As Raposas e o Maestro

Yazid, o orgulho da Argélia

Tarde quente em Argel. Na África setentrional, o outono ainda é capaz de proporcionar algumas tardes como esta, mesmo em pleno mês de outubro. Não é só pelo calor: é dia de decisão para as Raposas do Deserto, que enfrentarão, em casa cheia, a temida seleção nigeriana. Os olhos do mundo estarão no Stade Cinq de Juillet para ver se os Super Águias, então temidos campeões olímpicos, ratificarão sua ida à Copa do Mundo. Seriam a primeira seleção africana a chegar a um Mundial com perspectivas reais de surpreender e avançar. Kanu, Okocha e outros medalhistas de ouro são aguardados na França para brilhar, desta vez, num palco maior. No entanto, a situação nigeriana não era tão confortável: o jogo de ida, em Lagos, terminara empatado em 1×1. Uma vitória que parecia certa jogada fora, contra um adversário que havia cambaleado por toda a primeira fase e conseguido a classificação só na bacia das almas. Uma equipe fraca, com poucos bons valores, mas que tinha no seu meio-campo uma verdadeira joia.

A ilha de talento vestia a jaqueta que é sua por excelência. O número 10 que Yazid levava às costas servia para deixar claro: era ele o toque de classe e refinamento em um time de operários. Seus passes, milimétricos, faziam o jogo fluir. Sua presença era pouco vista nas listas de artilheiros ou de assistentes, mas geralmente era ele quem planejava e iniciava as principais jogadas. Nos melhores momentos, aparecia geralmente no começo dos lances, dando aqueles passes que desmontam defesas. Seus companheiros nem sempre aproveitavam os coelhos que ele, magistralmente, extraía de sua cartola. Quando a situação apertava, entretanto, ele resolvia dar as caras: era o homem dos gols decisivos. Foi ele, Yazid, o autor do gol que, aos 43’ do segundo tempo, coroou a ótima atuação argelina em Lagos, mantendo o placar em igualdade e mantendo vivas as expectativas de seus compatriotas. Yazid era daqueles que não costumam vacilar quando o destino manda um de seus cavalos selados.

Residiam nele todas as esperanças do povo argelino de ir à Copa do Mundo. Que seria tão emblemática para ele, criado a vida inteira justamente na França, mas que defendia a Argélia porque seu espírito era de lá. A memória dos seus antepassados criou nele uma identidade difícil de se deixar modificar pela ação do “meio”: Yazid era muçulmano e seus costumes, intensamente ligados ao islamismo magrebino, tipicamente argelino. Não houve nem o que optar – ele jamais se imaginou defendendo o clássico padrão dos Bleus. A vida inteira sonhou em vestir as cores da sua nação, e agora via a sua hora de brilhar e entrar de vez no rol dos grandes do futebol africano. Era momento de superar o favoritismo adversário e levar sua seleção a uma glória só alcançada duas vezes em toda a sua história.

Com mais de 70 mil pagantes presentes ao jogo, as Raposas entraram no gramado com sede. A seleção nigeriana vinha com seu time completo. Sob sol intenso e um calor de mais de 40º C, Yazid deu o pontapé inicial do confronto. Tentou passar tranquilidade para os companheiros: sabia que era hora de segurar o ímpeto dos Super Águias, cientes de sua superioridade enquanto time e agressivos na mesma medida. Mesmo aos 25 anos de idade, ele era disparadamente o jogador argelino mais experiente e rodado nos grandes centros europeus. Estava acostumado a enfrentar jogadores de alto nível, e sabia que qualquer descuido poderia custar a vaga e inflingir duro sofrimento a uma nação que estava em sinergia, unida pelo desejo de voltar a disputar um Mundial. Um domínio errado na defesa e: bola na trave! Uma falha no jogo aéreo, e Kanu faz a bola passar a milímetros da baliza. Detalhes separavam a Nigéria do primeiro gol. Yazid fazia o que podia: tentava usar seu bom porte físico para recompor a marcação, segurar a pressão nigeriana e evitar deslizes nas bolas alçadas…

75 mil bocas silenciadas. 150 mil olhos desconsolados. Uma nação inteira devastada. West, 0x1.

Os jogadores argelinos se entreolhavam atônitos. O silêncio era ensurdecedor. Para o maestro, a hora exata de afinar as cordas e dar início ao grande espetáculo.

Taribo West comemora o importante gol: o Maestro ainda estava aquecendo.

