Clubes-empresa: a nova realidade do futebol

Empresas de grande porte investem pesado no esporte em busca de retorno financeiro. Casos como Audax e Grêmio Barueri são exemplos no Brasil.

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Você já imaginou se o seu clube virasse uma empresa? Olha só: o Corinthians S.A. terá como grande páreo a equipe da Sociedade Esportiva Palmeiras Ltda. Soou estranho? Pois é, esta e a mais nova realidade para muitos clubes aqui no Brasil e no exterior. A “moda” não é recente, já vem de longa data.

Com os avanços de nosso país, os clubes grandes obtiveram bons retornos financeiros, além de muitos títulos, mas as dívidas, cada vez mais absurdas aos nossos olhos, nos fazem pensar em um método de gestão mais concentrado e sem muitos gastos para essas equipes. A possível saída, o clube-empresa, tem seus altos e baixos e requer extremo cuidado na hora de administrar o patrimônio de uma agremiação.

União São João: O pioneiro no segmento

Equipe de Araras de 1992 | Foto: terceirotempo.bol.uol.com.br

Equipe de Araras de 1992 | Foto: terceirotempo.bol.uol.com.br

Na década de 1990, o União São João de Araras, clube formado em 1981 sob a batuta de Hermínio Ometto (nome que leva o atual estádio da equipe e dono da Usina São João), o time contou com grandes craques, como o ex-lateral Roberto Carlos.

Durante toda a sua história, a equipe de Araras, que substituiu clubes como AA Ararense e Comercial FC, sem dúvida, teve muito sucesso entre os times do interior. Em 1987, foi campeão da Série A2 do Campeonato Paulista. Mas um dos grandes marcos aconteceu em 1994, quando disputava pela segunda vez seguida o Campeonato Brasileiro da Séria A, ao tornar-se a primeira equipe brasileira a se transformar em um clube-empresa, a União São João S.A.

Roberto Carlos foi uma das principais revelações do União São João | Foto: Reprodução

Roberto Carlos foi uma das principais revelações do União São João | Foto: Reprodução

O clube se manteve por um bom período na elite do futebol nacional, tendo participado da primeira divisão do futebol brasileiro nos anos 1993, 1994, 1995 e 1997. Entretanto, decaiu vertiginosamente nas competições que disputava, perdendo visibilidade de caindo no esquecimento. 

Atualmente, os torcedores ararenses sofreram mais uma decepção: a queda da Série A3 para a segunda divisão, equivalente à quarta divisão do futebol paulista, segurando a lanterna da competição. A história de um celeiro de craques foi manchada pelos erros no passado, apesar de ser administrado por executivos com especialidades em áreas distintas.

Da ascensão meteórica à queda catastrófica

O que pode resumir de forma mais sucinta a equipe do Grêmio Barueri é a expressão “time dos acessos”. Sua história se iniciou no ano de 1989, mas o sucesso no profissionalismo no futebol só veio em 2001. Nesse período, ainda com o nome de Grêmio Recreativo Barueri, disputou a extinta Série B3 do Paulista. 

Em 2002, veio seu primeiro acesso, para a B2. E assim, subiu, degrau a degrau, até chegar à primeira divisão do futebol paulista. Esses feitos se repetiram no cenário nacional. Da Série C do Brasileiro de 2006 ao auge em 2009, quando chegou pela primeira vez à Série A, conseguiu obter o 11º lugar e se classificar à Copa Sul-Americana do ano seguinte (objetivo traçado pelo presidente da agremiação, Walter Sanches). Todo o trabalho de gestores e membros da comissão técnica foi coroado.

Fluminense foi o primeiro adversário do Grêmio na Arena Barueri pelo Brasileiro de 2009 | Foto: Reprodução

Fluminense foi o primeiro adversário do Grêmio na Arena Barueri pelo Brasileiro de 2009 | Foto: Reprodução

Mas as crises internas começaram a afetar o clube. Apesar da Prefeitura de Barueri ter ajudado o Grêmio a construir seu moderno estádio, entre outros benefícios que arcou em prol do desenvolvimento do futebol na cidade, houve conflitos entre os dirigentes da Abelha e o órgão público. O resultado foi a mudança de ares no final de 2009 para Presidente Prudente, a 544 km de distância do recinto que consagrou o time no esporte.

O desligamento de Barueri foi oficializado no começo de 2010, em uma reunião entre a diretoria do clube e a prefeitura de Presidente Prudente. Surgia o Grêmio Prudente Futebol Clube Ltda (o distintivo nome “Barueri” foi substituído por “Grêmio”). Foi então que a equipe começou a provar o sabor amargo da decadência ao ser rebaixado para a Série B do Campeonato Brasileiro.

