DOENTES POR FUTEBOL

Vaticano: Onde futebol e religião se misturam – Parte 2: A Clericus Cup e a seleção local

Continuando nossa matéria especial sobre o futebol no Vaticano, veremos algumas curiosidades sobre a Clericus Cup e a seleção de futebol do país. A primeira parte está disponível em http://www.doentesporfutebol.com.br/2013/03/12/vaticano-parte1/

A Clericus Cup

ODD Shark

O Centro Sportivo Italiano (CSI) organiza, desde a temporada 2006/2007, a Clericus Cup, disputada entre padres e seminaristas de todo o mundo que estudam nas universidades, colégios e seminários pontifícios de Roma.

O Papa Bento XVI abençoa a taça

O Papa Bento XVI abençoa a taça

A primeira edição foi disputada por 16 equipes e, na abertura, os brasileiros do Colégio Gregoriano (equipe Gregoriana) foram goleados pelo Mater Ecclesiae por 6×0. Nossos conterrâneos acabaram em sexto lugar no grupo de oito equipes e não se classificaram para as quartas de final.

Na final, realizada no Oratório San Pietro, onde foram disputados todos os jogos, o Redemptoris Mater, um seminário neocatecumenal de Roma, bateu a Pontifícia Università Lateranense (Universidade Pontifícia de Latrão) por 1×0, diante de um público de cerca de 300 pessoas, após um lance polêmico.

Os campeões erguem a taça

Os campeões erguem a taça

O jogador costarriquenho Pedro Ugalde teria cavado o pênalti decisivo, que foi convertido por Piermarini aos 15 minutos do segundo tempo. O treinador do time perdedor, Marco Cerquetani, declarou, ao fim do jogo, que a arbitragem não o agradou.

Jogadores de 51 países, incluindo Papua Nova Guiné, Ruanda, Vietnã e Mianmar, participaram dessa edição. Para quem acha que o jogo dos religiosos é 100% limpo, quatro expulsões aconteceram durante os 58 jogos da competição, além de dois cartões azuis.

O primeiro cartão vermelho foi dado para Jerônimo Cucafate, salvadorenho da Sé Sapientiae, na derrota por 3×1 para a Pontifícia Universidade Lateranense.

Cartão azul? Sim, algumas regras do torneio diferem das originais, como:

– Existe um cartão azul que pune o infrator com 5 minutos de “descanso”.

– As partidas são jogadas em dois tempos de 30 minutos.

– Em caso de empate, as partidas vão para os pênaltis, com a vitória valendo 2 pontos e a derrota 1.

– São possíveis cinco substituições por equipe.

– A cada tempo de jogo é possível um tempo de descanso de 2 minutos, a ser solicitado por cada equipe.

Na abertura da segunda edição do torneio, foi utilizado um árbitro profissional da série A italiana: Stefano Farina apitou o jogo em que o Mater Ecclesiae venceu o Colégio Brasileiro por 2×1.

Na final, o mesmo Colégio Mater Ecclesiae, composto em sua maioria por jogadores latino-americanos, venceu o Redemptoris Mates por 2×1. Os dois jogos foram disputados no Stadio dei Marmi, que sediou alguns jogos de hóquei sobre a grama nos Jogos Olímpicos de Roma, em 1960. O Estádio continuou sediando várias partidas das edições seguintes da competição, principalmente as finais.

Nesta edição foi instituída uma lei do silêncio durante os jogos, proibindo que tambores e outros instrumentos barulhentos fossem levados pela torcida, em virtude da reclamação de moradores próximos ao estádio.

Protesto contra o barulho

Protesto contra o barulho

Em 2009 e 2010, novas vitórias do Redemptoris Mater. Nos dois anos a final foi contra os americanos do North American Martyrs (Pontifício Colégio Norte-Americano), ambas vencidas por 1×0.

Em 2011, a Pontifícia Universidade Gregoriana venceu a equipe Angelicum, da Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino, por 3×1 na final. Segundo o site Roma Sette, a comemoração foi cantando Waka Waka, de Shakira.

Como curiosidade, a Pontifícia Universidade São Tomas de Aquino foi onde o Papa João Paulo II estudou teologia.

Em 2012, o North American Martyrs finalmente venceu o torneio: 3×0 na Pontifícia Universidade Gregoriana.

Em 2013, os brasileiros do Colégio Pio Brasileiro estrearam em um clássico sul-americano contra o Verbo Incarnato, representantes argentinos da Congregação Verbo Encarnado, e venceram nos pênaltis por 8×7 após empate em 1 x1 no tempo normal. A decisão por pênaltis pode ser conferida em http://www.youtube.com/watch?v=TgUbESaN7bU.

Embora vistam as cores da Argentina e sejam ditos como argentinos, o Incarnato possui apenas 7 jogadores nascidos no país. O Colégio Pio Brasileiro possui 18 jogadores brasileiros, um português, um eslovaco, um nigeriano e um ucraniano.

