Rei de Copas – Lev Yashin

  • por Victor Gandra Quintas
  • 4 Anos atrás

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Em 1961, o homem viajava pelo espaço pela primeira vez. O soviético Yuri Garagrin, a bordo da espaçonave Vostok 1, fazia história. Era evidente a alegria de seus compatriotas, inclusive para um futebolista que escrevia seu nome nas páginas do esporte.

E para este atleta, que tinha como domínio a grande área, ver seu semelhante atingir o ápice da exploração humana daquela época ainda não era a sua maior alegria. Para ele, o nosso Rei de Copas havia algo mais transcendental do que a conquista de Gagarin:

A alegria de ver Yuri Gagarin no espaço só é superada pela alegria de uma boa defesa de um pênalti”.

Lev Yashin, que emprestou seu nome à premiação maior aos goleiros em Copas do Mundo, é o nosso Rei de Copas.

Oferecido ao melhor goleiro de um Mundial, o prêmio Luva de Ouro perdurou até a Copa de 2006 como troféu Lev Yashin, em reconhecimento à sua digníssima carreira. Criado em 1994, foi Michel Preud’homme o primeiro agraciado a receber tal honraria. Não havia uma premiação separada para goleiro antes disso, apesar do jogador da posição que se destacasse em Copas figurar na seleção final. Mas o mais irônico de tudo é que o próprio Yashin jamais foi eleito o melhor goleiro do torneiro, apesar das quatro Copas em que esteve.

A verdade é que Yashin jamais ganhou uma Copa, ou sequer foi finalista. Sua melhor colocação com a União Soviética foi um honroso quarto lugar em 1966, na Inglaterra. Mas o que faz dele esse ícone?

O “Aranha Negra”, apelido pelo qual passou a ser identificado por sua vestimenta escura, foi pioneiro no domínio da grande área. Sua capacidade de se adiantar às jogadas dos atacantes impunha um respeito jamais presenciado. Sua destreza e perspicácia diante dos adversários impressionavam a todos.

Suas maiores glórias foram nos Campeonatos Europeus, mas Yashin merece, e muito, ser reconhecido como um Rei de Copas. Antes dele, um goleiro só tinha atenção em campo pelos gols sofridos e as defesas ineficientes. Depois dele, o arqueiro passou a ser notado tal como um artilheiro. O Aranha Negra era nada menos que um divisor de águas para a posição.

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“ERA UMA VEZ NA UNIÃO SOVIÉTICA”

E não foi fácil seu inicio na URSS. Nascido em 1929, cresceu no período da Segunda Guerra Mundial. Mas alheio aos conflitos, iniciou a carreira no hóquei no gelo, em uma equipe da empresa que trabalhava. Aos 14 anos, se aventurou no novo esporte, o futebol, e nunca mais saiu.

Disciplinado, era do tipo que sempre ficava um bom tempo após os treinos para aprimorar suas qualidades. E foi desta forma que, se inspirando no búlgaro Apostol Sokolov – jogador em excursão na terra de Yashin, começou a sair da meta e ir ao encontro dos atacantes, o que, como defensor, lhe favorecia. Este posicionamento ainda lhe permitia cortar cruzamentos e fechar o ângulo dos artilheiros. Yashin, portanto, se tornava o melhor em “atrapalhar” a alegra maior do futebol: o gol!

Tanto que outro grande nome da posição, Gordon Banks, falou sobre ele ao ver sua postura nos gramados durante a Copa de 1966:

“Na Copa de 66, ele defendeu uma bola nos pés de um atacante que quase arrancou a cabeça dele. Mas a primeira coisa que Yashin fez depois da defesa foi se levantar e ver se o jogador com quem tinha acabado de se chocar estava bem”.

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O goleiro, que sempre vestiu a camisa de um único clube em toda a sua carreira, a do Dinamo de Moscou, é reconhecidamente não só o maior futebolista da União Soviética, mas o maior esportista. E até hoje, após a dissolução da URSS, sua lenda permanece intocada.

“SER REI DE COPAS”

Foi nos Jogos Olímpicos de 1956, em Melbourne, Austrália, que Yashin começava seus primeiros passos com a seleção soviética. Titular em praticamente toda a campanha, ajudou sua equipe a subir no lugar mais alto do pódio, levando a medalha de ouro para casa. Desta forma, já deixou seu nome em evidência, o que lhe proporcionou a primeira Copa do Mundo.

Copa de 1958

Dois anos depois da conquista olímpica, foi convocado para a Copa na Suécia. Em 1958, a URSS acabou no mesmo grupo da favorita seleção brasileira, que contava com grandes jogadores, como Didi, Pelé e Garrincha. Inglaterra e Áustria completavam o grupo.

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Nesta Copa, Yashin mostrou aos torcedores e jogadores de todo o mundo o motivo de ser diferenciado. Apesar de ter saído nas quartas de final do torneio, foi imprescindível para que sua seleção ali chegasse, impedindo alguns gols que eram dados como certos.