Da mesma forma que obteve acessos simultâneos, a equipe colecionou inúmeros descensos. Hoje, disputa a Série C nacional e a A2 do campeonato regional. Apesar de ter resgatado o nome com o qual brilhou no cenário do futebol por meio de um grupo de empresários que o levaram de volta a Barueri, o time ainda cambaleia pelas divisões inferiores com um elenco totalmente limitado.

Em 2008, ainda como gerente de futebol do clube da Grande São Paulo, o jornalista da Rádio Transamérica José Calil, em entrevista à DPF, disse lamentar a decadência repentina da equipe em seu futebol, lembrando os entraves que teve com os mandatários na época. “As maiores dificuldades que enfrentei foram na relação com alguns dirigentes. Mesmo sendo um clube-empresa, o Grêmio Barueri é oriundo de um projeto político e é aí que mora o problema. Quando a política se mistura com o futebol, o resultado, normalmente, não é bom”, disse Calil.

Jogando pela Série A2 do Paulista, equipe de Barueri sonha com retorno à primeira divisão regional | Foto: Terra

Jogando pela Série A2 do Paulista, equipe de Barueri sonha com retorno à primeira divisão regional | Foto: Terra

Outro aspecto tocado pelo jornalista é a perda da identidade do clube com o seu lugar de origem, o que impossibilita a conquista da fidelidade de futuros torcedores e de carinho e respeito dos moradores da cidade. “Se um clube-empresa trabalhar em harmonia com a cidade onde ele está, com o poder público como colaborador, e conseguir passar a imagem de uma ligação profunda, pode haver o surgimento de uma torcida apaixonada. O que não pode acontecer é o clube mudar de cidade toda hora”, afirma.

Outros casos de mudança de território já foram observados. Um exemplo é o Ipatinga, que disputou a primeira divisão do Campeonato Brasileiro de 2008, e, por conta de precárias condições financeiras, transferiu-se para a cidade de Betim por meio de um acordo com empresários da região, tornando-se o Betim Esporte Clube. 

Além deste, o Guaratinguetá também mudou de espaço em 2010. Com a gerência no futebol do empresário Sony Douer, da Sony Sports, o clube do interior firmou parceria com a cidade de Americana, passando a se denominar Americana Futebol Ltda. Em 2011, entretanto, voltou às suas terras de nascença em razão do aumento de sua estrutura e pelo fato de o estádio Décio Vitta não poder comportar duas equipes (a segunda agremiação seria o Rio Branco).

Audax: Resultado que vem dando retorno

O futebol tem a nos oferecer novidades em campo e uma delas é a presença dos “Audaxs”. Os times do Audax São Paulo (antigo Pão de Açúcar Esporte Clube) e Audax Rio de Janeiro (antigo Sendas Esporte Clube) estão colhendo os bons resultados, graças ao bom trabalho dentro do futebol.

O primeiro, fundado em 1985, quando ainda era PAEC, dedicava seus projetos apenas ao âmbito do atletismo. Só mais tarde, em 2003, é que o esporte bretão foi implementado no clube. Em 2006, fez parceria com o Juventus ao emprestar seus atletas ao time da Mooca para a disputa da Série A1 do Campeonato Paulista.

Time atual do Audax -SP disputa a Série A2 do Paulista | Foto: Reprodução

Time atual do Audax -SP disputa a Série A2 do Paulista | Foto: Reprodução

Já em 2008, ganhou a Série B regional, tendo o direito de disputar a A3 do Paulista no ano seguinte. Chegando a ser um dos quatro primeiros colocados da competição, garantiu vaga à A2 para 2010. O time do Pão de Açúcar já mostrava seriedade com seu futebol, dando trabalho aos seus adversários.

Em 2011, após uma pesquisa encomendada pela empresa de Abilio Diniz, o clube passou a se chamar Audax. Tanto em São Paulo quanto no Rio, a mudança ocorreu após a substituição da marca Sendas Supermercados para a bandeira do supermercado Extra, feita pelo Grupo Pão de Açúcar.

Desde então, a agremiação localizada no Real Parque, região do Morumbi, vem buscando constantemente o acesso à divisão de elite do futebol paulista e, atualmente, conta com rodados atletas como Paulo César, ex-Santos e Fluminense e Eduardo Ratinho, ex-Corinthians.

Já o homônimo carioca, que leva o laranja e o azul em seu uniforme, diferente do time da capital paulista que veste o amarelo no lugar da primeira cor, surgiu em São João de Meriti em 2005. Até então, era chamado Sendas Esporte Clube. Assim como o seu “irmão”, também iniciou seus trabalhos como um clube social.

