Mais alguns anos de magia

Ronaldinho E SE

*Já conhece a série “E se…?” Leia a apresentação aqui e conheça o seu propósito de dar asas ao imaginário.

Cinco anos sem títulos, para um clube da grandeza do Real Madrid, são uma eternidade. São mais de 1800 dias de martírio para os seus torcedores, que não se iludem mais com vitórias e goleadas sobre Mallorcas e Osasunas. Nada mais importa para os merengues: até mesmo a ‘décima’ Champions, título almejado há mais de dez anos, deixou o topo da lista de prioridades do presidente Florentino Pérez. Todos os esforços em Chamartín estão concentrados em um único objetivo: retomar a hegemonia doméstica. Desde 2008, ano do último título merengue, a diretoria blanca vem investindo alto para trazer os maiores craques do futebol mundial. Entretanto, mesmo nomes como Kaká, Cristiano Ronaldo e Özil não têm sido suficientes para derrubar do topo um dos times mais sobrenaturais da história.

A esta altura, o Barcelona já é tido por muitos como o mais espetacular time de todos os tempos. Com a saída de Deco para o Chelsea, Xavi ganhou espaço para se tornar o maestro do meio-campo culé e também da seleção espanhola. É ele o regente do tiki taka que encanta o mundo. A ascensão de Busquets e Iniesta transformou o meio-campo barcelonista em um dos mais criativos e temidos do futebol mundial, e a chegada de Henry deu ao clube uma referência extremamente qualificada no ataque. A defesa, considerada por muitos como o ponto fraco do time, ainda pode contar com a segurança de Puyol e a classe de Gerard Piqué, além do apoio sempre qualificado de Dani Alves e Jordi Alba. Mas nenhum desses consegue chamar tanto as atenções quanto a dupla de gênios que farda as camisas 10 e 19. Em todas as conquistas, em cada momento decisivo, em cada jogada coletiva: ninguém é capaz de ofuscar a magia de Ronaldinho e Lionel Messi.

Aluno e professor, tutor e pupilo: Ronaldinho e Messi construíram história única na Catalunha.

Aluno e professor, tutor e pupilo: Ronaldinho e Messi construíram história única na Catalunha – que quase foi interrompida.

Desde o primeiro gol do argentino pelo clube, o brasileiro esteve acompanhando seus passos – e servindo-lhe passes açucarados. Mestre e aprendiz, os dois se entendem numa língua que só outros poucos conseguem compreender. E menos ainda são os que a traduzem a tempo de evitar o perigo que, com a dupla em campo, é sempre iminente. Atuando juntos há quase dez anos, Lionel e Ronnie construíram uma história inigualável com a camisa azul-grená. Que não se conta apenas pelos muitos títulos conquistados, mas também pelos inúmeros momentos de pura fantasia proporcionados pela dupla.

Mas nem tudo foi flores. E por muito pouco, esse dueto não foi irreversivelmente separado. Uma seca de títulos é capaz de deixar a massa à beira da insanidade, fora de sua razão (se é que se pode falar em razão no futebol). Só isso explicaria um aparte tão precipitado. Se é a torcida merengue que hoje convive diariamente com os delírios e surtos de bipolaridade causados pelo longo jejum, os culés também conhecem muito bem o seu sabor amargo. Entre 2007 e 2008, o Barcelona de Rijkaard deu sinais de esgotamento, e o holandês deixou o cargo. Eram novos tempos no clube, hora de implantar a filosofia de Pep Guardiola, que vinha fazendo excelente trabalho nas canteras. E era tempo de medir o comprometimento de cada membro do elenco, para saber quem podia – e, acima de tudo, queria – continuar no grupo.

As noitadas do gaúcho, de fato, não agradavam. Na realidade, seu estilo de vida sempre havia gerado um racha dentro do clube. Enquanto houve shows e troféus a granel, ninguém se atrevia a contestá-lo. Entretanto, com a má fase do time, suas farras passaram a ser muito mais interessantes para a imprensa do que suas apagadas atuações. Ao final do segundo ano em branco, a reformulação do projeto era inevitável. E muito se discutiu sobre a saída de Ronaldinho. O interesse dos rivais era intenso: Milan e o então novo-rico Manchester City estavam dispostos a fazer loucuras pelo craque. Havia, entre diretores e sócios, uma certa pressão para que ele deixasse a Catalunha. E boa parte da torcida realmente acreditava que o mágico de outrora havia esgotado seu repertório. O cenário para a partida estava construído.

Pep Guardiola foi fundamental para a redenção do Mágico e do Barça.

Pep Guardiola conhecia as arquibancadas como poucos. E não hesitou em manter o Mágico.

Mas o Mágico, arredio e imprevisível diante dos adversários, também sabia ser conciliador. Sua vontade de continuar no Barça e participar do projeto que se iniciava falou mais alto. E Pep Guardiola, ídolo que brotou das arquibancadas do Camp Nou e foi moldado nas canteras do clube, conhecia o espírito da massa como poucos. Em sua plena consciência, não teve dúvidas: impôs a renovação do contrato do gaúcho. Ele sabia que uma crise passageira não seria capaz de destruir a história de uma lenda do clube. A torcida, por via das dúvidas, comemorou – e quem seria louco de ficar insatisfeito com a extensão do vínculo de um craque cujo comprometimento estava renovado?

