Rei de Copas – Paolo Rossi

  • por José Eduardo Volpini
  • 4 Anos atrás

– Tiveram o azar de encontrar pela frente uma Itália incrível naquele dia. Paolo Rossi, em entrevista ao Globo Esporte sobre Brasil x Itália.

– Lembro de uma grande tristeza dos brasileiros. Mas uma tristeza muito controlada. Muitos de cabeça baixa, como se não acreditassem que perderam aquela partida. Muitos italianos, até hoje, 30 anos depois, me agradecem pela emoção que provoquei. Todos os italianos, estivessem onde fosse, fazendo o que fosse, se lembram .

– Em várias oportunidades eu vi os gols do Paolo Rossi contra o Brasil, em 1982. Uma vez eu até o encontrei na Itália e ele me perguntou: ‘Como é que me chamam no Brasil mesmo?’. Eu disse a ele que o apelido dado por nós era ‘Carrasco’ e ele riu muito – Júlio César, goleiro da seleção brasileira, em entrevista ao Globo Esporte.

Paolo Rossi e Cabrini. Foto: Inter Leaning.

Paolo Rossi e Cabrini. Foto: Inter Leaning.

10 de junho de 2012. Messi anotava três gols contra o Brasil. O jogo era amistoso, mas a marca impressionou. Fazia trinta anos que ninguém alcançava tal marca. E o último havia sido o Rei de Copas dessa edição, Paolo Rossi, numa Copa do Mundo e em um jogo decisivo, contra uma das maiores seleções de todos os tempos. O italiano é possivelmente o maior carrasco da história de nossa seleção, pois algumas se recuperaram após tropeços. A seleção de 1990 foi recompensada com 1994. A de 1998, humilhada por Zidane, já havia sido campeã; e a de 2006 havia tido o triunfo em 2002. Apenas essa ficou sem nada nas mãos. Para os leitores terem uma ideia da marca impressionante do camisa 20, confira quem já marcou três gols na nossa seleção, levantamento feito pelo Clic RBS:

  • 1925 – Seoane – Brasil 1×4 Argentina – Campeonato Sul-Americano
  • 1934 – Marjanovic – Brasil 4×8 Iugoslávia – Amistoso Internacional
  • 1938 – Willimowski – Brasil 6×5 Polônia – Copa do Mundo
  • 1945 – Mendez – Brasil 1×3 Argentina – Campeonato Sul-Americano
  • 1955 – González – Brasil 3×3 Paraguai – Taça Oswaldo Cruz
  • 1959 – Sanfilippo – Brasil 1×4 Argentina – Campeonato Sul-Americano
  • 1960 – Peucelle – Brasil 1×6 Argentina – Copa Roca
  • 1963 – Stockman – Brasil 1×5 Bélgica – Amistoso Internacional
  • 1968 – Adamec – Brasil 2×3 Tchecoslováquia – Amistoso Internacional
  • 1982 – Paolo Rossi – Brasil 2×3 Itália – Copa do Mundo
  • 2012 – Messi – Brasil 3×4 Argentina – Amistoso Internacional

24 de junho de 1978. O Brasil assegurou o terceiro lugar da Copa diante da Itália. O que a seleção não sabia é que teria vingança, e na edição seguinte. Confira a história do futuro carrasco. Créditos ao Quattro Tratti :

No começo da carreira, o atacante passou por diversos clubes pequenos até chegar às categorias de base da Juventus, em 1972. Ainda jovem, sofria diversas lesões, chegando a passar por três cirurgias em um período de dois anos. Com poucas oportunidades no time bianconero, aceitou ser emprestado para o Como, onde atuou por seis vezes, mas sem marcar gols.
Em 1976, Rossi, então com 20 anos, chegou ao Lanerossi Vicenza e, com 21 gols em 36 jogos, foi peça fundamental na subida da equipe para a Serie A. Espantosamente, na disputa da primeira divisão, ainda pela equipe alvirrubra, Rossi melhorou o nível do futebol e marcou 24 vezes em 30 partidas, levando o clube à segunda colocação do campeonato, atrás apenas da Juventus.
A ótima fase de Rossi foi reconhecida e Enzo Bearzot o convocou para a Copa do Mundo de 1978, na qual fez três gols e ajudou a Squadra Azzurra a chegar na quarta colocação. Mas esta ainda não foi sua Copa.