Foto dos brasileiros

 Foto dos brasileiros

Na segunda rodada, a equipe perdeu por 4×1 para o Redemptoris Mater, formado fundamentalmente por italianos. No sábado que vem (16/03), o time decide vaga com o Guanelliani, que conta com 10 nigerianos. Após duas rodadas, a liderança do grupo C é do Redemptoris, com 6 pontos. “Argentinos” tem 4, “brasileiros” 2 e “nigerianos” 0.

Duelo entre Redemptoris e Piu Brasileiro

Duelo entre Redemptoris e Piu Brasileiro

Nos campos da Clericus Cup, uma anedota é contada: o cardeal José Saraiva Martins teria enfrentado Garrincha quando jogava pelas categorias de base do Benfica.

Em 2013, são exatos 60 países representados na competição: África do Sul, Albânia, Alemanha, Angola, Argentina, Austrália, Bélgica, Bósnia, Botsuana, Brasil, Burkina Faso, Camarões, Chile, Colômbia, Congo, Coréia do Sul, Croácia, El salvador, Equador, Escócia, Eslováquia, Espanha, EUA, França, Gana, Geórgia, Guatemala, Guiné, Haiti, Indonésia, Índia, Inglaterra, Irlanda, Itália, Lesoto, México, Montenegro, Mianmar, Nigéria, Panamá, Papua Nova Guiné, Paquistão, Paraguai, Peru, Polônia, Portugal, Quênia, República Democrática do Congo, República Dominicana, Senegal, Sudão, Sudão do Sul, Tadjiquistão, Tanzânia, Timor Leste, Ucrânia, Uganda, Vietnã, Zâmbia e Zimbabue

Na lista de inscritos, encontram-se “jogadores” jovens, com menos de 20 anos, e também mais velhos, com mais de 50 anos, o torna a troca de experiências ainda maior.

A Seleção Local

Tarcísio Bertone declarou, em 2007, que Vaticano poderia ter sua seleção, ou um time de futebol que poderia jogar a liga italiana. Afirmou ainda que se a equipe fosse formado apenas por estudantes brasileiros das universidades pontifícias da cidade seria excelente. Alguns anos depois, ele disse que tudo foi apenas uma piada.

Existe um grande problema quando se pensa em formar uma seleção da cidade do Vaticano, não lembrado por muitos. Para ser cidadão vaticano, não basta ter nascido no país, mas sim ter alguma função relacionada com a Santa Sé. São exemplos de cidadãos vaticanos, por exemplo, o Papa, os cardeais e a Guarda Suíça.

Assim, quem normalmente representa Vaticano em amistosos internacionais é a Guarda Suíça Pontifícia.  Como ela faz a defesa do Papa, é impossível que dezenas de jogadores saiam do serviço, importantíssimo, para disputar uma competição internacional por uma ou duas semanas.

Há informações bastante controversas sobre Vaticano sobre quantas partidas Vaticano já teria feito como seleção. Na maioria das vezes o selecionado que disputa partidas amistosas é uma mescla de várias “equipes”, enquanto em outras vezes são os funcionários de determinado setor que representam o país.

Logo e uniforme da seleção

Logo e uniforme da seleção

De uma maneira mais geral, o time é composto por funcionários do museu e da Guarda Suíça, sendo estes os únicos que podem adquirir a nacionalidade vaticana. Segundo o site oficial do país, em 31 de dezembro de 2011 havia 594 pessoas com a cidadania vaticana, sendo 109 membros da Guarda Suíça.

Em 1985, uma equipe local venceu um combinado de jornalistas austríacos por 3×0, tendo sido esse aparentemente a primeira vez em que se reuniu um selecionado do Estado.

A Seleção do Vaticano, jogando com as cores branca e amarela, tal qual sua bandeira nacional, fez um amistoso com Mônaco em 2002. O placar foi de 0x0. Algumas referências informam, porém, que o placar teria sido 1×1.

Seleção Vaticana

Seleção Vaticana

Nesta partida, o único jogador a ter nacionalidade vaticana seria Marcello Rosati. A Escalação do time, segundo a RSSF, foi: Panzini, Ticconi, Durante, Pietropaolo, Iafolla [c], Pacchiano (Perugini 46′), Perinelli (Testa 46′), Troiani (Marcello Rosati 77′), Germani (Bertoldo 46′), De Mattia (Mariotti 39′), Rossi (Badii 29′).

Quatro anos depois, venceu uma equipe (bem) amadora da Suíça, o SV Vollmond, por 5×1, que foi criada exatamente para fazer amistosos com “seleções alternativas”.  Teria feito ainda um jogo contra uma seleção de religiosos italianos em 2007, vencido por 3×0.

Entrada para o jogo com o Vollmond

Entrada para o jogo com o Vollmond

Na internet, é apresentado um jogo em que o Vaticano teria empatado com San Marino em 0x0. Porém, segundo Giancarlo Taraglio, secretário da associação de futebol do país, em matéria na revista World Soccer de dezembro de 2011, tal jogo nunca existiu.

