Rei de Copas – Johan Cruyff

CRUYFF

 

“A bola é uma amiga, importante é rir quando estamos com ela” – Johan Cruyff.

“Posso ser um novo Di Stéfano, mas não posso ser um novo Pelé. Ele é o único que ultrapassa os limites da lógica.” – Johan Cruyff.

“Johan foi o melhor jogador, mas eu ganhei a Copa do Mundo” -Franz Beckenbauer, adversário na final da Copa de 1974.

“Ele (Maradona)  tinha apenas um pé e não era bom no jogo aéreo. Foi um grande jogador, mas o que aconteceu na Copa de 1994 manchou a sua imagem por causa das drogas. Cruyff era muito mais interessante, mais completo do que Maradona”. Pelé, tricampeão pelo Brasil em Copas do Mundo.

“As pessoas gostam de comparar, mas parece que se esqueceram de Cruyff, Platini ou Di Stéfano, que foram melhores que o Messi”- Pelé, tricampeão pelo Brasil em Copas do Mundo.

“O Barcelona definiu seu estilo de jogo desde que Cruyff se converteu em seu treinador, e este estilo ofensivo encantou a torcida e mudou a própria filosofia do clube, que desde então sempre procura respeitar este direcionamento.” – Jorge Ruiz Esteve, jornalista espanhol.

“E como jogador, Cruyff foi um símbolo, porque era um jovem europeu moderno, que tinha cabelo comprido e andava com uma mulher de minissaia em plena ditadura franquista espanhola.” – Carles Santacana Torres, historiador do Barcelona.

“Na época de Pelé, Maradona e Cruyff, Messi não jogaria, estaria no banco” – Hugo Gatti, antigo jogador do Boca Juniors.

“Cruyff é o melhor de todos” – Michel Platini, ídolo francês.

Certos jogadores não precisam disputar mais de uma Copa para ficar na história, e nem conquistá-la para ter seu nome lembrado na competição. Johan Cruyff é um deles. Ele também não precisou apenas dos pés para conquistar sua geração e quem viria depois, era um jogador diferente, que pensava. Não é a toa que hoje, mesmo com dezenas de críticas ao Barcelona atual e a seleção da Holanda, continua sendo respeitado por ambos. É uma figura que pensou o futebol de uma maneira diferente, melhor, mais divertida, mas que parou no futebol “comum” dos rivais. Esse é mais um capítulo do Rei de Copas, que irá focar na Copa de 1974, evento sediado na Alemanha Ocidental. Cruyff ainda ajudou a Holanda a chegar em mais uma Copa do Mundo, mas, devido a um sequestro sofrido por sua família, decidiu não deixá-los e seguir rumo a Argentina. Outra versão, entretanto, diz que foi por sua posição política, contrária a do país naquela época.

Foto: Jornal dez

Foto: Jornal dez

O eterno camisa 14 estreou no Ajax em 1964, mas só com a chegada de Rinus Michels, no ano seguinte, que o time holandês iria prosseguir. E com dois gênios, um dentro de campo e outro fora, o Ajax começou a se destacar. Em 1973, a equipe já havia faturado 6 campeonatos nacionais, 3 Copas dos Campeões e uma Copa Intercontinental. Mitchels havia saído da equipe após a primeira Copa e não ficou para dois nacionais e outras duas “orelhudas”. Os feitos  transformaram Johan Cruyff no Bola de Ouro da France Football no ano de 1971 e 1973. Com isso, despertou o interessou do Barcelona, que contava com o técnico já conhecido e de passado vitorioso com o meia. A transação foi a mais cara do futebol até então, preço tão alto que o governo espanhol até tentou barrar a negociação. Mas não teve jeito, a transferência foi concluída e, logo em sua primeira temporada, conquistou o Campeonato Espanhol, feito que os culés nem se lembravam mais como era. Era momento de brilhar na Copa do Mundo.

Sua estreia na seleção aconteceu em 1966, mas o começo foi complicado. Apesar do gol contra a Bulgária logo no primeiro jogo, demorou para se firmar. Ficou fora da Euro de 1968, da Copa de 1970 e da Euro de 1972. Porém, Mitchels, Cruyff (mais uma vez a dupla atuara junto) e as bases do time do Feyenoord e Ajax haviam se superado e se classificado a seleção local para a edição da Copa de 1974.