Valem citar o pênalti defendido diante da Áustria e a bela atuação diante do Brasil, sobretudo em chute de Garricha. Aliás, frente ao Brasil, o goleiro teve sua melhor atuação, limitando o placar final em 2×0. Um “milagre”, já que se esperava um show da seleção canarinho. Era somente o início do legado do Aranha Negra.

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Yashin solidificava a fama de pegador de pênaltis. Tom Finney, jogador inglês que se viu frente a frente ao goleiro após a partida na fase de grupos, não deixou de comentar:

“Perdíamos por 2 a 1 quando o juiz apitou um pênalti para nós. Fui cobrar, e no gol estava Yashin. Ele era um goleiro incrível e pegava muitos pênaltis, além de ser uma figura intimidadora, vestido todo de negro”, contou ele “Decidi chutar com o pé direito, o meu mais fraco, porque sabia que ele já tinha me visto cobrando pênaltis com o esquerdo. E marquei! Enganei o Yashin!”

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Copa de 1962

Quis o destino que a URSS deixasse esta Copa da mesma forma que saiu da outra, na mesma fase e novamente contra os donos da casa. O Mundial teve lugar na América do Sul, com sede no Chile.

Apesar de ter terminado em primeiro no grupo, que contava com Iugoslávia, Colômbia e Uruguai, Yashin, pela primeira vez, seria contestado por falhas. Nas quartas de final, diante dos anfitriões, foi questionado por errar nos dois gols que tiraram seu país da competição. No primeiro gol, esperou uma cobrança de falta adversária, em que acreditava erroneamente ser batida em dois toques. Não se mexeu e deixou a bola entrar no ângulo esquerdo. O outro gol ocorreu no minuto seguinte ao empate soviético, em que o goleiro chegou atrasado num chute rasteiro de fora da área.

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Esta partida foi agravada principalmente depois da fraca exibição diante dos colombianos. Vencendo por 4×1, deixaram os sul-americanos empatar a partida, com direito a gol olímpico.

Uma mancha na fase crescente de Yashin, ainda mais depois de vir de conquista da Eurocopa, a primeira da história. Sem contar as boas campanhas com o Dínamo de Moscou, tricampeão da liga nacional.

Ano de 1963

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Dúvidas pairavam diante da qualidade de Lev, mas ainda lhe restava respeito suficiente para envergar a camisa da seleção do Resto do Mundo da FIFA, em jogo amistoso diante da Inglaterra (Centenário da Football Association, entidade que rege o futebol inglês). Fez uma grande partida ao lado de Masopust, Puskas e Di Stefano.

A partida terminou 2×1 para os ingleses, mas o goleiro se redimiu da fraca exibição na Copa anterior. Foram necessários somente 46 minutos para se afirmar, com defesas espetaculares, principalmente em uma cabeçada a queima roupa de Bobby Smith, atacante inglês.

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E o ano de 1963 foi ainda mais fantástico para Lev. Consagrou-se como o único atleta da posição a receber o Prêmio de Melhor Jogador da Europa. Mesmo vestindo a camisa de um clube sem o apelo das grandes ligas, deixou para trás Gianni Rivera, meia italiano da Roma, e o atacante inglês Jimmy Greaves, do Tottenham.

Para completar, chegou à outra final da Eurocopa, desta vez em 1964, mas perdeu para a Espanha, país sede da competição.

Lev Yashin, o goleiro que parecia ter oito mãos, o Aranha Negra, recuperou a disposição e rumou para a melhor Copa de sua época.

“A HISTÓRIA EUROPEIA”

E como citado, Yashin fez seu nome também nos torneios europeus com a URSS. Em 1960, iniciava-se aquela que seria uma Copa do Mundo sem as potências sul-americanas. Foi um total de 17 seleções, com jogos dentro e fora de casa, até restar os quatro semifinalistas.

A URSS enfrentou a Tchecoslováquia, de Masopust. No outro braço da fase, a Iugoslávia passava pela França (sede da fase final). Como prelúdio do confronto que tiveram na Copa de 1962, soviéticos e iugoslavos fizeram uma final para 18 mil pessoas, em Paris. Yashin e seus companheiros saíram vitoriosos na prorrogação por 2×1, sagrando-se os primeiros campeões europeus da história.

Quatro anos depois, em 1964, disputou nova final. Passou por Dinamarca nas semifinais. A Hungria foi eliminada pela anfitriã Espanha. Desta vez, foram necessários somente os 90 minutos. A URSS perdeu o torneiro para os donos da casa.

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De toda forma, a consagração dos soviéticos como potência esportiva estava consolidada, somando, até aquele ano, uma medalha de ouro olímpica, um título e um vice-campeonato da Eurocopa. Mas ainda faltava uma boa campanha em Copas.

“DE VOLTA ÀS COPAS”

E foi assim, com confiança renovada, que o comando soviético chegava à Inglaterra para disputar Copa do Mundo, a terceira na carreira de Yashin, que já estava com 37 anos.

Foram sorteados para o grupo 04, juntamente com Coréia do Norte, a tradicional Itália e o algoz de 62, o Chile. Era o momento de Yashin provar que era merecedor de todas as honrarias conquistadas.

