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A passagem de Telê Santana pelo São Paulo FC

Foto Montagem - DPF

Foto Montagem – DPF

Voltamos ao ano de 1990. O São Paulo tinha feito uma péssima campanha no campeonato estadual e ficou fora da segunda fase. Após a Copa do Mundo, tinha o Brasileirão, e a ordem era reformular o elenco. Pablo Forlan treinou o time nas primeiras rodadas da competição.

Com resultados abaixo da média, o uruguaio foi trocado por Telê Santana, para desespero de crítica e torcida. Telê até então era um treinador velho e que não ganhava um título de expressão desde o Brasileirão de 71.  Sendo mais generoso, desde o Campeonato Gaúcho de 1977. Passou a ser taxado mais ainda de pé frio quando fracassou em duas Copas do Mundo com a Seleção Brasileira.

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Foto - Divulgação / Com a seleção, Telê disputou duas Copas e fracassou em ambas

Foto – Divulgação / Com a seleção, Telê disputou duas Copas e fracassou em ambas


Telê montou bons times ao longo de sua carreira. A base do Fluminense campeão do Roberto Gomes Pedrosa foi formada por ele. O Atlético-MG campeão em 71, o Grêmio de 77, que quebrou a hegemonia do Colorado no Campeonato Gaúcho, o Palmeiras de 79, que praticava um futebol exuberante, o Flamengo de 89… além, claro, da Seleção Brasileira de 82 e de 86.

Telê era tão pé frio que viu o Botafogo sair do jejum de títulos sobre o Flamengo. Eram 21 anos sem conquistas. Estava no Palmeiras em 1990, mas viu o time naufragar no estadual após um empate sem gols contra a Ferroviária de Araraquara. Chegava ao Tricolor para sua segunda passagem. A primeira em 1973 não durou muito tempo, por problemas com jogadores logo o treinador acabou demitido. Para piorar, levou o São Paulo à final do Brasileirão. Viu seu time ser derrotado pelo rival Corinthians em dois jogos. Era a primeira conquista nacional do Timão.

A previsão para o ano de 1991 não era das melhores. Telê, que sempre foi considerado autoritário, fez algumas exigências para permanecer no clube. Entre elas, estava se desfazer de jogadores com raízes no Morumbi, como o goleiro Gilmar e o lateral Zé Teodoro.

Na chegada ao São Paulo, o Mestre Telê tinha fama de pé frio

Foto – Reprodução / Na chegada ao São Paulo, o Mestre Telê tinha fama de pé frio


Com a reformulação, o São Paulo ganhou corpo. Passou a ser um time pragmático, mas que vencia. Após um mau começo com três derrotas – que fez o técnico balançar – o time engrenou. Vencia, mas sem espetáculos. Foi assim que o time terminou a fase de classificação na liderança. Na fase final, em quatro jogos disputados, apenas dois gols marcados, ambos por Mário Tilico. Era o pragmatismo que tanto incomodava Telê e que ditava o ritmo no São Paulo. Na final contra o Bragantino, o time pouco atacou, mas também foi pouco ameaçado. Pela derrota em 1982, quando poderia ter empatado com a Itália, talvez os times de Telê tenham aprendido que futebol se ganha também na defesa.

O Paulistão do mesmo ano foi tranquilo. Pela péssima campanha de 1990, o São Paulo encarou um grupo sem os times grandes, o que o garantiu com tranquilidade no quadrangular semifinal. Em um grupo com Palmeiras, Botafogo e Guarani, conquistou o mesmo número de pontos do Palmeiras, mas avançou para a final por ter mais pontos na fase anterior.

Contra o Corinthians, na final, outra vez dois empates dariam o título ao time de Telê. No primeiro jogo, o iluminado Raí balançou as redes três vezes. No jogo decisivo, o empate sem gols garantiu o título ao São Paulo.

Chegava o ano de 1992 e novamente Telê teve atritos com dirigentes. Morando no CT da Barra Funda, o treinador ganhou obstinação pelo cargo que ocupava. Paizão para uns, carrasco para outros. Telê não gostava de ver jogadores com carrões no estacionamento. Aconselhava seus atletas a ter imóveis e poupar as economias para ter um futuro decente.

Foto - Reprodução / Macedo cresceu de produção com Telê e tem um histórico de broncas do treinador

Foto – Reprodução / Macedo cresceu de produção com Telê e tem um histórico de broncas do treinador

Em campo, o São Paulo defendia o título do Brasileirão. E disputava a Libertadores. Logo na primeira semana de março, nova turbulência. Preocupado com o clássico contra o Palmeiras no fim de semana, o treinador optou por escalar um time misto contra oCriciúma pela competição continental. O revés por 3×0 só não foi pior que a derrota no clássico por 4×0. Telê balançou novamente e alguns diretores diziam que não aguentavam mais os mandos e desmandos do treinador. Na sequência, o time viajaria para a Bolívia e muitos apostavam que o treinador desembarcaria no Brasil já demitido. Não foi o que ocorreu. O São Paulo conquistou uma vitória e um empate na temida altitude e a equipe começou a priorizar a Libertadores.

Na bacia das almas, o Tricolor foi passando por seus adversários. Nacional (URU), Criciúma e Barcelona (EQU) ficaram pelo caminho até a final diante do Newell’s Old Boys (ARG). A derrota no campo adversário não assustou o time, que se sentia maduro o suficiente para conquistar a América. O título veio de forma dramática, nos pênaltis.