A seleção caira no grupo 3, com Suécia, Bulgária e Uruguai. O primeiro jogo seria com a equipe da América do Sul, de Forlán e Pedro Rocha, que não ofereceram resistência à seleção europeia. O time da Laranja Mecânica, como ficou conhecido em referência ao sucesso do filme também da década de 70, começou a competição com essa formação:

Jongbloed (8); Suurbier (20), Haan (2), Rijsbergen (17) e Krol (12); Jansen (6), Neeskens (13) e Van Hanegen (3); Rep (16), Cruyff (14) e Rensenbrink (15). Técnico Rinus Michels.

O camisa 14 começou a jogada do primeiro gol, feito por Rep. O ponta marcaria outro no segundo tempo, definindo o placar. O resultado, apesar de pouco, não mostrou a superioridade holandesa.

“O nosso treinador só sabia que a Holanda tinha bons jogadores… Pediu atenção especial para o 14, o Cruyff. O nosso volante, o Montero Castillo, disse para deixar com ele, que o Cruyff não iria andar em campo… Pois é… No intervalo, perguntei ao Castillo porque ele não conseguira fazer o que prometera. Ele me disse: “Mas, como? Eu corria atrás dele o campo todo e ele não parava? Como iria segurá-lo? Não dava nem para dar porrada”. Foi um vareio que tomamos. Dois a zero foi pouco.” Pedro Rocha, jogador do Uruguai.

“Estávamos muito nervosos. Além de nunca termos atuado juntos, cinco jogadores estreavam em algumas funções. O goleiro era novo na equipe. O Haan e o Rijsbergen não haviam atuado daquela maneira. O Jansen demorou a chegar ao elenco. O Haan teve de ser zagueiro – era volante. O Jansen ocupou o lugar dele – embora atuasse na mesma posição do Neeskens… O próprio Neeskens teve de se sacrificar. Eu não estava 100% fisicamente. Perdemos nosso zagueiro Hulshoff por contusão. E tudo isso junto, num só jogo, o da estreia… Não sei como tudo funcionou tão bem. Não tínhamos um time antes da estreia. E quando acabou o jogo, tínhamos uma senhora equipe. Todos correram muito, se doaram bastante. Deveríamos ter feito mais gols. Mas essa é outra questão. Para mim, futebol é criar chances de gol. Fazer o gol é um tanto casual e está fora do futebol. Depende de um monte de circunstâncias: sangue-frio, casualidade, sorte, falha contrária.” Johan Cruyff

Diante da Suécia, novamente problemas para definir a partida. Mesmo Cruyff, que teve momentos em que passou por 5 jogadores, ou que brilhou pelos lados do campo, não teve êxito. Com isso, restou lamentar e elogiar o time adversário, principalmente o goleiro.

“Acho que jogamos bastante bem. Os suecos tinham um time temível. Demonstramos em campo o que tínhamos treinado. Os holandeses jogavam todos para todos, todos em todos os lugares do campo. A qualidade e a intensidade da partida foram muito bem sintetizadas por um jornalista espanhol, do diário “Marca”: “O primeiro tempo, a melhor publicidade para o futebol”.

Larsson e Cruyff antes do empate entre as duas equipes. Foto: Football Archive.

Larsson e Cruyff antes do empate entre as duas equipes. Foto: Football Archive.

A Bulgária não teve a mesma sorte que a Suécia e sofreu com uma noite bastante efetiva da Laranja Mecânica. A blitz da Holanda logo deu resultado: Cruyff começou a partida de forma fulminante e sofreu pênalti antes dos cinco minutos de jogo. Neeskens cobrou e fez. O time rival não conseguia combater a superioridade técnica e nem tática, muito bem organizada por Cruyff dentro de campo, e Michels fora dele. Com isso, a Bulgária não suportou a pressão e fez outro pênalti. Neeskens converteu. Final de primeiro tempo.

Na segunda etapa, em jogada iniciada por Cruyff, a bola sobrou para Rep, que não desperdiçou. 3×0. A Bulgária ainda descontaria após erro da defesa rival, mas ainda sobraria tempo para a Holanda marcar mais e mostrar que iria longe naquela Copa. De Jong cabeceou após cruzamento de Cruyff e deu números finais para a partida. 4×1. A seleção estava classificada e iria enfrentar um novo grupo com Argentina, Brasil e Alemanha Oriental. Quem terminasse em primeiro, estaria na final com o melhor do outro grupo. Os segundos colocados fariam a decisão do terceiro lugar.

