DOENTES POR FUTEBOL

Kanu: o guerreiro nigeriano

Mama África na área para esta semana homenagear um cidadão que transformou-se num dos mais carismáticos jogadores do continente africano: Nwankwo Christian Nwosu Kanu, ou simplesmente Kanu, que marcou época com a camisa número quatro da Seleção Principal da Nigéria e teve passagens por Arsenal e Portsmouth.


Os Primeiros Passos
                                    

Nascido no dia 01/08/1976 em Owerri, Nigéria, e oriundo de família humilde, Kanu, aos quinze anos de idade, chegou ao Federation Works, um projeto futebolístico da Federação Nigeriana de Futebol, que funcionava tal qual um escolinha, um “clube” fixo da Federação que buscava talentos espalhados pelo país e os agrupava. Destaque, logo passou a integrar a Seleção em suas categorias de base, que eram formadas quase que 90% por jogadores do Federation Works.

Em 1992, assinou contrato profissional com o Iwuanyanwu Nationale (clube que em 2006 mudou o nome para Heartland F.C.), da sua cidade. Revelação da liga local, atuou em 30 jogos e marcou seis gols, ajudando a equipe a sagrar-se campeã nigeriana da temporada 1992/1993.

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1993 – Campeão Mundial Sub-17
                                             

Pela Seleção, a primeira conquista expressiva ocorreu no Mundial Sub-17 de 1993, disputado no Japão. Kanu foi um dos destaques da equipe que venceu de forma invicta aquele Mundial. Até hoje, é uma das melhores performances de uma Seleção na categoria, os nigerianos literalmente atropelaram seus adversários. Prova disto é a primeira fase impecável da equipe, com três vitórias em três jogos e catorze gols a favor, sem sofrer nenhum.

Kanu, foi peça importante no título mundial sub-17 em 1993

Foto: Reprodução/Fifa.  Kanu foi peça fundamental no Mundial Sub-17 de 1993.

No dia 04/09/1993, a Nigéria sagrou-se pela segunda vez campeã da categoria, ao vencer na final Gana, num jogo extremamente equilibrado. Kanu foi chuteira de prata daquele Mundial, com cinco gols marcados, um a menos que o compatriota e chuteira de ouro daquela edição, Wilson Oruma.


O Começo da trajetória europeia
                                 

Eleito um dos destaques do Mundial Sub-17 de 1993, Kanu despertou interesse de diversos clubes do futebol europeu, porém o sucesso nas negociações coube ao holandês Ajax, que desembolsou o equivalente a 207 mil euros. Lá o nigeriano permaneceu por três anos. Foram 54 jogos e 25 gols com a camisa do clube holandês.

Kanu foi tricampeão holandês, temporadas 1993/94, 1994/95 e 1995/96. Campeão da Liga dos Campeões da Europa em 1994/95 e Mundial Interclubes em 1995, na final vencida sobre o Grêmio. Kanu entrou em campo no segundo tempo, substituindo Marc Overmars neste jogo. Carismático, tornou-se ídolo da torcida do Ajax, tendo participado da última grande geração do tradicional clube de Amsterdã.

Itália, Internazionale e o problema cardíaco

Na janela de verão de 1996, por aproximadamente 4,7 milhões de dólares, a Internazionale contratou Kanu. A aposta do clube italiano era muito grande e a expectativa do torcedor maior ainda, especialmente porque, alguns dias antes da sua apresentação oficial, o atacante havia sido figura de destaque nos Jogos Olímpicos de Atlanta, ganhando a medalha de ouro.



Porém, ao passar por exames de rotina no clube italiano, descobriu-se que Kanu tinha um grave problema cardíaco. Diagnosticado com um problema congênito na válvula aórtica, precisou passar por uma delicada cirurgia, que colocou uma válvula mecânica para corrigir o defeito.

Foto: AFP. Kanu comemora seu único gol pela Inter, junto com Zamorano e Simeone.

