DOENTES POR FUTEBOL

Rei de Copas – Diego Forlán

REIS-FORLAN

“A história do futebol é uma triste viagem do prazer ao dever”. Eduardo Galeano, escritor uruguaio.

ODD Shark

O povo uruguaio já não se recordava que havia vivido tantas glórias no futebol. O país que tem mais Copas do Mundo que Inglaterra, França e Espanha, estava esquecido. Diego Forlán tratou de mudar essa história, mesmo não estando entre os melhores do mundo, os quais, com justiça, eram Messi e Cristiano Ronaldo, além de Pirlo, Xavi e Kaká. Ele não se intimidou, ao contrário de muitos desses, que ficaram pelo caminho de forma melancólica. Forlán, pelo contrário, liderou o Uruguai a um quarto lugar na Copa do Mundo que devolveu o orgulho a sua população, a qual viu uma seleção se superar e um camisa 10 fazer o impossível em certos momentos. O gigante havia acordado.

“O Uruguai se reduziu a um banco, com praia e umas vaquinhas em volta.” Eduardo Galeano.

A carreira de Forlán começou no Independiente, com passagem pouco relevante pelo United, reviravolta no Villarreal surpreendente em 05/06 e consistência no Atlêtico de Madrid. Aliás, junto com Aguero, conseguiu conquistar a Copa UEFA, pouco antes da Copa do Mundo. Pelo país, estreou em 2002, disputou a Copa daquele ano e marcou até gol, mas a seleção seria eliminada junto com a França na primeira fase. Em 2006, não fora, guardando energias para a edição seguinte. Ele provavelmente não se arrependeu.

“Somos o que fazemos, principalmente o que fazemos para mudar o que somos.” Eduardo Galeano.

Forlán

O grupo no qual a celeste caira era complicado, visto que tinha a França, primeiro adversário e antigo conhecido, a anfitriã África do Sul e o México. Com competência, era possível passar de fase, mas não seria surpresa ficar logo ali. O primeiro jogo, bastante criticado por muitos, foi um 0 x 0 sem grandes chances entre França e Uruguai.

A próxima missão seria enfrentar o país sede da Copa. A África do Sul tinha um time fraco, mas que havia conquistado um empate contra o perigoso México no primeiro jogo. E ainda esperava que a história de Invictus ganhasse uma continuação, agora na versão com bola rolando. Isso não aconteceu. Forlán, em um chute de fora da área, marcou o primeiro. A Jabulani – a polêmica bola – ainda atingiu um jogador adversário, não dando chances ao goleiro sul-africano. No segundo tempo, foi a vez de testar a pontaria de perto. De pênalti, Forlán não deu chances novamente para o goleiro. E nos acréscimos, após virada de jogo espetacular do craque da partida, Luis Suarez cruza na medida para Álvaro Pereira completar. 3×0 e decisão contra o México, que havia vencido a França. A partida de ‘Cachavaza’ seria abordada como show pela mídia.

O camisa 10 foi decisivo contra a anfitriã. Foto: Zimbio.

O camisa 10 foi decisivo contra a anfitriã. Foto: Zimbio.

Contra o México, após jogada iniciada por Forlán pelo centro, Edinson Cavani cruza para Luis Suarez marcar. Seria o único gol da partida. O Uruguai mostrava que devia ser respeitado. Óscar Tabárez, técnico da seleção, havia deixado a seleção uniforme, eficiente e segura.

Quatro gols marcados em três gols e nenhum sofrido. Mérito dele e da defesa, que tinha o irregular Muslera, Fucile, o capitão e líder Lugano, e o zagueiro do Villarreal, Godín.  Do meio-campo composto por  Maximiliano Pereira, Pérez, Arévalo e Álvaro Pereira, e do ataque, com Cavani se sacrificando na marcação, Suárez e Forlán brilhando, principalmente o segundo.

Diego Forlán celebra gol.

Diego Forlán celebra gol.

Era momento de encarar a Coréia do Sul, surpresa na última Copa disputada pela seleção sul-americana. E foi um jogo difícil. Se os rivais argentinos tiveram facilidade e aplicaram uma goleada, o Uruguai não esteve tão inspirado no dia. O primeiro gol saiu após jogada na linha de fundo de Forlán. O nosso personagem de hoje chutou cruzado e a bola atravessou a área, sobrando livre para Suarez completar. Porém, a defesa do Uruguai não mantém o aproveitamento extraordinário da primeira fase e sofre um gol. Com o placar indefinido, Luis Suarez resolveu tirar um gol da cartola faltando dez minutos para o fim. Um chute magnífico que definiria o placar a vaga para as quartas de final.

“Temos sorte por ter um jogador como ele. Experiente, habilidoso e, mais importante, disposto a ajudar a equipe.” Oscar Tabarez

“Ele é um líder natural. Depois que a bola passa do meio-campo, ele toma o controle do jogo. É só prestar atenção ao que ele faz”. Álvaro Fernandes

O gol de empate do Uruguai.