“Os búlgaros precisavam nos vencer para se classificar. Eles haviam empatado sem gols com os suecos, e cedido o empate para os uruguaios no fim do jogo. Por isso começamos o jogo mais tranquilos. Queríamos usar mais o contragolpe, guarnecendo mais a nossa defesa. Eles se atiraram ao ataque e expuseram a própria defesa. Tanto que fizeram dois pênaltis como último recurso. Baixamos o ritmo no segundo tempo, já pensando na próxima fase. Como não tínhamos experiência de Copas, era melhor nos resguardar. Ainda assim, o público gosto do que viu.” Johan Cruyff

“No parentesco da camisa, no estilo e no destino, a reencarnação da Hungria de 1954. Do alto de suas tribunas, os catedráticos proclamavam que é o futuro do futebol! Pergunto eu, se tribuna ainda tivesse: – e por que não o futebol do passado?”  Armando Nogueira, jornalista.

Cruyff contra a Bulgária. Foto: MNO.

Cruyff contra a Bulgária. Foto: MNO.

O primeiro duelo da Holanda seria contra a poderosa Argentina e seria uma noite especial, pois marcou o primeiro gol de Cruyff em Copas e logo no começo da partida, como era previsível. A seleção europeia entrava no jogo com um foco impressionante, não dando chances ao adversário logo de cara. E foi logo aos dez minutos que Cruyff, após receber grande passe, fintou o goleiro e finalizou com o pé esquerdo. Aos 25 minutos, Krol marcou um belo gol em rebote do escanteio. O primeiro tempo termina com o placar favorável para a equipe de Michels, mas ainda cabia mais. E isso veio na metade do segundo tempo, com assistência de Cruyff. Rep não desperdiçou. Aos 45 do segundo tempo, o camisa 14 definiu o jogo com um grande chute. Alguém podia parar essa seleção?

  “O gramado pesado pela chuva da manhã nos favoreceu. No segundo tempo, ela ficou mais forte e nós, também. Sabíamos como jogar assim. Os argentinos, não. Além disso, tivemos a sorte de logo abrir o placar. E tivemos um dia de inspiração fenomenal. Foi uma partida extraordinária. A Argentina era uma equipe fabulosa. Não se pode julgá-la por aquele placar e por aquela partida. No primeiro tempo, nos impusemos de modo total e absoluto. Na metade do segundo tempo, os argentinos desapareceram.” Johan Cruyff

“Eu nunca vi nada parecido. Meus jogadores jamais viram um time assim. É uma nova maneira de conceber o jogo. Eles são um rolo-compressor.” Vladislao Cap, treinador argentino.

“Os holandeses não têm especialistas. Existe um goleiro e dez jogadores que fazem tudo – e sabem fazer tudo. Ao mesmo tempo, estão muito perto de todos e muito longe uns dos outros. É uma vertigem total esse borrão de camisas laranjas em campo. Os mais perigosos são os que não têm a bola, todos coordenados pelo Cruyff.” Ángel Bargas, zagueiro reserva argentino

Jogadores após o duelo de Holanda e Argentina. Foto: Big Soccer.

Jogadores após o duelo de Holanda e Argentina. Foto: Big Soccer.

 Contra a Alemanha Oriental, o time holandês não brilhou como outrora, até pelo adversário recuado. Entretanto, como nas outras oportunidades, não demorou para abrir o placar. Neesken marcou após rebote de escanteio, logo aos 8 minutos de partida. A partir daí, o jogo não foi muito emocionante. O time mais qualificado havia marcado e, se o adversário fosse para cima, iria levar ainda mais, então não foram. E acabaram levando só mais um. Após passe na medida de Cruyff, Resenbrink marcou o segundo e definiu o placar no começo do segundo tempo. O próximo adversário era o atual campeão Brasil, mas com uma vantagem, a Holanda poderia jogar pelo empate. Será que eles jogariam apenas por isso?

“Tenho de ser sincero. Jogamos muito mal. Nossos rivais amontoaram oito jogadores no campo deles e não nos deixaram jogar. Nem eles quiseram nos atacar. Eles formaram na entrada da área uma teia de aranha, uma malha espessa, um fluido viscoso… A crítica nos foi generosa, exaltando a perfeição de nossa engrenagem, a força de nossa técnica. Mas não foi nada disso. Jogamos mal. E os alemães também não quiseram jogar. Foi uma partida feia. “Johan Cruyff

“Não podemos jogar de igual com os holandeses. Só podemos aprender com eles. Não há outra saída para nós além de testar um esquema ultradefensivo. É nossa única chance na partida: não dar espaço, não permitir que eles se movimentem. Com a posse de bola, então, devemos jogar muito para superá-los”. Geor Buschner, treinador da Alemanha.