A possibilidade de abandonar a carreira era algo palpável. No entanto, Kanu teve uma boa recuperação e, contrariando alguns prognósticos mais pessimistas, retornou aos gramados em abril de 1997. Porém a preocupação com a readaptação, aliada a situações que envolveram lesões musculares, além da forte concorrência no elenco da Internazionale, fazem com que ele jogue apenas doze partidas, marcando um gol.

Na Inglaterra, o prazer pelo futebol e o carinho dos torcedores

Foto: Getty Images. Nwankwo Kanu brilhou no Arsenal.

Em fevereiro de 1999, Nwankwo Kanu chega ao custo de aproximadamente 4,15 milhões de euros ao Arsenal. No esquema do técnico Arséne Wenger, ele não era um titular absoluto, mas ficou famoso por decidir inúmeros confrontos, quando saía do banco de reservas. Destas situações, sem dúvida a mais impressionante aconteceu na temporada 1999/2000 da Premier League, num jogo contra o Chelsea em que o nigeriano anotou um hat-trick, em quinze minutos, revertendo literalmente um placar adverso em dois gols (veja vídeo). Por motivos como este, Kanu tornou-se um ídolo dos Gunners.

Foram 197 jogos e 44 gols e quase metade desses jogos foi em substituição. Com a chegada de Thierry Henry, titular absoluto da equipe, Kanu passou a ser cada vez menos utilizado, ainda que seguisse um jogador decisivo e sempre assumisse a responsabilidade. Com o Arsenal, venceu a Premier League em 2001/02 e 2003/04, além da FA Cup das temporadas 2001/02 e 2002/03 e uma FA Community Shield em 1999. Foi eleito em 2008 o décimo terceiro jogador da história do Arsenal.

Foto: WBA site. Kanu teve uma passagem importante pelo West Brom.

Na janela de verão de 2004, transferiu-se livremente para o West Bromwich Albion, clube que tinha acabado de ser promovido para a Premier League. No clube, destacou-se pela liderança junto ao elenco e por ajudar a livrar a equipe do rebaixamento na temporada 2004/05, após um péssimo começo na principal liga inglesa.

No West Brom, jogou 58 partidas e anotou nove gols. Ao término do seu contrato, em 2006, o nigeriano optou por não renovar, em parte pelo interesse de outras equipes, em parte por o clube do The Hawthorns haver sido rebaixado para a segunda divisão inglesa.

Na véspera do início da temporada 2006/07, assinou contrato de uma temporada com o Portsmouth, equipe que havia escapado do rebaixamento na temporada anterior nas últimas rodadas. Em sua estreia, o nigeriano caiu nas graças do apaixonado torcedor dos Pompey’s, ao marcar os dois gols da vitória contra o Blackburn Rovers. Naquela temporada, Kanu foi o artilheiro da equipe, com doze gols.

Foto: Getty Images. Kanu com a FA Cup. Ídolo no Pompey.

Carismático e com atuações de destaque, tornou-se ídolo da torcida e teve seu contrato renovado. À vontade no clube, algo que não ocorria desde a sua saída do Arsenal, Kanu foi figura importantíssima na conquista da FA Cup da temporada 2007/08. Marcou na vitória na semifinal (1×0) contra o West Bromwich e na final, contra o Cardiff City (1×0) em Wembley (veja vídeo).

A temporada 2008/09 foi complicada e o nigeriano ajudou decisivamente ao marcar o gol que livrou a equipe do rebaixamento, contra o Bolton Wanderers, seu único gol naquela edição na Premier League. Já com o pensamento em aposentar-se, Kanu, convencido por dirigentes do clube, assinou por mais três anos, focando num projeto futuro de tornar-se treinador. Já numa fase descendente em termos físicos, atuou pouco, marcando apenas dois gols na temporada, vendo o início de uma profunda crise financeira no clube, que implicaria a queda para a segunda divisão inglesa.

