As crônicas dos meniscos

  • por Edson Vinicius
  • 5 Anos atrás
Como as lesões nos meniscos abreviaram a carreira de Reinaldo, ex-Galo.

Como as lesões nos meniscos abreviaram a carreira de Reinaldo, ex-Galo.

Os meniscos são uma espécie de fibrocartilagem em forma de meia lua, situada em cada metade dos joelhos (menisco lateral e menisco medial), na junção entre o côndilo femoral e a tíbia. Funcionam como um coxim amortecedor, ajudando a manter a articulação estável e contribuindo para um melhor suporte da carga exercida pelo peso corporal ao andar.

As lesões meniscais (rupturas) são mais comuns entre desportistas, especialmente em lutadores, esquiadores, jogadores de basquete e futebolistas. Essa última modalidade é a que mais causa esse tipo de patologia, com maior acometimento do menisco medial. Agachamentos, torções bruscas e traumas diretos são as causas mais comuns.

Os sintomas usuais são dores nos joelhos, inchaço local, dificuldade para agachar, diminuição da amplitude dos movimentos e “estalos” dessa articulação. Mesmo após lesionar essa estrutura, alguns atletas ainda conseguem continuar jogando durante o resto da partida. Porém, o dano, dentro de 1 a 3 dias, torna-se incompatível com a continuidade da atividade esportiva, forçando ao repouso da área acometida.

O diagnóstico é feito primeiramente pela história clínica e exame físico. O teste de McMurray – colocar tensão sobre o menisco ao se fletir o joelho, para logo em seguida estendê-lo e girá-lo – é importante ferramenta clínica. O diagnóstico preciso e definitivo da gravidade da lesão é feito pela ressonância magnética nuclear do joelho.

O tratamento dos casos leves é feito com repouso, elevação do membro acometido, analgésicos/anti-inflamatórios e gelo local. Levam algumas semanas até a recuperação total. Rupturas graves requerem tratamento cirúrgico, feito por vídeo artroscopia. O menisco lesado, em algumas ocasiões, pode ser suturado ou ter de ser retirado. Nesses casos, a recuperação pode demorar meses, estando incluídos no tratamento o fortalecimento muscular e a fisioterapia.

A lista de jogadores de futebol que apresentaram esse tipo de problema é extensa. Zico, Falcão, Van Basten, Baresi, Ronaldo Fenômeno e Kaká são nomes ilustres dessa relação. Porém, o caso mais emblemático foi o de José Reinaldo de Lima, ou simplesmente Reinaldo, o maior artilheiro da história do Atlético Mineiro, clube cuja torcida o apelidou de Rei.

Oriundo do Pontenovense-MG, chegou ao Galo no final de 1971, sendo considerado por todos como futuro craque (o que realmente se concretizou). Mostrava habilidade impressionante nos treinos e era sempre o destaque nos jogos das categorias de base. Estreou profissionalmente no Galo em 1973.

Em 1974, começaram os problemas nos joelhos, com os quais conviveria por toda a a carreira, e que acabaram por abreviá-la. Segundo o próprio, em uma partida contra o Ceará, sofreu torção no joelho esquerdo ao pisar num buraco no campo. O caso se agravou ao receber de um zagueiro do próprio clube, durante um treino, uma pancada no mesmo joelho. Foi submetido a duas cirurgias sucessivas, realizadas pelo Dr. Abdo Arges. Na primeira, o menisco medial foi retirado. Na cirurgia seguinte, foi a vez do menisco lateral. Essas operações posteriormente foram consideradas desnecessárias. Além dessas intervenções, era submetido constantemente a infiltrações no joelho acometido, o que, a longo prazo, só piorava a lesão.

Em 1976, o Dr. Neylor Lasmar passou a responder pelo departamento médico do clube e determinou a suspensão das infiltrações no joelho do craque. Foi iniciado um novo tipo de tratamento, mas os problemas continuaram. Reinaldo teve nesse ano os dois meniscos do joelho direito retirados, tratamento também considerado posteriormente desnecessário por especialistas. Sem seus quatro “amortecedores”, o desequilíbrio corporal era evidente, e a musculatura local já se sentia sobrecarregada. Mesmo assim, devido à sua genialidade, continuou brilhando, fazendo um Campeonato Brasileiro fantástico em 1977 e sendo convocado para a Copa de 1978, na qual marcou um gol.

No mesmo ano de 1978, em agosto (pós Copa do Mundo), foi submetido a nova (e última) cirurgia no joelho esquerdo, nos EUA, dessa vez pela maior então autoridade mundial em ortopedia esportiva, o Dr. James Nicholas. Segundo as próprias palavras do médico:

“Debaixo da rótula havia muita cartilagem, mais restos de menisco, que estavam entre a rótula e o osso. Assim, cada vez que ele mexia a perna, sentia uma sensação terrível de dor, mais ou menos como se estivesse espremendo um dedo contra uma porta.”

A recuperação demorou meses. Reinaldo voltou a jogar após um ano. Levou o Galo ao vice Campeonato Brasileiro em 1980, participou das Eliminatórias da Copa de 82, mas foi preterido na convocação final para o Mundial da Espanha. O jogador, até hoje, afirma que o critério de Telê não foi técnico, e sim pessoal. Seu futebol aos poucos foi perdendo a eficiência, apesar de momentos de brilho. Eram os joelhos dizendo que não dava mais. Ainda jogou em outros clubes e encerrou a carreira em 1988, prematuramente, aos 31 anos, na Holanda.

O jogador, comparado com Pelé no início de carreira, eleito o maior jogador mineiro de todos os tempos (superando Tostão), considerado por Zico como o melhor jogador brasileiro depois da era Pelé, teve carreira aquém da que poderia. Culpa da medicina esportiva antiquada da época, que literalmente esmerilhou seus joelhos. O Homem sem meniscos foi derrotado. O Rei, esse segue eternizado pelo cântico da massa atleticana que sempre se ouviu nas arquibancadas:

“Rei, Rei, Rei! Reinaldo é o nosso Rei.”

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Médico clínico geral e geriatra, apreciador do bom futebol, doente pelo Flamengo e viúva de Zico!