 O Brasil enfrentou a Holanda e sequer mostrou a força de atual campeão que tinha, talvez pela ausência de Pelé, talvez pela geração já não tão brilhante, talvez pela queda de rendimento de alguns jogadores. O que se viu naquela partida contra a Holanda foi um futebol bonito do adversário contra um time amargo e violento do Brasil. Não que a Laranja Mecânica tenha amenizado em alguns momentos, mas apresentou futebol. Zé Mária, em determinado momento, chegou a agarrar Cruyff após ter caído no chão.

Talvez pela vantagem do empate, ou pelo campo pesado, alguns diriam pelo poderoso adversário, outros pela forte marcação, a Holanda demorou a marcar. Só foi balançar as redes no segundo tempo. Neeskens aproveitou assistência de Cruyff e finalizou. Pouco depois seria a vez do camisa 14 marcar, de voleio, o gol que sacramentaria a passagem para a final. Para o Brasil, só restava lamentar e fizeram isso de maneira agressiva: Luis Perreira ainda seria expulso. E o goleiro Leão salvou o Brasil de levar mais.

“Depois de meia hora de dificuldades, despojados já de qualquer temor, sacudindo o complexo de estar à frente dos invencíveis, perdemos todo o respeito por eles e pelo que sem dúvida são e significam na história do futebol”.

“Bom, era o Brasil. Mas nós éramos muito melhores futebolisticamente, éramos o que eles haviam sido antes. Eles passavam por uma mudança de mentalidade, indo mais para o lado físico. É preciso ter em conta que, quando você tem sucesso, há muitos outros garotos te assistindo e eles sempre pensam que podem fazer melhor do que você.”

Johan Cruyff.

 

A Holanda iria para a final, encarar mais uma Alemanha, dessa vez a Ocidental de Franz Beckenbauer, que também já havia conquistado o grande prêmio da revista France Football. O duelo era baseado em conceitos diferentes, escolas com visões distintas, mas que naquela Copa provaram que as duas davam resultado. A final provaria qual seria a mais eficaz. O futebol talvez não mudasse tanto com a vitória da Holanda, afinal, quando um Barcelona de Ronaldinho ou Messi encanta, a forma que encontram para pará-lo não é usando táticas inovadoras, mas sim o pragmatismo e a defesa a todo custo. Utilizam algumas características dos times que dão certo, como o esquema, utilizar mais a posse da bola. Mas não dá para dizer que um título mudaria toda a estrutura do futebol, pois não tem como competir jogando de igual pra igual com times como esse da Holanda, é pedir para levar goleadas homéricas. O futebol vive de resultados, não de espetáculo. Essa é a triste realidade.

O futebol comum vencia a revolução de Michels e Cruyff.

Só que a realidade começou otimista para a Holanda, que logo marcou, após penalti sofrido por Cruyff. Neeskens cobra e converte, sem chances para o grande goleiro Sepp Maier. A Alemanha não se abateu, continuou focada e, ainda no primeiro tempo, recuperou a desvantagem. Dessa vez, Jansen cometeu pênalti. Breitner marcou. A Holanda fez o possível, Cruyff  também, mas após o fim do primeiro tempo e praticamente o segundo tempo inteiro sem gols, Gerd Muller, grande atacante alemão, aproveitou a chance que teve e concluiu. Aos 43 minutos, era tarde demais para a Laranja Mecânica. Talvez para o futebol.

“A Alemanha não ganhou a Copa do Mundo. Nós a perdemos”. Johan Cruyff

 MAYER X CRUYFF 74

Curiosidade:

Fato lembrado nos comentários pelo Edu Santos:

O camisa 14 se recusava a usar as três listras da camisa da Holanda, que representavam a Adidas, fornecedora da seleção. O jogador que sempre teve opiniões fortes, tinha contrato com a Puma, e por isso só usava duas listras em sua camisa.

Fontes:

Mauro Betting e Lance – Grande parte do conteúdo, principalmente as frases, retiradas dessas duas fontes.

Área do Pênalti – Confira o perfil de cada jogador daquela equipe de 1974

Veja

Comentários