Rei de Copas: Salvatore Schillaci

  • por Victor Gandra Quintas
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SALVATORE

O INÍCIO

Apesar de alguns percalços, os anos 80 foram uma boa época para a Itália. Os grandes clubes conquistavam torneios europeus, a seleção vinha de uma conquista da Copa do Mundo em 1982, e só não fez melhor campanha em 1986 por conta da boa seleção francesa comandada por Michel Platini.

Uma época dourada, em que inúmeros craques desfilavam suas habilidades no país da bota. O público lotava os bons estádios da época. Assim, ter o maior torneio de futebol do mundo em seus domínios seria o encerramento perfeito da década. Porém, mais do que isso, repetir o feito de 1934, 1938 e principalmente 1982, diante de seus adeptos, seria, para os italianos, o ápice deste periodo, no qual brilharam craques do nível de Dino Zoff, Franco Baresi, Gaetano Scirea, Claudio Gentille e Paolo Rossi.

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Foto: Reprodução – jogadores comemoram o título do mundial de 1982.

Mas para a disputa de 1990, outros grandes nomes despontavam para substituir a geração de craques dos anos anteriores. Sob a batuta do experiente Baresi, jogadores como Walter Zenga, Paolo Maldini, Giuseppe Giannini e Gianluca Vialli viriam se tornar a base da seleção. Mas, dentre todos os nomes, era o de Roberto Baggio que se destacava como o favorito da massa italiana, um jogador que brilhara na Fiorentina e acabava de ir para a gigante Juventus, clube onde jogava Salvatore Schillaci, outro convocado para a Copa. Schillaci seria apenas opção, teoricamente com poucas oportunidades de jogo, mas a força de vontade e a determinação demonstrada o colocariam em um patamar superior. Eis o nosso Rei de Copas desta semana.

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ERA UMA VEZ NA ITÁLIA!

Por ser o país sede, a Itália já estava garantida na Copa do Mundo, não tendo o trabalho de disputar as Eliminatórias. Portanto, Schillaci não teve um momento de testes antes do torneiro, estreando por sua seleção já na Copa do Mundo.

Sua chamada fora apoiada pela excelente temporada da Juventus, na qual marcara 16 gols na Serie A e tivera, além do bom desempenho no campeonato italiano de 1989-90, a conquista da Taça Uefa (atual Liga Europa). Seria uma das opções de ataque, iniciando a Copa no banco de reservas. Já era uma boa conquista para o jogador, ainda desconhecido no resto do mundo.

Azeglio Vicini, então treinador da Azzurra e no cargo desde a eliminação na Copa anterior, conhecia bem seus comandados. E confiava, sobretudo, em “Totó” (apelido pelo qual o jogador é também conhecido), pois o acompanhara nas categorias inferiores da seleção italiana.

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Foto: Reprodução – Time italiano vencedor da Copa Euro 89-90. Schillaci é o terceiro agachado.

Portanto, argumentos não faltavam para a presença de Schillaci. Vale ressaltar que não era um jogador de técnica apurada, mas tinha faro de gol. Posicionava-se bem e aproveitava as oportunidades que surgiam à sua frente. E esta foi a característica que o levou a ser o maior jogador desta Copa do Mundo.

Verdade seja dita que muitos consideram a Copa do Mundo de 1990 a de nível técnico mais duvidoso, uma Copa de pouca qualidade. Mas temos de levar em conta a participação de grandes nomes da época. Craques do porte dos alemães Lothar Matthäus e Jurgen Klinsmann, dos argentinos Diego Maradona e Claudio Caniggia, os ingleses Gary Lineker e Paul Gascoigne, os holandeses Frank Rijkaard, Marco Van Basten e Ruud Gullit e os brasileiros Careca e Bebeto. Nenhum deles conseguiu o feito de ser o melhor jogador desta copa e muito menos de ser o artilheiro da competição. Esta marca pertence a Totó Schillaci.

A COPA DO MUNDO pt. I

Fase de Grupos – “Totò, o gênio do gol”!