Poupado diante da primeira partida, contra os norte-coreanos (3×0), estreou diante da Azzurra. E foi neste jogo que confirmou seu nome como Rei de Copas, já que fez defesas tão impressionantes nesse jogo quanto na partida frente ao Brasil, em 1958. No entanto, diferentemente daquele confronto, a sorte sorriu para os soviéticos, que conseguiram a vitória por 1×0 e a classificação antecipada para a fase seguinte. Tal resultado permitiu um novo descanso para Yashin, sendo poupado novamente, agora contra o Chile.

Enfrentou a Hungria nas quartas de final. Esta era a fase na qual os soviéticos caíram nas últimas edições. A URSS tomou conta do jogo. Chislenko abriu o placar logo aos 5 minutos. A seleção do extremo leste dominou toda a partida, venceu por 2×1 e conquistou a vaga para as semifinais. Yashin não foi muito exigido; seria na próxima partida, na qual enfrentaria a Alemanha Ocidental.

Uma dos favoritos do torneiro, os germânicos contavam com grandes nomes do futebol, sobretudo o craque Beckenbauer. Yashin foi exaltado com festa pelos torcedores na entrada do estádio.

O jogo, disputado em Sunderland, no estádio Roker Park, com público de 22 mil pessoas, foi bastante acirrado e violento. Mas em várias ocasiões, Yashin mostrou o motivo de ser o maior goleiro da história, não hesitando em literalmente pular nos pés dos adversários para tomar-lhes a bola (como comentado por Banks em outra oportunidade).

O goleiro resistiu até aos 43 minutos, quando sofreu o primeiro gol da partida, marcado por Haller, que chutou na saída do Aranha Negra. O time alemão aumentou com Beckenbauer, aos 67 minutos. Porkuyan ainda diminuiu, aos 88. Tarde demais para a URSS.

Foi uma partida memorável, sem dúvidas. Permitiu Yashin, juntamente com seus companheiros, a colocar seu país entre os grandes nomes da época.

Ainda restava a disputa pelo terceiro lugar, diante de Portugal, de Eusébio, outro grande jogador. E foi o próprio craque lusitano quem acabou com as chances de “pódio” para os russos. Foi o autor do primeiro gol do jogo. O resultado foi de 2×1 para a seleção portuguesa.

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A Inglaterra sagrou-se campeã da Copa, o que deu a Gordon Banks o título de melhor goleiro da competição. Mas isto não diminuiu o brilho do Aranha, que teve nas palavras do próprio arqueiro inglês o reconhecimento, admitindo que escolheria Yashin para integrar a seleção do Mundial:

 “Tudo o que ele fez foi genial”, disse. “Foram grandes defesas. Ele conhecia todos os cantos do gol, sabia interceptar cruzamentos e, além do mais, era um perfeito cavalheiro”.

Yashin ainda estaria no grupo que disputaria a Copa de 1970, mas a participação da União Soviética não é digna de nota, uma vez que o craque do gol, com seus 40 anos de idade, era apenas suplente. A seleção caiu novamente nas quartas de final.

Uma marca impressionante estar em quatro Copas do Mundo seguidas. Poucos podem se gabar de tal feito, até mesmo um goleiro.

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“E O QUE SE SEGUE”

Consta que Lev Yashin defendeu a URSS por 78 partidas. Segundo algumas fontes, detém a impressionante marca de 150 pênaltis defendidos, além de 270 jogos sem levar gol. Pelo menos o Rei de Copas não tinha medo da penalidade, chegando a dizer que:

“O negócio é fumar um cigarro para acalmar os nervos e depois tomar um belo gole de alguma bebida forte para tonificar os músculos.”

Tem grande reconhecimento até hoje, 23 anos após sua morte. Foi eleito pela FIFA para a Seleção de Futebol do Século XX. Foi agraciado, desta vez pela UEFA, o maior jogador russo nos 50 anos da entidade. Para fechar, foi eleito o Maior Esportista Russo do século XX pela imprensa do seu país (como já citado).

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“UMA VISITA ILUSTRE”

Não podemos deixar de citar a passagem de Yashin pelo Brasil. Fã admitido do goleiro bicampeão do mundo Gilmar, veio ao Brasil passar por um período de treinamento em preparação para a Copa de 1966.

O local escolhido foi o Flamengo, na Cidade Maravilhosa, onde podia manter a forma durante a tarde, depois das manhãs na praia.

“AGORA, SOMENTE AS LEMBRANÇAS”

Um herói soviético, mas com fim trágico. Em 1986, teve uma perna amputada devido a complicações da diabetes. Em 1990, o exagero no cigarro e na vodka o acometeu de um câncer no estômago. Acabou levando-o à morte.

Mas a imagem de Lev Yashin permaneceu imortalizada na memória de todo apaixonado por futebol. Acima de tudo, um Rei de Copas.

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Natural de Belo Horizonte. Torcedor do Cruzeiro e da Juventus. Um Doente por Futebol. Desde pequeno um apreciador do esporte mais popular do mundo, preferindo mais em acompanhar do que jogar (principalmente por não ter talento algum com a bola).