Apenas outro jogador conseguiu o feito na Copa do Mundo, e contra uma seleção bem inferior. Porém, o jogador do Perrugia e Juventus não parou por aí. Fez seis gols nos três jogos decisivos da Azzura e terminou como artilheiro e melhor jogador do torneio (Fifa oficializara naquele torneio a premiação), que tinha Platini, Maradona e Zico.

O camisa 20 teve muito o que provar naquele verão da Espanha. Havia chegado sem a forma devida pela grave penalidade por combinação de resultados. Por sorte ou não, os três anos de punição ao jogador acabaram diminuídos para dois, possibilitando a ida do artilheiro para o torneio.

– Tive muita dificuldade. Depois de dois anos suspenso, era muito difícil jogar. Eu precisava voltar para recuperar a minha forma física. Felizmente, encontrei um treinador como Bearzot, que insistiu em me convocar apesar de todas as críticas.

Porém, tal ida não foi elogiada no começo da competição. O atacante fez uma primeira fase pífia, mostrando sua falta de condicionamento físico após o cumprimento da pena. E a Itália sofreu, o que parece comum quando se trata da Azzurra. A seleção da Bota se classificou com três empates, em um grupo formado por Polônia, Camarões (terminou com a mesma pontuação, mas perdeu nos critérios de desempate) e Peru. A seleção italiana marcou apenas dois gols na primeira fase, anotados por Graziani e Conti.

Paolo Rossi após duelo contra Camarões. Foto: Inter Leaning.

Paolo Rossi após duelo contra Camarões. Foto: Inter Leaning.

A Itália, classificada em segundo, encarou um grupo com duas potencias mundiais: a Argentina, de Maradona, e o Brasil, de Zico, Falcão e Sócrates. A partir daquele momento, a Azzurra mostrou sua determinação e talento (as vezes nem tanto com Gentile). Contra a Argentina, Rossi não balançou as redes, e nem foi preciso. Tardelli e Cabrini garantiram o resultado positivo. Passarella fez o da seleção sul-americana.

Foi o bastante para que um grupo de jornalistas italianos, dramáticos como numa cena de ópera, fossem a Bearzot com um apelo patético: que ele e seus jogadores tomassem o primeiro avião de volta para casa, abandonando a Copa ali mesmo, de modo a não manchar ainda mais o prestígio da squadra azzurra, já então detentora de dois títulos mundiais (1934 e 1938). Jornal O Globo.

 5 de julho de 1982. O dia que ficou na memória dos brasileiros. Ao observarmos a narração daquele jogo, percebemos que nem os jornalistas acreditavam em uma eliminação diante da Itália, mesmo o time italiano sendo muito competitivo e com nomes de destaque, como o goleiro Zoff, que no final da carreira ainda fazia grandes exibições.

Rossi e Júnior. Foto: Ig

Rossi e Júnior. Foto: Ig

Entretanto, Rossi mostrou o cartão de visitas logo aos cinco minutos, aproveitando ótimo cruzamento da esquerda, justificando que a Azzurra estava ali para vencer (o Brasil necessitava apenas do empate). Sócrates não demorou muito para empatar, em um belo gol. Aos vinte e cinco minutos, porém, Rossi aproveitou falha da defesa brasileira e finalizou com força para colocar a seleção europeia na frente. O empate do Brasil só veio após gol magnífico de Paulo Roberto Falcão. Parecia o da classificação. A vibração do jogador dava a entender que dali em diante só daria a seleção brasileira, mas com um atacante oportunista do outro lado, isso nunca é possível. No meio do segundo tempo, a bola encontrou Paolo Rossi, que perto do gol foi infalível. E assim destruiu o sonho brasileiro. Confira o relato do jogador sobre a vitória:

– Eu sabia que aquele jogo (contra o Brasil) poderia ser meu funeral. Ou eu “morreria” naquela partida ou algo muito feliz e bonito poderia acontecer, como um casamento.

