O canto do canário

  • por Henrique Joncew
  • 4 Anos atrás

O futebol da Espanha encanta o planeta com seus passes precisos, sua movimentação incessante, sua monopolização da bola e sua temporização perfeita. Encaixada como um relógio, que rendeu ao estilo de jogo o famoso apelido “tiki-taka”, a Fúria parece imbatível.

Mas o fuso horário parece ter afetado o relógio espanhol neste mês de junho. Nada que impedisse a Seleção de chegar à final da Copa das Confederações. Mas a avassaladora horda vermelha não conseguiu esmagar os oponentes com a mesma imponência. Contra a Itália, a sofrida classificação nos pênaltis anunciava uma final dura.

No esperado jogo com o Brasil, a Fúria ainda era favorita à conquista, mas isso mudou no apito inicial. Não partindo do clichê que diz que favoritismo só existe até a bola rolar. Mudou de verdade, com direito a gol (deitado) de Fred. O Brasil subjugou a Espanha do início ao fim. As propostas de jogo de Iniesta não encontravam eco em seus companheiros, nem mesmo em Xavi, que, a seu lado, rege a cadência espanhola. Paulinho e Luiz Gustavo não permitiram avanços e as poucas sobras eram recolhidas pelo inspirado David Luiz antes que o apagado Torres pudesse levar qualquer perigo. Não houve espaço, não houve posse de bola.

Armado com excelência por Scolari, o Brasil deu vez ao adversário em vacilos individuais, que renderam o chute de Pedro, salvo de carrinho por David Luiz, e o pênalti perdido por Sergio Ramos. De resto, bloqueio total desde o campo de ataque, onde Hulk se encarregava da marcação e Neymar e Fred se movimentavam para desespero de Arbeloa, Piqué e Ramos. A Espanha era forçada a tocar até ficar sem saída e forçar o jogo. Pedro, bastante exigido, não correspondeu à altura das expectativas. Em lances esporádicos, Júlio César parou qualquer sonho espanhol de diminuir a desvantagem no placar.

Não só do ponto defensivo a Seleção canarinho brilhou. Os ataques foram precisos. Nas costas dos laterais, Neymar e Hulk encontraram espaço. Fred mostrou sua veia oportunista, letal, e chegou à artilharia do torneio. Oscar, o mais discreto do quarteto ofensivo, ainda teve tempo para se livrar de Busquets e assistir para o segundo gol, outra pintura de Neymar no torneio. Até Marcelo, que não criou muito, fez suas arrancadas nas costas de Arbeloa.

O confronto tão aguardado por todo o mundo foi surpreendente. A Espanha foi presa fácil da pressão brasileira. Perdida em campo, viu impotente o troféu se aproximar cada vez mais das mãos de Thiago Silva até o apito final liberá-la da aula de futebol.

Se a Espanha não deixa de ser a favorita para 2014, fica exposta sua fraqueza: sem bola, sem jogo. Se travados os passes e a movimentação da proposta do “tiki-taka”, falta à Espanha a iniciativa para romper as barreiras adversárias e, mais ainda, o cuidado em proteger sua frágil defesa das investidas, sobretudo pelos flancos, em especial o guardado pelo limitado Arbeloa.

A Fúria vivia um sonho em que relógio um relógio tiki-takava contando as horas de invencibilidade em jogos decisivos. Mas acordou com o canto forte de um pássaro. Um canário que não tem hora para cantar.

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Geólogo. Fã de futebol, Fórmula 1, paleontologia, astronomia e pirataria desde criança. Belo horizontino, cruzeirense e líbero, armador ou atacante canhoto. Tem Zidane e Velociraptor como grandes ídolos e modelos de vida. Gosta de batata frita, do espaço e de combater o crime à noite sob o disfarce de Escorpião Negro.