Reis da Copa – Josef Masopust

  • por Victor Gandra Quintas
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A Tchecoslováquia ansiava por um líder e desejava ter um rei que os conduzisse a glórias entre as maiores nações do mundo. Alguém que deixasse seu legado perdurar. No ano de 1954, ele viria a fardar o uniforme de sua nação pela primeira vez. Em 1958, iniciaria sua jornada. E em 1962, seria soberano: seu nome é Josef Masopust.

Hoje, sua monarquia ainda persiste, já que é responsável por feitos impressionantes, mesmo após a cisão entre República Tcheca e Eslováquia. Depois de alguns anos, um jovem loiro ousou tomar seu lugar, mas o desafio não foi à altura.

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Naqueles anos, a Tchecoslováquia até era uma seleção conhecida, mas não de topo. Foi vice-campeã em 1934, em sua primeira participação (não fora na primeira edição, em 1930), e em 1938 saiu nas quartas de final. Também não veio ao Brasil em 1950. Em 1954 e 1958, caiu na fase de grupos. Assim, com este retrospecto, o objetivo na Suécia era mostrar que poderia se unir aos grandes.

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Para chegar à Copa do Mundo de 1962, passou pelo grupo 5 das eliminatórias europeias. Competindo contra o País de Gales e a Alemanha Oriental, a Tchecoslováquia não teve dificuldades para ficar em primeiro, com apenas uma derrota.

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1958

Na Copa do Mundo, ficou no grupo A, completado com Alemanha Ocidental, Argentina e Irlanda do Norte. Eram favoritos para se classificar, pelo menos em segundo, já que o comandado germânico era a barbada para vencer o torneio, pois era o então atual campeão.

Após os três jogos da fase de grupos, o desempenho dos tchecoslovacos não foi ruim, já que chegaram ao final com chances de passar. Apesar da derrota no primeiro jogo para a Irlanda do Norte por 1×0, conseguiram um empate heroico (2×2) diante dos alemães na partida seguinte e uma golada histórica frente à Argentina, em um jogo que terminara 6×1.

Assim, terminaram a fase empatados com a própria Irlanda do Norte na segunda colocação. Para decidir quem seguiria, um novo jogo entre as seleções foi disputado. Assim como na abertura, Masopust e seus companheiros pereceram: 2×1 de virada. Um adeus amargo depois da boa prestação. Enfim, o sonho de fazer bonito diante do mundo foi adiado.

1960

Para o craque tcheco, o período de quatro anos entre uma Copa do Mundo e outra foi de grande aprendizado e fortalecimento competitivo com a camisa de seu país, pois, em 1960, iniciava-se um novo torneio de seleções no velho continente: o Campeonato Europeu.

Dezessete clubes participaram da fase classificatória, sendo que quatro seleções passariam à fase final, disputada na União Soviética. Entre as quatro, estava a Tchecoslováquia. No entanto, pararam por aí e ficaram em 3º lugar no geral. Um grande feito, elevando então a seleção a um status mais digno. A honrosa colocação os deixaram à frente da Alemanha Ocidental e da Hungria, potências da época.

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Com este histórico positivo, iniciaram-se as eliminatórias para a Copa do Mundo de 1962, que aconteceria no Chile. Masopust e companhia tentariam finalmente vir à América do Sul disputar uma Copa, já que estiveram presente somente quando o torneiro esteve na Europa.

1961

O primeiro jogo foi uma surpresa. No dia 07 de maio de 1961, contra a Escócia, em Bratislava, diante de 50 mil pessoas, o selecionado tchecoslovaco goleou por 4×0, em uma prestação sensacional da equipe do então capitão Masopust. Um passo enorme para a classificação.

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Em seguida, no jogo da volta em Glasgow, na Escócia, uma semana depois, sofreu uma derrota por 3×2. A Escócia já somava quatro pontos a mais neste momento, já que venceu as duas partidas diante da outra rival do grupo, a Irlanda. Assim, a Tchecoslováquia precisou vencer os dois jogos seguintes, também contra a Irlanda, para ter chances de ir ao Chile.

E não deu outra. Com resultados de 3×1 em Dublin e 7×1 em Bratislava, igualou a pontuação da seleção britânica e, assim como na Copa do Mundo passada, um jogo extra foi disputado para definir o vencedor.

A peleja foi realizada em campo neutro, na Bélgica. No Estádio de Heysel (o mesmo que vários anos depois sofreria uma tragédia entre Liverpool e Juventus), com pouco mais de seis mil pessoas acompanhando a partida, a Tchecoslováquia venceu por 4×2, mas precisando da prorrogação para passar. Pouco importava, estavam na Copa do Mundo.

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1962

Ainda desconhecidos no restante do mundo, apesar das boas prestações diante do continente europeu, desembarcaram em Santiago no ano de 1962 dispostos a mudar a história. E ali, a partir daquele momento, já com 31 anos, Josef Masopust começou a escrever seu nome entre os grandes jogadores da história do futebol. Tonar-se-ia uma lenda, um rei para os adeptos de seu país.