– Quando eu estava diante do Brasil, naquele dia, não imaginava que ia fazer três gols.

– Não foi o Cerezo que errou o passe. O mérito do gol é meu! Foi uma das coisas mais importantes de toda a minha carreira. Foi como se eu me libertasse. Depois daquilo, tudo fluiu naturalmente.

Segundo gol de Paolo Rossi. Foto: Tarde de Pacaembu.

Segundo gol de Paolo Rossi. Foto: Tarde de Pacaembu.

Gazzetta comemora partida de Rossi e da Azzurra. Foto: Koora

Gazzetta comemora partida de Rossi e da Azzurra. Foto: Koora

A Itália, classificada após o fenomenal jogo na cidade de Barcelona, no já extinto estádio Sariá, enfrentou a seleção polonesa. Novamente, Paolo Rossi decidiu e fez os italianos esquecerem de seu começo pífio na Copa do Mundo daquela edição. O atacante marcou um tento em cada tempo e deixou a seleção no caminho de reconquistar o torneio, que havia sido ganho no distante ano de 1938.

Rossi comemora gol contra a Polônia.

Rossi comemora gol contra a Polônia.

O duelo foi diante de outro europeu, a Alemanha, que disputou uma batalha contra a França, em jogo bastante movimentado e que só foi definido nos pênaltis. Tal esforço foi castigado por Rossi, que não deu oportunidade para a seleção que havia destruído o sonho de Cruyff oito anos antes. O camisa 20 mostrou sua excepcional fase ao marcar novamente na decisão, terminando o torneio como artilheiro e tendo marcado apenas em três jogos. E que três jogos!

A comemoração. Foto: Getty Images.

A comemoração. Foto: Getty Images.

Focar apenas no choro do Brasil chega a ser injusto. Rossi trouxe a alegria de volta para os italianos, que haviam falhado na última decisão contra outro sensacional Brasil, o de 1970. Dessa vez, ele se vingou. E tal feito só deixou o torneio mais atrativo, ao sabermos que não é apenas pelo talento que as seleções conquistam os títulos, mas pela raça, oportunismo, e por não enxergarem limites. Paolo Rossi se recuperou depois de seu passado discutível e virou um ídolo nacional.

Gazzetta exalta a nova campeã do mundo. Foto: Koora.

Gazzetta exalta a nova campeã do mundo. Foto: Koora.

Depois de 1982:

Ao lado de Platini e Bonini, Rossi conquistou diversos títulos com a Juventus, dentre os quais se destacam os scudetti de 1982 e 84 e a Liga dos Campeões de 1985.
Em 1985, transferiu-se para o Milan, mas devido aos antigos problemas no joelho, não conseguiu render o que se espera de um legítimo matador e marcou apenas dois gols com a camisa rossonera. No ano seguinte foi convocado para a terceira Copa do Mundo, na qual não chegou a jogar, defendendo então o Hellas Verona, time no qual encerrou sua carreira após marcar quatro gols em vinte jogos. Em 2002, publicou uma autobiografia, intitulada Eu fiz o Brasil chorar. Atualmente, é comentarista do canal italiano Sky Sports, presidente honorário do Prato e dirige uma agência imobiliária em Vicenza. Quattro Tratti.
Os carrascos do Brasil em jogo da Juventus. A história do francês fica para outro Rei de Copas.

Os carrascos do Brasil na década de 80. A história do francês fica para outro Rei de Copas.

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