Áustria

A frase anterior é o grito utilizado pelos tifosi italianos e ilustra bem a entrada impressionante de Schillaci no torneio. Primeira partida, dia 09 de junho, a Áustria como adversária, um jogo morno que parecia terminar em 0x0. O atacante saiu do banco para o lugar de Andrea Carnevale, aos 29 minutos do segundo tempo. E diante de 73.303 torcedores, no Estádio Olímpico, em Roma, Totó, mesmo assustado pela estreia, marca e garante a vitória para o seu país.

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Roberto Donadoni toca para Vialli na linha de fundo que cruza direto na cabeça do centroavante. Uma linda jogada do comando italiano. Ali Schillaci provava que merecia estar neste grupo.

Escalação Italiana: (1) Walter Zenga; (2) Franco Baresi, (3) Giuseppe Bergomi, (6) Riccardo Ferri, (7) Paolo Maldini; (9) Carlo Arcelotti, (11) Fernando De Napoli, (13) Giuseppe Giannini, (17) Roberto Donadoni (16) Andrea Carnevale; (21) Gianluca Vialli

“Foi assombroso ver o público. Eu já joguei em vários estádios, contra muitos adversários, mas representar meu país me assustou e emocionou. Senti-me decidido.” – Declarou Schillaci sobre a estreia.

Estados Unidos

Apesar do gol glorioso da rodada anterior, Azeglio Vicini resolveu manter Schillaci entre os reservas e continuar com o time que iniciou o campeonato. Portanto, Carnevale voltava ao 11 inicial diante dos Estados Unidos, no dia 14 de junho. No entanto, era Giuseppe Giannini quem marcaria o gol da segunda vitória dos italianos.

Com um público de 73.423 pessoas, também no Estádio Olímpico de Roma, Schillaci só jogaria a partir dos 6 minutos do segundo tempo, novamente no lugar de Canevale. Não mais sairia do time na Copa do Mundo. Esta também seria a única partida em que passaria em branco.

Escalação Italiana: (1) Walter Zenga; (2) Franco Baresi, (3) Giuseppe Bergomi, (6) Riccardo Ferri, (7) Paolo Maldini; (10) Nicola Berti, (11) Fernando De Napoli, (13) Giuseppe Giannini, (17) Roberto Donadoni (16) Andrea Carnevale; (21) Gianluca Vialli

Tchecoslováquia

Novamente no Estádio Olímpico, público de 70 mil torcedores, Schillaci formou uma parceria infernal com Roberto Baggio. A nova dupla da Juventus fez uma partida de muita qualidade frente à Tchecoslováquia, no dia 19 de junho. Os dois jogadores marcaram. Totó, logo aos 9 minutos – e comemora correndo efusivamente até Stefano Tacconi, amigo de Juventus e reserva na Azzurra – e Baggio deixando o dele no minuto 33 do segundo tempo. Poderia ter sido uma goleada não fosse o festival de gols perdidos.

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Foto: Reprodução – Schillaci e Baggio encantaram os italianos na copa de 90.

Enfim, a Itália terminava como líder do grupo com três vitórias em três jogos e quatro gols marcados e nenhum sofrido. Schillaci encaminhava a artilharia, com os dois gols até aqui. Era, definitivamente, o gênio do gol.

Escalação Italiana: (1) Walter Zenga; (2) Franco Baresi, (3) Giuseppe Bergomi, (6) Riccardo Ferri, (7) Paolo Maldini; (10) Nicola Berti, (11) Fernando De Napoli, (13) Giuseppe Giannini, (17) Roberto Donadoni (15) Roberto Baggio; (19) Salvatore Schillaci

A COPA DO MUNDO pt. II

Segunda fase – “Com Totó a festa não acaba”!

Oitavas de final – Uruguai

O final da fase de grupos ditou o Uruguai no caminho da squadra azzurra. Outra seleção que já fora campeã do mundo, mas há tempos não vivia um período de glórias. No dia 25 de junho, na disputa das oitavas de final, logo no inicio da partida, Schillaci perdeu um gol impressionante. Depois de belo cruzamento de Roberto Baggio, o atacante cabeceia pra fora, a centímetros da meta adversária. Esta seria a toada do jogo: domínio italiano quase que constante. O goleiro uruguaio, Alves, salvando inúmeras chances do que seria um massacre italiano.