Em 2007, estreava seu elenco profissional na terceira divisão do Cariocão, sendo campeão do torneio. Já em 2010, veio o principal título da equipe meritiense: a Copa Rio, conquistada em cima do Bangu em seu estádio, o Arthur Sendas, apelidado de “Sendolândia” em razão do antigo supermercado.

Paulo César é um dos experientes jogadores do time da capital paulista | Foto: Lancenet

Paulo César é um dos experientes jogadores do time da capital paulista | Foto: Lancenet

Em 2011, a troca de nome para Audax Rio de Janeiro Esporte Clube ajudou o time a sagrar-se vice-campeão do Campeonato Carioca da Série B, chegando à primeira divisão do futebol regional. 

Hoje, o elenco conta com a experiência mesclada com a juventude. O zagueiro e capitão Fabiano Eller, que já teve passagens pelo Vasco, Palmeiras, Flamengo, Fluminense, Internacional e Santos lidera o esquadrão rumo às semifinais da Taça Rio, o segundo turno do Carioca.

Fabiano Eller carrega bagagem de títulos por importantes clubes do Brasil | Foto: Lancenet

Fabiano Eller carrega bagagem de títulos por importantes clubes do Brasil | Foto: Lancenet

E os clubes grandes, como ficam?

Na citada entrevista, José Calil ainda respondeu sobre a questão das gestões feitas em clubes de maior expressão, deixando claro que a metodologia de transformar os clubes em empresas é a ideal. “Os clubes mais tradicionais devem transformar suas gestões para a obtenção de melhores resultados, mas não necessariamente precisam se transformar em clubes-empresa de acordo com o que a nossa legislação permite. Podem prosperar até com aqueles dirigentes mais antigos, desde que eles trabalhem com objetivos definidos e trabalhem pelo clube, não para o próprio enriquecimento, como estamos cansados de ver por aí.”

 Eduardo Bandeira de Mello terá a difícil tarefa de aliviar as dívidas na Gávea | Foto: Globo.com

Eduardo Bandeira de Mello terá a difícil tarefa de aliviar as dívidas na Gávea | Foto: Globo.com

Realmente, é difícil controlar as dívidas quando se administra um grande clube. Nesta semana, o Flamengo passou por um check-up financeiro. Em um balanço realizado na Gávea pelos auditores da Ernst & Young, foi registrado um rombo de R$ 720 milhões nos cofres do clube carioca. Nesta brincadeira, rolaram valores para as dívidas trabalhistas, pagamentos judiciais e outras despesas. A gestão de Patrícia Amorim também deixou baixas no caixa: foram R$ 86,7 milhões de impostos não pagos ao fisco, que no total, somam R$ 394 milhões.

Com a profissionalização do mercado do futebol brasileiro, um recurso muito utilizado por qualquer equipe é o apelo ao marketing, que consegue angariar, dependendo da ação, retorno de capital para o clube. O trabalho feito com extrema competência pode gerar o rendimento esperado ou perto do que foi estipulado.

“O importante é criar departamentos administrados de forma competente, com objetivos comuns e todos integrados. Um clube moderno deve ter um bom marketing para captar recursos de fontes diversas e bons profissionais na área técnica para gastar esses recursos com sabedoria. Não só no futebol como na vida, o marketing é fundamental nos dias de hoje. Com um trabalho competente de divulgação da marca e captação de recursos, qualquer clube poderá crescer bastante, seja qual for seu nível de atuação. Esse é o futuro das corporações em um mundo cada vez mais capitalista”, completa Calil. 

Gerir é questão de se adaptar ao contexto em que se está inserido, ou mesmo, inserir-se em um novo. Tudo depende de um bom planejamento, firme e consistente, que não prejudique e destrua as tradições de uma organização, no caso, um clube, empresa ou não. Os resultados devem ser avaliados e reavaliados conforme ao longo dos anos. Sobretudo, os gestores de clubes devem se abrir às novas vertentes e soluções tangíveis a médio e curto prazo, sem se estreitar apenas às quatro linhas.

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Jornalista formado pela Universidade Paulista - Unip em 2012, é torcedor doente pelo Palmeiras e amante do bom futebol. Foi estagiário da produção do Domingo Espetacular, da Rede Record. Em um de seus trabalhos acadêmicos, realizou um documentário sobre o Nacional Atlético Clube intitulado "O Futebol Nacional", publicado no YouTube, com o intuito de relatar a falta de estrutura no clube e de visibilidade na mídia esportiva.