O gol de empate do Uruguai.

Contra Gana, a expressão “teste para cardíaco” faria sentido. O primeiro tempo não parecia levar o jogo para os grandes momentos das Copas, mas no final da etapa, Muntari marca em bola defensável de Muslera. O Uruguai precisava de exatos quinze minutos para deixar todo o seu abatimento e voltar com outra postura. E assim fizeram. Com menos de dez minutos do segundo tempo, em falta distante e com ângulo bastante reduzido, Forlán coloca um efeito fantástico na Jabulani. O jogo estava empatado. Suarez ainda teria mais duas chances, uma criada pelo nosso protagonista, mas não conseguiria definir. A prorrogação poderia decidir o semifinalista, mas, como é comum, os dois times exaustos não conseguem elaborar muitas oportunidades, deixando esse tempo monótono. Entretanto, no final do tempo extra, Suarez salva o Uruguai agora do lado defensivo, ocasionando um pênalti para Gana. Era praticamente o adeus. Gyan desperdiça. O Uruguai ainda está de pé!

Nos pênaltis, o camisa 10 foi o primeiro e converteu. As duas seleções tiveram cobranças convertidas, até que Muslera se redime da falha e defende duas penalidades. Loco Abreu, então jogador do Botafogo, havia entrado no decorrer do jogo e iria cobrar o pênalti decisivo. Mostrando que seu apelido era perfeitamente aprpriado, ele dá a cavadinha e classifica o Uruguai para a semifinal. Quarenta anos depois o Uruguai retorna ao seu lugar, e representando a América Latina, que teve seus craques mais renomados, como Messi e Kaká, parando nas quartas.

“Todos estão felizes. Foi um jogo muito difícil e o final foi incrível. Desta vez, em vez de marcar, Suárez salvou um gol. É uma pena que ele tivesse que ter sido expulso. Acho que ele salvou o jogo. Depois veio a disputa de pênaltis e o Fernando Muslera foi muito bem. Fizemos um jogo incrível” Diego Forlán, que havia sido escolhido o nome do jogo, pela terceira vez na competição.

Contra a Holanda, uma seleção mais qualificada e que vinha com Robben e Sneijder em grande fase, a vitória seria uma surpresa, até pela suspensão de Luis Suárez. Isso não intimidou o exército comandado por Diego Forlán, que, mesmo após sair atrás do placar, encontrou forças para buscar o empate em um chute de longa distância do seu comandante.

Gol Forlan Uruguay VS Alemania 2010 from Diego Renau on Vimeo.

Forlán celebra tento. Foto: jeuneafrique

Forlán celebra tento. Foto: jeuneafrique

A batalha foi vencida pela dupla que já havia dado trabalho ao Brasil. Foram mais dois gols para a Holanda, a qual era uma versão da Laranja Mecânica que era mecânica até demais. No final, na base da eterna vontade uruguaia, a Celeste quase conseguiu o empate. Mas não importava, a seleção já havia retomado o orgulho da nação uruguaia. E isso valia mais que qualquer gol.

“Pessoalmente tive uma sensação de impotência, porque não estava em um bom momento físico para render o meu máximo. Coletivamente creio que fui muito bem, mas demoramos muito para conseguir o segundo gol. Eles conseguiram e liquidaram a partida em quatro minutos. Eu não estava acrescentando mais nada ao time, estava me sentindo incomodado, e era melhor que um companheiro entrasse em meu lugar. Foi o cansaço.” Diego Forlán

Na decisão pelo terceiro lugar, a Alemanha queria mais uma vez o bronze. E Muller, que buscava a chuteira de ouro, fez 1×0 para a seleção europeia. Cavani iria empatar em jogada de Forlán. Após Schweinsteiger perder a bola,  o camisa 10 ainda iria virar o placar com uma pintura, um golaço de voleio, sem chances para Neuer.

Voleio de Forlán. Foto: Getty Images.

Voleio de Forlán. Foto: Getty Images.

Gol Forlan Uruguay VS Alemania 2010 from Diego Renau on Vimeo.

A Alemanha, com um time talentoso e jovem, havia sido a sensação daquela Copa, mas havia parado, de novo, na seleção espanhola. O time conseguiu a virada contra o Uruguai com Jansen e Khedira. Diego Forlán encerraria sua participação com uma bola no travesão. A Jabulani traiu seu mestre no último momento. Porém, o Uruguai e o Forlán disputam vaga para o torneio do ano que vem. O Maracanã que se prepare para outro momento histórico.

“Fizemos um bom Mundial, encerramos a nossa participação com uma bela partida, enfim, estou contente por tudo que conquistamos aqui.” Diego Forlán.

Gol Forlan Uruguay VS Alemania 2010 from Diego Renau on Vimeo.

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