Na temporada 2011/12, Kanu enfrentou problemas físicos e lesões, atuando cada vez menos. A saída do presidente Steve Cotterill foi um fator complicador na sua carreira dentro do clube. Com a chegada do novo mandatário dos Pompey’s, Michael Appleton, as aparições do atacante passaram a ser mais raras ainda. A situação financeira do Portsmouth, cada dia mais crítica, terminou com pontos perdidos e o eventual rebaixamento para a terceira divisão inglesa. O casamento entre Kanu e o Portsmouth terminou em julho de 2012 de forma litigiosa, com o nigeriano acusando o clube de dever-lhe 3 milhões de euros em salários atrasados. Foram 143 jogos e 20 gols em seis anos e a aposentadoria do futebol, com o carinho e reconhecimento dos torcedores, que sempre o apoiaram.

Seleção da Nigéria: uma história vitoriosa!

Foto: Reuters. Carismático e querido no meio futebolístico, Kanu recebe abraço de Diego Maradona, durante a Copa do Mundo de 2010.

Campeão mundial Sub-17 em 1993, Nwankwo Kanu trilhou ao longo de sua carreira uma brilhante história na Seleção Principal. Em 1996, a maior glória do futebol nigeriano, com a conquista da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos, disputados em Atlanta. Na semifinal, marcou dois gols contra o Brasil, numa das viradas mais sensacionais da história do futebol (os nigerianos perdiam por 3×1 e venceram por 4×3 na prorrogação com gol de ouro de Kanu. Veja vídeo).

Sua estreia com a camisa principal da Nigéria, aos 17 anos, foi num amistoso contra a Suécia em 05/05/1994 (derrota por 2×0). Participou das Copas do Mundo de 1998, 2002 e 2010. Também disputou a Copa Africana das Nações em 2000, 2002, 2004, 2006, 2008 e 2010. Seu jogo de despedida da Seleção foi no dia 29/03/2011, na vitória sobre o Quênia (3×0), diante da torcida em Abuja, em jogo válido pelas Eliminatórias para a CAN-2012. No total, foram 87 jogos e 13 gols.

Foto: AFP. Kanu após seu jogo de despedida contra o Quênia.



Vida pós futebol

Um dos futebolistas mais bem sucedidos da história do futebol africano, Kanu é embaixador da UNICEF para a África.

Foto: InFocus. Nwankwo Kanu em evento promocional de sua Fundação.
“Fazendo a diferença para crianças africanas”.

Em 2008, ele fundou a Kanu Heart Foudation, fundação originalmente destinada a auxiliar crianças e jovens nigerianos que lutam contra problemas cardíacos. O projeto alcançou uma dimensão maior e, atualmente, ajuda jovens em outros países do continente, como Angola, Madagascar, Burkina Faso e Guiné.

Foto: BBC London. Kanu em evento de promoção do seu trabalho filantrópico, sendo recebido pela Rainha Elizabeth II.

Kanu divide seu tempo entre sua residência em Lagos e sua casa em Londres, onde aproveita para alavancar seus projetos solidários para o crescimento de sua fundação e a possibilidade de auxiliar um número maior de jovens e crianças. Ainda segue em seu sonho o desejo de ser treinador de futebol, plano que, por hora, está adiado. Porém é comum ver Kanu acompanhando a Seleção Nigeriana como um ilustre torcedor.

Enfim, Kanu pode e deve ser definido como um guerreiro, pela sua trajetória, um futebolista que, na humildade, teve carisma e cativou torcedores por onde passou. Dono de uma habilidade pouco comum para sua altura (1,96m), é certamente um dos maiores jogadores da história do futebol Africano.

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Natural de Telêmaco Borba-PR e criado em meio à "boemia futebolística", com horas de papo sobre futebol, samba e cervejas na pauta. Influência do pai, que também adorava futebol, e da mãe, que sempre apoiou a iniciativa. Técnico em Eletrônica, formado desde 1999, e fanático por futebol, futsal, futebol de praia, society e todo esporte que tenha no futebol a sua essência.