1996, o ano da glória sul-africana.

  • por Rogério Bibiano
  • 4 Anos atrás

AFRICA DO SUL_1996_SITE

Andre Arendse, Sizwe Motaung, Luca Radebe, Mark Fish, Neil Tovey, Linda Buthelezi, Helman Mkhalele, Eric Tinkler, John Moshoeu, Doctor Khumalo, Shaun Bartlett, Paul Masinga e Mark Williams. Com este time, Mama África chega na área!

O doente por futebol que viu estes nomes citados acima, há de se recordar nostalgicamente da melhor geração do futebol sul-africano que já surgiu. Para os mais jovens que não tiveram a oportunidade, é sempre bom para compreender a importância deste time para o futebol africano, mas acima de tudo para o país.

Um breve resumo do contexto histórico

A África do Sul foi colonizada inicialmente pelos holandeses, que chegaram ao sul do país em 1652, quando estabeleceram no país uma escala para os navios da Companhia Holandesa das Índias Orientais, a caminho da Indonésia. Os holandeses ficaram conhecidos pelo nome de bôers, derivação da palavra holandesa bôer, que significa agricultor. Utilizavam o trabalho escravo dos nativos em suas plantações litorâneas.

Em 1795, a colônia do Cabo foi tomada pelo Reino Unido, tornando-se possessão britânica em 1814, graças ao Congresso de Viena. Com a escravidão abolida em todo o Império Britânico, em 1834, graves atritos começaram entre holandeses e britânicos e aumentaram com a descoberta de diamantes e ouro. Uma guerra entre os colonizadores se iniciou.

Em 1910, uma Constituição negociada entre holandeses e ingleses criou a União Sul-Africana. Assim, todo o controle político foi dado aos colonizadores, que impediram o direito dos nativos de ocuparem lugar no parlamento. Era o início da oficialização de segregação racial, que na prática já ocorria, porém com algumas exceções.


A Constituição de 1910 oficializava as primeiras leis de segregação racial, tais como a proibição dos não-brancos de quebrarem um contrato de trabalho e a vedação de se tornarem membros da Igreja Reformada Holandesa. Em 1913, todos os negros, com exceção dos moradores da província do Cabo, foram impedidos de comprarem terras fora das “reservas indígenas”. Ainda naquele ano, a Lei de Terras Nativas dividiu a posse da terra na África do Sul por grupos raciais. Os negros, que constituíam dois terços da população, passaram a ter direito a apenas 7,5% das terras, enquanto os brancos, um quinto da população, tinham direito a 92,5% do território. As pessoas “de cor” (mestiços) não tinham direito à posse da terra. A lei determinava ainda que os negros só poderiam viver fora de suas terras quando fossem empregados dos brancos. Passou também a ser ilegal a prática usual de ter rendeiros negros nas plantações.

Em 1948, o regime de apartheid foi oficialmente proclamado. Na década de 50, começaram as primeiras manifestações de resistência por parte da maioria negra da população, que resultaram em inúmeras tragédias ao longo dos anos do regime. Dentre as figuras de oposição ao regime segregacista, Nelson Mandela foi sem dúvida o de maior destaque. Ele foi preso em 1963, acusado de traição.

Em 1973, a África do Sul sofria as consequências de sua escolha pró-apartheid, sofrendo sanções em todas as áreas, incluindo a esportiva. Em 1990, o presidente Frederic de Klerk libertou Mandela da prisão. Em 1994, Nelson Mandela tomou posse como primeiro presidente negro sul-africano, na primeira eleição multi-racial, inaugurando assim uma nova era no país e decretando definitivamente o fim do apartheid.

Copa Africana das Nações de 1996: a glória da África do Sul!

Em setembro de 1994, após anos de ostracismo devido ao apartheid, a África do Sul estava novamente presente no cenário esportivo mundial. O Quênia iria sediar a Copa Africana das Nações de 1996, mas desistiu de organizar o torneio devido a problemas econômicos. A África do Sul assumiu junto à Confederação Africana de Futebol o compromisso de sediar o evento.

Começava então, um plano para reestruturar a seleção, que contava com ótimos nomes mas não tinha experiência internacional. Outra dúvida era em relação ao novo momento vivido pelo país. Como unir os talentosos jogadores negros, com os disciplinados jogadores brancos? Quem seria o treinador? Eram situações que todos os torcedores sul-africanos questionavam-se ao longo do período.

Para comandar os Bafana Bafana, o escolhido foi Clive Barker, que como jogador e treinador criou-se no futebol sul-africano, sendo um dos treinadores mais vitoriosos do país. De personalidade forte e disciplinador, Barker já havia trabalhado com os principais jogadores sul-africanos da época e isso sem dúvida viria a facilitar o seu trabalho.

Clive Barker foi o treinador encarregado da missão de montar o primeiro time pós-apartheid. - foto: reprdoução - kickoff.com

Clive Barker foi o treinador encarregado da missão de montar o primeiro time pós-apartheid. – foto: reprdoução – kickoff.com

Efetivamente o projeto da África do Sul começou em 1995 e esbarrava na falta de amistosos contra seleções de maior tradição mesmo dentro do continente. Este era o preço que o futebol da África do Sul ainda pagava pelos anos de embargo esportivo, em razão do apartheid. Em dezembro, a equipe fez bons jogos contra Egito e Costa do Marfim pela Copa Simba, indicando que o trabalho poderia ter êxito.