Teve início, então, a temporada do recomeço para o Barcelona. Eram muitos os degraus a galgar: logo no início da temporada, o time precisava garantir sua vaga na fase de grupos da Liga dos Campeões. Mas o projeto era mais ambicioso. Reerguer-se, reconstruir-se e reconquistar o país, a Europa e o mundo: a torcida catalã esperava nada menos do que isso. E não podia esperar menos de um esquadrão com tanto talento, que contava com vários jogadores capazes de decidir partidas – e dois gênios em plena forma.

A mudança de atitude compensou, e o Mágico reconduziu o Barcelona ao topo.

A mudança de atitude compensou, e o Mágico reconduziu o Barcelona ao topo.

Guardiola demorou um pouco a implementar sua doutrina na equipe principal azulgrená. O primeiro desafio foi o Wisla Cracow, pela pré-UCL. Vitória no jogo de ida, em casa, mas uma preocupante derrota na volta. Messi foi poupado, assim como Ronaldinho que, ainda buscando o melhor de sua forma física, não participou dos confrontos. Pep queria vê-lo na ponta dos cascos, e o motivava. Sabia que o sucesso e as baladas lhe eram atraentes. Mas seu discurso, que havia conquistado toda a diretoria e enchido de confiança todas as camadas do futebol no clube, também ganhou o respaldo do brasileiro, uma das principais referências técnicas do elenco. Foi feito, então, um trabalho específico com o atleta brasileiro – para minimizar-lhe os efeitos do tempo, e dar-lhe as condições para reassumir o espetáculo e refazer do Camp Nou sua ribalta.

Com a vaga para a Champions garantida, o foco se virou para a liga doméstica. Era preciso mostrar ao resto do país que o velho Barcelona de duas temporadas atrás, envolvente e letal, havia retornado. E era imperativo que o velho Ronaldinho, o imprevisível solista, voltasse ao seu auge técnico. Mas sem o Mágico, o começo em La Liga não foi fácil. A derrota ante o Numancia e o empate com o Racing deixaram a torcida ainda mais ressabiada, e já se ouvia as primeiras cornetadas dos torcedores mais impacientes. Foi nesse contexto que entrou em campo o “onze de gala”.

O time que conquistou, de forma inapelável, a Espanha e a Europa.

O time que conquistou, de forma inapelável, a Espanha e a Europa.

Como se quisesse deixar claro que tudo não passara de acidente de percurso, o time não perdeu mais na competição. O camisa catorze Henry, em sua primeira temporada pelo Barça, fazia gols em profusão e exalava toda a sua técnica. Xavi e Iniesta, consolidados no meio-campo, davam os primeiros sinais de que, futebolisticamente, haviam nascido um para o outro. Messi, enfim livre das lesões que o perseguiam, se desenvolvia a olhos vistos: era evidente que já se tratava de um dos melhores do mundo. Mas nem mesmo o gigante talento do pequenino argentino conseguia roubar as atenções que se concentravam, como sempre, no repertório inesgotável de Ronaldinho Gaúcho, o protagonista da indiscutível conquista. Sua capacidade de surpreender e transformar o inacreditável em corriqueiro logo reconquistou toda a torcida catalã, que voltou a reverenciá-lo como em seus primeiros anos de clube. A volta por cima de Ronaldinho, no entanto, ainda não estava concluída. Pelo menos, não para ele: ainda faltava o caneco europeu. E ele veio, com mais uma atuação irretocável dos culés e uma vitória incontestável sobre o Manchester United. Sua missão estava, por fim, cumprida.

As temporadas seguintes serviram para homologar ao Barcelona, anualmente, a condição de melhor time do mundo. Os troféus se multiplicaram, e uma hegemonia surgiu. O Camp Nou permanece, há anos, lotado, e a equipe de Guardiola entrou definitivamente na história do futebol mundial como uma das mais vencedoras de todos os tempos. Seus conceitos estratégicos revolucionaram o esporte, e até o momento poucas são as equipes que conseguem reduzir os espaços a ponto de obstruir verdadeiramente o esplendoroso tiki taka catalão. É quase impossível reduzir o campo diante daqueles que, em qualquer espaço de poucos centímetros, podem fazer a magia acontecer, criar perigo do nada e transformar, subitamente, qualquer devaneio em realidade. A postura tática do time impõe naturalmente um estilo de jogo capaz de massacrar territorialmente os adversários. Uma dominação previsível? Não quando Ronaldinho, o Mágico do improvável, está em campo, fardando a sua camisa 10.

O sonho barcelonista, transformado em realidade pelo eterno ilusionista da Catalunha.

O sonho barcelonista, transformado em realidade pelo eterno ilusionista da Catalunha.

Facebook Comentários

Recifense, rubro-negro, apaixonado por música e estudante de Jornalismo. Sócio-diretor do Doentes por Futebol, com passagens por Seleção do Rádio e SuperesportesPE. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.

  • facebook
  • twitter
  • googleplus