonado por música e estudante de Jornalismo. Sócio-diretor do Doentes por Futebol, com passagens por Seleção do Rádio e SuperesportesPE. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.

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