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No entanto, Totó marcaria o primeiro de sua seleção aos 20 minutos do segundo tempo, um golaço no ângulo direito, de primeira, depois de bom passe no meio da defesa dado por Aldo Serena. O mesmo Serena fecharia a conta no Estádio Olímpico, com um cabeceio colocado após falta batida por Giannini. Uma boa partida para os pouco mais de 73 mil espectadores.

Escalação Italiana: (1) Walter Zenga; (2) Franco Baresi, (3) Giuseppe Bergomi, (4) Luigi De Agostini, (6) Riccardo Ferri, (7) Paolo Maldini; (10) Nicola Berti, (11) Fernando De Napoli, (13) Giuseppe Giannini, (15) Roberto Baggio; (19) Salvatore Schillaci

Quartas de final – Irlanda

O chaveamento colocou a Irlanda frente à Itália na fase seguinte, no dia 30 de junho. O comandado irlandês só tinha um pensamento: defender-se a todo custo. Mesmo que isso fosse feito à base de muita marcação e entradas duras. Tinham chegado a esta fase da Copa do Mundo somente com empates, dois deles por 0x0, inclusive nas oitavas de final, quando venceram a Romênia na disputa de penalidades. Portanto, não seria fácil para a Itália ultrapassar a retranca, e precisaria muito do espirito de goleador da estrela em ascensão Salvatore Schillaci. Novamente 73 mil torcedores voltaram ao estádio Olímpico para ver a sua seleção jogar, a qual não desapontou.

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Foto: Reprodução – Formação contra a Tchecoslováquia:  (em pé) Zenga, Maldini, De Napoli, Berti, Ferri, Bergomi; (agachados) Schillaci, Baggio, Giannini, Donadoni, Baresi

Com jogadas rápidas, toques curtos, os italianos tentavam impôr seu futebol e ultrapassar as constantes investidas dos marcadores irlandeses. Em um destes momentos, Donadoni acerta um belo chute, o goleiro Bonner defende, mas permite um rebote no lado esquerdo, sobrando para Totó salvar a pátria, aos 38 minutos da partida. Um remate curto, no contra pé do goleiro já batido. E seria isso! Os italianos estavam nas semifinais! A Argentina seria o próximo desafio!

Escalação italiana: (1) Walter Zenga; (2) Franco Baresi, (3) Giuseppe Bergomi, (4) Luigi De Agostini, (6) Riccardo Ferri, (7) Paolo Maldini; (11) Fernando De Napoli, (13) Giuseppe Giannini, (17) Roberto Donadoni; (15) Roberto Baggio; (19) Salvatore Schillaci

A UM PASSO DA GLÓRIA!

Terceira fase – “Totò, você nos faz sonhar”!

Semifinal – Argentina

Faltava pouco para a Itália repetir o feito de três outros anos (quatro, se contarmos a final alcançada em 1970). Ainda sem sofrer gols, e com a fase mágica se Schillaci, parecia que nada impediria o ímpeto italiano. Saíram de Roma, finalmente, para jogar em Nápoles, no estádio San Paolo, com participação de quase 60.000 pessoas, no dia 3 de julho.

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17 minutos. Foi o tempo que Totó demorou a marcar. Mais um gol característico, cheio de oportunismo, diante do rebote dado pelo goleiro adversário, Goycochea. Gianinni, em um lance magnifico na entrada da área, onde dá um chapéu no zagueiro, toca de cabeça para Vialli, que chuta sobre o arqueiro argentino. A bola sobra no pé do artilheiro. 1×0 Itália.

Entretanto, a Azzurra diminui o ímpeto e deixa a Argentina gostar do jogo. Se deixar uma equipe que conta com Maradona e Caniggia ter espaços, definitivamente sofrerá gols. E no minutos 22 do segundo tempo, em troca de passes diante da área italiana, Maradona abre o jogo pela esquerda com Olarticoechea, que cruza para Caniggia empatar. O primeiro gol sofrido pelos italianos naquela Copa. Um gol que culminaria em desastre.