No dia 13/01/1996, no FNB Stadium (que em 2010 viria a ser conhecido como Soccer City) com 80.000 espectadores, a África do Sul estreou contra a tradicionalíssima seleção de Camarões. Em uma das maiores atuações da história dos Bafana Bafana, um 3×0 para não deixar dúvidas que aquela África do Sul iria marcar época. Masinga, Mark Williams e Moshoeu fizeram os gols da vitória.


Uma semana depois, um jogo complicado, com muita marcação e contra um adversário que estava acostumado a jogar contra os sul-africanos, desde o retorno destes ao futebol internacional: Angola. Mark Williams, aos 12 minutos do segundo tempo, foi o autor do gol que deu a vitória para a África do Sul, levando à loucura os 78.000 torcedores presentes no FNB Stadium, em Johanesburgo.

Quatro dias depois, a África do Sul enfrentou no FNB Stadium o Egito. Em dezembro, os sul-africanos haviam vencido por 2×1. O Egito marcou logo aos 7 minutos da etapa inicial, com Ahmed El-Kass, e segurou a pressão de todo o estádio e dos Bafana Bafana. Apesar da derrota, a África do Sul classificou-se em primeiro lugar no grupo A, com os mesmos 6 pontos do Egito, mas um saldo de gols melhor.

No dia 27/01/1996, a África do Sul colocaria a prova o trabalho de reconstrução do futebol do país contra a perigosa Argélia. Um jogo nervoso e catimbado, com chances de ambos os lados, disputado sob chuva. No primeiro tempo, a África do Sul desperdiçou uma penalidade, com Moshoeu, defendida pelo goleiro Haniched. Os sul-africanos abriram o placar com o jovem Mark Fish, aos 27 minutos da segunda etapa, concluindo de carrinho uma jogada aparentemente perdida.

Atrás do placar, os argelinos abandonaram o jogo tático e partiram para cima, desordenadamente, empatando o jogo com Tarek Lazizi, aos 39 minutos, escorando de cabeça um escanteio. Porém, na saída de bola, os Bafana Bafana se mandaram ao ataque e, após Luca Radebe dar um carrinho, a bola sobrou para John Moshoeu, que ajeitou e acertou um belo chute cruzado, passando de vilão a herói da classificação sul-africana às semifinais da CAN.

Nas semifinais, a África do Sul teria pela frente outra campeã continental: Gana, do artilheiro Anthony Yeboah (Abedi Pele, suspenso, não jogou). Se contra Camarões os Bafana Bafana tiveram uma atuação de gala, contra Gana não foi diferente. Contrariando a expectativa de um jogo mais complicado, os sul-africanos atropelaram as Estrelas Negras: 3×0, com dois gols de John Moshoeu e um de Shaun Bartlett. A confiança era grande e o clima de otimismo no país era sem igual.

No dia 03/02/1996, a África do Sul entrou no FNB Stadium, ante 80.000 torcedores, para encarar a Tunísia. Com a personalidade de um time campeão, os sul-africanos pressionaram desde o princípio, mas esbarravam na ansiedade nos momentos decisivos. No segundo tempo, aos 28 minutos, Mark Williams escorou de cabeça cruzamento de Masinga, após confusão na área tunisiana, e inaugurou o placar. Aos 30 minutos, após desarme na saída de bola tunisiana, Luca Radebe rolou para Mark Williams decretar a glória sul-africana. O placar de 2×0 trouxe o tão sonhado título da CAN.

Com uma média de idade de 27 anos, o time da África do Sul contava com uma geração madura, mas inexperiente em jogos internacionais. No entanto, unidos pela bandeira de uma nova África do Sul, superaram as dificuldades e, contando com o apoio de seu torcedor, transformaram o futebol no país. Este é o legado da África do Sul de 1996. A geração ainda iria conquistar uma inédita classificação para a Copa do Mundo de 1998 disputada na França.

Mark Williams no arremate decisivo, tirando a bola do alcance do goleiro tunisiano El Ouaer. - foto: reprodução - football 1857

Mark Williams no arremate decisivo, tirando a bola do alcance do goleiro tunisiano El Ouaer. – foto: reprodução – football 1857

A conquista continental trouxe a África do Sul para a vitrine do futebol mundial. E um grande desejo dos africanos era fazer a chamada “batalha mãe”, contra o Brasil. E no dia 24/04/1996, a África do Sul, campeã da África, enfrentou o campeão mundial, a Seleção Brasileira. Jogaço disputado na Cidade do Cabo, que começou com os sul-africanos abrindo 2×0. Porém, o Brasil em 1996 era uma seleção de respeito e que impunha este status adquirido dentro de campo. Então, numa virada sensacional, venceu por 3×2, num jogo que ficou marcado pelas comemorações de gol imitando aviões de ambas as comissões técnicas.


Esta é a história de uma das gerações mais talentosas do futebol africano e, sem sombra de dúvidas, a maior geração futebolística da história sul-africana. Jogadores que felizmente ainda tiveram tempo de mostrar em campo o seu melhor valor e, sob a luz inspiradora do líder Nelson Mandela, unir o povo sul-africano sob a bandeira do futebol, num momento único na história do esporte. A maior geração do futebol da África do Sul é a de 1996, um ano que não sai da memória do torcedor e admirador dos Bafana Bafana.

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Natural de Telêmaco Borba-PR e criado em meio à "boemia futebolística", com horas de papo sobre futebol, samba e cervejas na pauta. Influência do pai, que também adorava futebol, e da mãe, que sempre apoiou a iniciativa. Técnico em Eletrônica, formado desde 1999, e fanático por futebol, futsal, futebol de praia, society e todo esporte que tenha no futebol a sua essência.