Seleção Sub-17: foi o que deu para fazer

  • por Mozart Maragno
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Quero agradecer o espaço que o corpo editorial do site Doentes por Futebol oferece a mim, um eterno operário do futebol de base brasileiro. Portanto, para honrar o compromisso, preciso começar com um tema importante do momento, que é a participação brasileira no Sulamericano Sub-17 encerrado no final do mês de abril. Lembro que o nosso amigo Raniery Medeiros fez um belo balanço do Sulamericano Sub-17, sobretudo na fase final, focando os jogos do Brasil e os destaques individuais.

Para começo de conversa: não foi novidade nenhuma a repercussão negativa em relação a alguns profissionais experientes da imprensa esportiva brasileira, quase sempre alheios ao que acontece na base e que não acompanharam o torneio. Profissionais renomados, mas que não veem jogos de base e analisam pelo livescore, isto é, pelos resultados e classificação do torneio. Não deu outra. Figuras famosas de sempre se manifestaram com os clichês de sempre.

Um deles foi José Trajano (e aí nada contra a ESPN, excelente emissora que faz um trabalho sério, com ótimos jornalistas) ao dizer que os jogadores brasileiros são “tratados a pão de ló”. Tudo por terem terminado em 3º lugar, empatados em nove (9) pontos com Argentina, a campeã, e Venezuela. O Brasil, vale destacar, terminou a competição invicto, tendo dominado todos os jogos, exceto o superclássico contra a anfitriã Argentina, quando a peleja foi muito equilibrada, com chances para os dois lados.

Voltando ao “pão de ló” – que é muito gostoso por sinal, principalmente se for o da nossa avó -,essa crítica não tem sentido na medida em que todos os jogadores precisam de estrutura para trabalhar, conforto, tranquilidade. A pressão é inerente, pertence ao futebol, como diz o filósofo Vanderlei Luxemburgo, principalmente na seleção brasileira. Ainda bem que, embora tenhamos vários problemas, o futebol brasileiro pode oferecer uma estrutura razoável para suas seleções. Além disso, esse time sub-17 jogou com muita vontade, disposição, correu por cada bola, superando problemas de lesão, de campo, de arbitragem. Foi um time valente, que fez um clássico eletrizante e digno diante dos campeões e esteve perto do título o tempo todo.

Vale um parênteses aos campeões argentinos: time que bate até na mãe, mas cresceu durante o torneio, após as duas derrotas iniciais. Apesar de não ter a qualidade coletiva e de toque de bola das lendárias equipes de José Pekerman e seus blue caps (Hugo Tocalli, por exemplo), mostrou força física, entrega, e algum talento individual, especialmente por meio de Astina e do centroavante “balaqueiro” Driussi. Humbertito Grondona continua sendo um técnico bizarro e excêntrico, por várias atitudes (também por ser filho do dono da AFA), porém soube motivar seu time para esse desafio cheio de pressão em casa.

Foto: Reprodução - Humbertito foi protagonista

Foto: Reprodução – Humbertito foi protagonista

Aí o leitor mais crítico pode dizer: “Ah, mas terceiro lugar é pouco”. Isoladamente, é pouco para o potencial do futebol brasileiro. Diante do contexto que Gallo pegou a equipe (2 semanas de treinos) e a carga de pressão extra que havia em cima dela (vexame no sub-20), não é pouco. A classificação ao Mundial veio com tranquilidade. O grupo tem muita qualidade, a geração 96 é uma das melhores que já tivemos. Vai gerar, ainda, muitos frutos, como Kenedy, Matheus Índio, Robert, Abner, Caio Rangel, Gabriel Boschillia e outros. A decepção? Alisson Azul. Alguns, como Bruno Gomes, podem ser testados.

Para o Mundial, faremos uma projeção mais a frente, com aspectos de dentro das quatro linhas, como jogou e poderá jogar. Hoje, podemos dizer que o saldo do Sulamericano é positivo. Não há sequer um coordenador de base na CBF. Não há gestão ou metodologia geral. Portanto, a evolução necessária pode se dar pelos amistosos e trabalho de captação que teremos até a competição máxima da FIFA, quando Gallo deverá ganhar mais vivência com essa geração e qualificar ainda mais o grupo, também com possíveis variações táticas. A conferir.

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Formado em Educação Física, fundador do site Olheiros e apreciador do futebol de base desde sempre.