Maradona estava em casa, em Nápoles. E mesmo não repetindo a excelente Copa que fizera em 1986, quando foi campeão, ainda era um dos maiores nomes do esporte e capaz de comandar seus companheiros. E nem mesmo Schillaci, que fizera sua parte, fora páreo para aquela seleção sul-americana duas vezes campeã do mundo.

A decisão foi aos pênaltis, terror máximo para os jogadores e torcedores italianos.

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Foto: Reprodução – Schillaci marcando Maradona.

Na primeira rodada, Baresi e Serrizuela marcaram para Itália e Argentina, respectivamente, seguidos por Baggio e Burruchaga na segunda e De Agostini e Olarticoechea na terceira. No entanto, se Goycochea havia falhado no gol durante a partida, aqui iria ao céu, defendendo as cobranças de Donadoni e Serena. Maradona marcaria o último, dando a vitória e classificação para aos argentinos. A Itália não voltaria a Roma para disputar a grande decisão.

Um final triste para um bom time. A seleção da Itália, que via surgir um novo ídolo e goleador, caía diante de sua torcida.

Restava a decisão do terceiro lugar para recuperar a honra.

Enfrentariam a Inglaterra, que sucumbira à fortíssima Alemanha, de Lothar Matthäus.

Escalação italiana: (1) Walter Zenga; (2) Franco Baresi, (3) Giuseppe Bergomi, (4) Luigi De Agostini, (6) Riccardo Ferri, (7) Paolo Maldini; (11) Fernando De Napoli, (13) Giuseppe Giannini, (17) Roberto Donadoni; (19) Salvatore Schillaci; (21) Gianluca Vialli

Decisão do Terceiro Lugar – Inglaterra

Abatidos, os jogadores italianos entraram, porém, decididos a pelo menos deixar orgulhosos seus torcedores com uma vitória em sua última partida na Copa do Mundo. Disputada no dia 07 de julho, os gols saíram somente no segundo tempo, com Baggio abrindo o placar aos 26 minutos. 10 minutos depois, a Inglaterra chega ao empate com David Platt.

Pênalti. 41 minutos. 51.426 pessoas no estádio San Nicola, em Bari. Baggio toca curto para ele, Salvatore Schillaci, que cai após falta de Paul Parker. Ele mesmo bate a penalidade e marca. Um erro ter ficado de fora da lista de cobradores nas quartas de final.

Escalação italiana: (1) Walter Zenga; (2) Franco Baresi, (3) Giuseppe Bergomi, (4) Luigi De Agostini, (5) Ciro Ferrara, (7) Paolo Maldini; (8) Pietro Vierchowod, (9) Carlo Ancelotti (13) Giuseppe Giannini; (15) Roberto Baggio; (19) Salvatore Schillaci

O REI DA COPA!

Ovacionado, Totó Schillaci, antes um jogador comum, escrevia com letras douradas seu nome na história do futebol mundial. Nascido em Palermo no dia 1º de dezembro de 1964, se consagrava, aos 26 anos de idade, como artilheiro (seis gols) e no melhor jogador da competição.

Por mais que se critique esta edição de Copa, ainda assim é um torneio onde poucos podem se gabar por estar no topo, ainda mais não sendo campeão. É inegável a sua alegria em marcar, quando corre sem rumo, demostrando efusivamente que este é seu ofício, sua profissão, sua paixão.

Schillaci ainda faria alguns amistosos com a camisa azul, mas seu reinado durara apenas as duas semanas da Copa. Mas o suficiente para ser o Rei da Copa de 1990.

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“A experiência de Copa do Mundo foi incrível e única”, disse Schillaci em 2010. “Todo jogador sonha em participar de uma Copa do Mundo como aquela. Foi incrível para mim, o que me permite ser reconhecido em todo o mundo, mesmo 20 anos depois. Parece que foi ontem, aquelas foram realmente noites mágicas”.

Colaboração de Felippe Garcia, José Eduardo Volpini e Sérgio Lopes.

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Natural de Belo Horizonte. Torcedor do Cruzeiro e da Juventus. Um Doente por Futebol. Desde pequeno um apreciador do esporte mais popular do mundo, preferindo mais em acompanhar do que jogar (principalmente por não ter talento algum com a bola).

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