Com isso, o clube disputou o segundo semestre com outro astral, totalmente leve e quase sem responsabilidade. No meio do ano, jogou os tradicionais torneios Ramon de Carranza e Terea Herrera. Em terras espanholas, o time ganhou os dois títulos com goleadas ante Barcelona (4×1) e Real Madrid (4×0). O bicampeonato do Paulistão veio com duas vitórias sobre o Palmeiras. Entre os jogos, uma ida até o Japão para um reencontro contra o Barcelona. Com o time jogando de igual para igual, Telê vibrou ao ver seus pupilos conquistarem o mundo. Após o segundo gol anotado por Raí, viu-se um sorriso saindo daquele carrancudo rosto.

Foto - Reprodução / Telê e o elenco campeão mundial em 92. Ano mágico na carreira.

Foto – Reprodução / Telê e o elenco campeão mundial em 92. Ano mágico na carreira do treinador.

Em 1993, Telê tinha o desafio de aprimorar ainda mais o time que havia ganhado o Mundial no ano anterior. No Paulistão, brigou até o final, mas acabou eliminado num grupo que tinha o Corinthians. Na Libertadores, entrando direto no mata-mata, foi passando seus adversários um a um: Newell’s Old Boys (ARG) nas oitavas, Flamengo nas quartas e Cerro Porteño (PAR) nas semifinais, até encarar os chilenos da Universidad Católica na final. O jogo de ida foi considerado por muitos o jogo perfeito do São Paulo de Telê. Com um Morumbi lotado e o time jogando o fino da bola, a goleada de 5×1 – maior numa final de Libertadores até hoje – acabou ficando barato. A derrota por 2×0 no jogo de volta só serviu para carimbar a faixa de campeão do time.

Foto - Reprodução / Com a taça da Libertadores e Raí ao fundo. Símbolos de um time vencedor

Foto – Reprodução / Com a taça da Libertadores e Raí ao fundo. Símbolos de um time vencedor

Depois da Libertadores, o time perdeu Raí e Pintado. Leonardo veio para jogar na meia. Muitos diziam que o ciclo do agora chamado Mestre acabaria no fim do ano. A Seleção Brasileira vivia um péssimo momento e a imprensa, principalmente os paulistas, queria que Telê assumisse a Seleção no lugar de Parreira. A pressão foi enorme, com direito a reportagens até no Jornal Nacional. Mas Parreira resistiu e se manteve até a conquista do Tetracampeonato. Ainda assim, o time conquistou o bi mundial, dessa vez com uma vitória por 3×2 sobre o Milan. Tempos depois, Telê e Toninho Cerezzo, que estavam na Copa de 82, diziam ter tirado um peso das costas ao vencer os italianos.


Em 1994, Telê esticou as férias. Deixou parte da preparação do time com seu auxiliar, Muricy Ramalho. As desavenças com arbitragem eram imensas. Foi expulso várias vezes. Ainda ganhava uma sombra em alto nível: Vanderlei Luxemburgo, que treinava o Palmeiras e fazia os grandes clássicos contra o próprio São Paulo.

Foto - Reprodução / Telê e Muricy juntos no São Paulo em 95

Foto – Reprodução / Telê e Muricy juntos no São Paulo em 9

A Libertadores, que havia virado a menina dos olhos dos clubes brasileiros, era uma obsessão palmeirense. No duelo, com o time do São Paulo já enfraquecido, os comandados de Telê eliminaram heroicamente o super time palmeirense. Na sequência, ficaram para trás Unión Espanhola (CHI) e Olímpia (PAR). A equipe tentaria um tricampeonato inédito diante dos argentinos do Vélez. Não veio. Chilavert e Carlos Bianchi bateram o Tricolor nos pênaltis. Mas a derrota parecia ser questão de tempo para ser esquecida. Ainda mais que no segundo semestre, com a reformulação do time e as obras do Morumbi, o São Paulo resolveu apostar na base. Jogadores como Denílson, Rogério Ceni, Juninho e Caio conquistaram a Copa Conmebol daquele ano. Era o famoso Expressinho, treinado por Telê, mas que no banco ficava o auxiliar Muricy Ramalho.

O ano de 1995 trouxe toda uma reformulação ao São Paulo. Do time bicampeão do mundo, restaram apenas Zetti e Palhinha. A reforma do Morumbi consumia todas as energias do clube, e Telê parecia cada vez mais cansado. Era a hora de reformular. E em 1995 foi assim, com o Tricolor passando longe da disputa de títulos.

Foto - Reprodução / Com Luxemburgo protagonizou belos duelos nos anos 90.
Pelo Brasileirão, um momento marcante. Durante um jogo contra o Fluminense, Telê recebeu um longo abraço de Renato Gaúcho, com quem havia brigado na preparação para a Copa de 1986.

Em janeiro de 1996, Telê pediu para novamente esticar as férias. No fim delas, sofreu uma isquemia cerebral que o afastou definitivamente dos gramados. Em 1997, ainda chegou a ser apresentado no Palmeiras, mas não chegou a trabalhar no alviverde devido ao seu estado de saúde.

Muitos dizem que o São Paulo se agigantou com Telê Santana. Mas será que o treinador também não se aproveitou de uma excelente estrutura para desenvolver seu trabalho e ter um fim de carreira brilhante?

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Paulistano, casado e com 33 anos. Apaixonado por futebol e pelo São Paulo FC. De memória privilegiada, adora relatar e debater fatos futebolísticos de outrora. Ex-estudante de jornalismo, hoje gerencia uma drogaria no município de Barueri, além de escrever para a Doentes por Futebol.