Taribo West comemora o importante gol: o Maestro ainda estava aquecendo.

Começa, então, a sinfonia de Yazid. Bola para os violinos, agudos, criarem perigo no campo adversário. Bola na área para os contra-baixos, lá no alto, tentarem furar o bloqueio. Cadência e ritmo perfeitos, em acordes que emanam energia capaz de contaminar todo o público pagante.

O time voltou aos vestiários ensaiando sua evolução. É o momento em que os bons músicos se desdobram para fazer seus companheiros soarem o melhor possível. Nosso maestro, refinado e sereno, representa bem a figura do Messias de chuteiras: transforma operários em ultra-especialistas; cria, da água salobra, vinhos selecionados. Ele é o homem que, logo na volta do segundo tempo, recebe uma bola ainda na intermediária defensiva e encaixa um passe vertical de 20 metros, para a conclusão certeira do camisa 9 das Raposas. Mesmo sofrendo intenso domínio territorial, acuada no campo defensivo, a Argélia podia contar com a tranquilidade e a sagacidade de seu principal jogador. Para craques como Yazid, centésimos de segundo são suficientes para fazer a magia acontecer.

Sua calvície precoce impunha um certo respeito, até mesmo ares de uma experiência que ele ainda não tinha. A esta altura do jogo, ela já parecia tomada por uma vermelhidão que denunciava a intensidade do sol e a ausência completa de nuvens no céu. Essa careca já havia sido arma letal em outras oportunidades: havia saído dela o gol que classificara a Argélia para a segunda fase das Eliminatórias Africanas, num jogo duríssimo contra a seleção egípcia, uma das mais tradicionais do continente africano. Sob a pele queimada e os poucos fios de cabelo, havia um cérebro capaz de antever os lances, de executar as notas perfeitas para cada contexto, fazendo o volume de jogo das Raposas aumentar à medida que sua batuta orquestrava o seu exército. A torcida engrossava o coro, inflamada pelos gestos ora suaves, ora enérgicos, de seu maestro. O território perdido foi reconquistado. O maestro, a esta altura, já era também general.

Jogador nigeriano não identificado deixa o campo após a derrota: Yazid, mais uma vez, brilhou.

Jogador nigeriano não identificado deixa o campo: Yazid, mais uma vez, estava inspirado.

E a artilharia era intensa: a Argélia já tinha o dobro do número de escanteios da seleção nigeriana, que nem parecia mais tão favorita. Aos 38 minutos da segunda etapa, uma bola alçada à área encontra, no terceiro andar, a careca queimada do camisa 10 argelino. O vermelho toma-lhe o rosto, as veias saltam no pescoço: a bola estufa a rede! Seus olhos se enchem de um desabafo cru, e seus ouvidos, da gritaria ensandecida de 75 mil vozes argelinas em uníssono. Era difícil até mesmo respirar, com tantos companheiros puxando e empurrando, desabafando na mesma intensidade: como era bom poder contar com Yazid! A pressão da Nigéria foi sufocante nos minutos finais, mas a confiança das Raposas atingira sua plenitude. Um nirvana só alcançável por aqueles que caminham ao lado dos gigantes, e têm a consciência de que não há nada a temer. Fim de jogo, Argélia classificada e festa absoluta em todo o território nacional. A missão do maestro estava cumprida: fez dos seus companheiros brilhantes por (mais) uma tarde. Regeu sua equipe, extirpando-lhe as fraquezas e injetando largas doses de confiança em capacidades ainda desconhecidas.

No Mundial, o chaveamento difícil impediu uma campanha à altura dos sonhos do povo argelino. Uma vitória sobre a Arábia Saudita não foi suficiente para ofuscar o empate suado com a seleção francesa – no qual Yazid foi às redes pela única vez na competição – e a pesada derrota sofrida ante uma eficiente Dinamarca. No final das contas, o número de gols sofridos pesou e as Raposas, subitamente, acordaram do sonho das oitavas de final. A torcida compreendeu, afinal, os rivais eram amplamente superiores. O maestro não pôde fazer muito. O saldo de sua única Copa do Mundo foi de um gol marcado, três concertos e alguns milhares de pessoas mais felizes por tê-lo visto conduzir, sublime, seu exército de operários.

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Recifense, rubro-negro, apaixonado por música e estudante de Jornalismo. Sócio-diretor do Doentes por Futebol, com passagens por Seleção do Rádio e SuperesportesPE. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.

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