Em 2011, a seleção do país jogou um triangular com combinados de jogadores franceses e italianos da empresa Total , empatou com um time de veteranos de St. Pauli (2×2) e bateu um time do ministério da República Tcheca por 9×1.

Em 7 de maio do mesmo ano, Mônaco venceu a seleção Vaticana por 2×1. Alessandro Quarto marcou o gol vaticano.

Há algumas partidas menores que podem ter sido disputadas por funcionários do governo do Vaticano, e cujo fórum de discussão http://roonba.fr.yuku.com/reply/16031 apresenta as referências.

Em 23 de outubro de 2010, houve um jogo bastante comentado, principalmente antes da data. Especulou-se que Giovanni Trapatonni treinaria a “seleção” formada por seminaristas de diversos países do mundo, que enfrentaria o time da guarda financeira (Guarda de Finanza), que seria treinada por Roberto Donadoni. A seleção na verdade era como um “all star” dos melhores jogadores da Clericus Cup, e, por não terem nacionalidade vaticana, não poderiam representar o país. Portanto, não era uma seleção nacional, tanto que foi chamada de “Top Cup”.

O ex-jogador e treinador italiano Walter Novellino acabou treinando o time, enquanto Gianni de Biasi, que treinou Torino e Udinese, foi o comandante do time da guarda financeira. No fim, 1×0 para os policiais.

Os religiosos acabaram vestindo preto e branco porque os uniformes não chegaram a tempo, e jogadores de França (1) Brasil (1), Itália (2), Polônia, Papua Nova Guiné, Camarões, Gana, Lesoto, Senegal, EUA e Polônia compunham a equipe. O representante brasileiro foi o zagueiro paranaense Marcos Zubyk, de 25 anos.

O jogo fez parte da iniciativa “Um altro cálcio è possibile”, que vem se consolidando ano após ano. Em 2011 foi realizado um triangular entre o time do Exército, o time da Guarda de Finanças e o Top Cup, vencido pelo Exército.

Em 2012, no quadrangular “Um altro cálcio è possibile 3”,um time da Gendarmeria também participou, ficando em terceiro lugar. O Top Cup foi o lanterna e o time do Exército bateu o time das Guarda de Finanças por 1×0 na final.

Programação do evento

Programação do evento

Em 26 de outubro de 2010 (três dias após a exibição contra a guarda financeira), a seleção teria enfrentado a Palestina. Na verdade, foi um combinado de padres católicos,a maioria italianos já de meia idade, que foram à Palestina, em jogo organizado pela Fundação João Paulo II, de Belém. Depois de segurar o empate sem gols no primeiro tempo, os padres cansaram e levaram 9×1 ao fim do jogo.

Quem jogou essa partida, porém, foi a “Seleção Sacerdoti Calcio”, que faz parte de um projeto que pode ser conferido em http://www.sacerdoticalcio.it/index.htm.

O futuro

O futebol do Vaticano parece ser tipicamente amistoso, e é dessa forma que deve continuar. Não há realmente motivos para que a nação tente entrar na UEFA e disputar torneios profissionais, pois o ambiente competitivo com certeza não está em sintonia com os ideais de quem lá trabalha.

Além disso, têm-se os já citados motivos que dificultam a formação da seleção nacional: poucos cidadãos e a impossibilidade de saída do Estado e suspensão do trabalho de seus “jogadores” por muito tempo.

Em 2012, o site máquina do esporte divulgou que a Santa Sé retirou o apoio financeiro á Clericus Cup, devido a condutas irregulares e violentas acontecidas em edições anteriores. Mesmo assim, a competição está sendo realizada em 2013, e é um evento que proporciona grande integração entre os estudantes das diversas nações que lá estudam.

Particularmente, vejo o futebol do Vaticano, tanto o organizado pela federação quanto o organizado pelo CSI, como aqueles jogos de empresa, em que funcionários de determinada área enfrentam o de outra, ou como os torneios universitários, em que várias faculdades querem provar que são melhores.

Tudo, claro, diante da paz que deveria haver em todos os gramados do mundo.

O conteúdo acima é de responsabilidade expressa de seu autor. O Doentes por Futebol respeita todas as opiniões discordantes e tem por missão promover o debate saudável entre ideias.

Sergio Rocha é torcedor do Madureira e sempre teve o sonho de escrever sobre esportes em geral, embora tenha optado pela carreira de engenheiro civil. No "currículo", cadernos recheados de resultados esportivos e agendas da década de 90, quando antes da internet acessava rádios de diversos locais do país buscando os resultados esportivos do Acre à Costa Rica. Além de fanático por futebol, é fanático por praticamente todos os esportes, e no tempo livre que sobra sempre busca os últimos resultados esportivos do PGA Tour ou dos futures da ATP. Além disso, coleciona quadrinhos da Disney e é louco por astronomia.