Na chegada, uma situação inusitada aconteceu com o jogador: assim que chegou ao hotel onde sua seleção se hospedaria, seu nome estava grafado de forma incorreta, fruto do ainda pouco conhecido futebol tcheco: “Joseph Masapost” era o que estava assinalado. Além disso, uma das frases que mais escutava ao chegar ao país da Copa era a seguinte: “Não desfaçam as malas, voltarão logo para casa!”. Estavam enganados!

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O grupo da Tchecoslováquia naquela Copa do Mundo foi uma preocupação: México, Espanha e Brasil. Novamente caiu no grupo da detentora do título da Copa anterior. E mais, era a seleção de Pelé, um jovem jogador que muitos tinham como um grande craque em ascensão.

A primeira partida foi contra os espanhóis, no dia 31 de maio de 1962, que contavam com ninguém menos que Alfredo Di Stéfano e Ferenc Puskás, duas lendas do esporte. A disputa ocorreu no estádio de Vina del Mar, em Sausalito, com 12.700 espectadores. Em um jogo cheio de oportunidades desperdiçadas de ambos os lados, foi em um contra-ataque que o meia Stibranyi marcou o gol da partida. Masopust teve boa prestação defensiva, impedindo o forte elenco da fúria chegar ao gol. Foi também o responsável pelo passe para que seu companheiro disparasse ao ataque e marcasse o tento. Assim, com dois pontos, os Tchecoslovacos largavam na frente para a classificação.

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“Fiquei surpreso ao ver como ele era completo”, admitiu Puskás. “Luis del Sol era um dos melhores meio-campistas na hora de desarmar ataques, Suárez era um gênio nos passes em profundidade e Paco Gento era fantástico ao partir para cima dos laterais. Mas Masopust fazia tudo: recuperava a bola, tocava, conduzia e aparecia na área. Era um jogador excepcional.”

A próxima partida, no dia 02 de junho, foi contra o temido Brasil. Ainda em Sausalito, 14.903 pessoas esperavam o show brasileiro. A arma da Tchecoslováquia foi, portanto, a marcação. Um jogo travado, repleto de faltas duras, inclusive um pênalti não marcado para o time de Masopust. O destaque foi a contusão de Pelé, que pouco fez na partida (as regras não permitiam substituições naquela época). Mas não só de Pelé vivia a forte seleção brasileira; Garrincha e Didi eram outros nomes de peso. Mas a estrela de Masopust brilhou mais. Com sua forte marcação, os atacantes brasileiros pouco renderam. Didi mesmo teve o tcheco como sombra. Resultado: 0x0 e o primeiro lugar ao lado do Brasil na classificação.

“Masopust foi um dos maiores jogadores que já vi, e nunca vou me esquecer daquele gesto”, disse Pelé posteriormente. “Foi muito bonito ver o respeito que ele demonstrou”, concordou Djalma Santos. “Ele mostrou respeito não só pelo Pelé, mas pela seleção. Foi um grande jogador e, mais do que isso, um cavalheiro.”

Todos os jogos foram disputados na mesma cidade. Portanto, no Estádio Vina del Mar, no dia 07 de junho, 10.648 pessoas assistiriam o pior jogo da Tchecoslováquia naquele torneio, em uma derrota vexatória por 3×1 para o México. Apesar de terem marcado logo no primeiro minuto, cederam a virada. Na verdade, já estavam classificados, pois no dia anterior o Brasil tinha vencido a Espanha e, mesmo perdendo para os mexicanos, ficaria à frente com três pontos conquistados. Assim, optaram por não se desgastarem e jogaram para cumprir tabela.

A próxima fase ditou a Hungria como rival. A seleção, então duas vezes vice-campeã mundial (1938 e 1954), era uma das favoritas do torneio, mesmo não contando com Puskas, que optou por se naturalizar espanhol e jogar por aquela seleção (uma escolha impopular, já que não passou de fase com a nova escolha).

O jogo foi disputado em 10 de junho na cidade de Rancagua, no Estadio El Teniente, com público de 11.690 pessoas. O jogo foi completamente dominado pela Tchecoslováquia. Muitas chances desperdiçadas e muita agressividade, sobretudo pelo lado húngaro. O bom atacante Scherer, aos 13 minutos, marcou o gol solitário da partida, o suficiente para colocar os Tchecos na semifinal daquela Copa do Mundo.

Iugoslávia. Esta era a seleção que separava a Tchecoslováquia da grande final. Do outro lado, o Brasil atropelava todos os adversários. Assim, no dia 13 de junho, às 15h30, horário de Brasília, Masopust e sua seleção enfrentaram o comandado dos Balcãs, enquanto a Seleção Canarinho disputava contra os donos da casa a chance de chegar à final.

O Brasil venceu o Chile por 4×2, com o brilhantismo de Garrincha se sobressaindo, marcando dois gols. A Tchecoslováquia também avançou, podendo repetir no último jogo do torneio o confronto da fase de grupos.

Sobre o jogo contra a Iugoslávia, disputado no Estádio Nacional em Santiago, com 5.980 pessoas assistindo, o então menor público dos tchecos, a vitória por 3×1 foi marcada por show de Masopust. Os gols só saíram no segundo tempo. O primeiro foi aos 3 minutos, marcado por Kadraba. No entanto, em falha do goleiro Schrojf, os iugoslavos chegaram ao empate. Um fato curioso: a rede, logo após o gol, rasgou. Assim, os árbitros tiveram que amarrá-la e remendá-la para retomar a partida.

Com o resultado igualado, coube então a Masopust chamar a responsabilidade da partida. Em uma excelente interceptação, proporcionou o contra-ataque para o segundo gol de sua equipe, marcado por Scherer, aos 35 minutos. Em seguida, outro fato engraçado: um cachorro entrou em campo e novamente a partida foi interrompida,  até o animal ser afastado por jogadores e arbitragem.

Faltando apenas 5 minutos para o fim do jogo, em um bom ataque pela direita, o zagueiro iugoslavo colocou a mão na bola, causando um pênalti para a Tchecoslováquia. Scherer converteu e garantiu a passagem à final.

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Masopust foi um fenômeno em campo. Marcou como poucos e distribuiu a bola com passes precisos. Um jogo que será lembrado como um dos melhores na carreira do jogador. Este craque, que jogou quase a vida toda em uma única equipe, o Dukla Praga, escreveu seu nome nas páginas do esporte mais popular do mundo. Foi, portanto, um rei do futebol para seu país, e se tornou um Rei das Copas com suas exibições em 1962.

Mas ainda faltou a final. Novamente o Brasil. Havia Garrincha, Didi e outros grandes nomes daquela Copa, como Vavá, Nilton Santos e Amarildo, este último o substituto de Pelé, que correspondia à altura a ausência do craque.

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Santiago. Estádio Nacional. Se na semifinal haviam jogado diante do menor público entre seus jogos, foram ovacionados por uma multidão de 68.679 espectadores. 17 de junho. Um dia que entrou para a história.

BRASIL: (1) Gilmar, (2) Djalma Santos, (3) Mauro Ramos, (4) Zito, (5) Zozimo, (6) Nilton santos, (7) Garrincha, (8) Didi (19) Vavá, (20) Amarildo, (21) Zagallo.
TCHECOSLOVÁQUIA: (1) Schrojf; (3) Popluhar, (4) Novak, (5) Pluskal, (6) Masopust, (8) Scherer, (11) Jelinek, (12) Tichy, (17) Pospichal, (18) Kadraba, (19) Kvasnak.

A superioridade brasileira obviamente se sobressaiu. Venceram por 3×1. No entanto, quem marcou primeiro foi Masopust, seu único gol em Copas do Mundo. Recebeu a bola na entrada da área e, com um belo chute, aos 15 minutos, colocou sua seleção à frente.

Dois minutos depois, Amarildo empatou. Aos 24 e 33 minutos do segundo tempo, Zito e Vavá marcaram seus gols para dar o bi da então Copa Jules Rimet ao Brasil.

Não importou a derrota. Masopust ficou feliz. Lógico que o título seria a consagração, mas para o jogador, que brilhou intensamente no torneio, ter chegado até ali e mostrado ao mundo quem ele era foi uma sensação fora do comum.

Aquele ano ainda continuou fantástico para Masopust. Nascido na pequena Střimice, foi eleito o melhor jogador europeu do ano e recebeu a Bola de Ouro para confirmar seu valor, ficando à frente dos já consagrados Puskas e Eusébio. Já sabia quando jovem que queria ser grande no futebol. Nem a Segunda Guerra Mundial pode impedi-lo de alcançar sua meta.

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E mesmo mais de quarenta anos depois, ao ser reconhecido pela UEFA o “Jogador de Ouro” da história do futebol tcheco, é considerado um dos grandes nomes do esporte, um exemplo de jogador completo, com qualidades tanto defensivas quanto ofensivas, capaz de mudar uma partida com suas habilidades. Tanto que o nome “Drible de Masopust” foi dado ao lance em avanço com a bola em ziguezague, característica do jogador.

Mas apesar de tudo isso, a humildade foi sua maior marca, já que ao ver a merecida estátua erigida em sua homenagem pelo seu ex-clube, disse, com franca modéstia:

“Fui apenas um entre milhares de jogadores a vestirem a camisa Tchecoslováquia. Acho que a honra é grande demais para uma única pessoa. Ainda estou me recuperando do choque”.

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Colaboração de Alexandre Reis, Felippe Garcia e José Eduardo Volpini.

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Natural de Belo Horizonte. Torcedor do Cruzeiro e da Juventus. Um Doente por Futebol. Desde pequeno um apreciador do esporte mais popular do mundo, preferindo mais em acompanhar do que jogar (principalmente por não ter talento algum com a bola).

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