Segundo atacante: uma posição em desuso

  • por Levy Guimarães
  • 5 Anos atrás

Segundo atacante em desuso

Ao longo dos anos 90 e em parte dos anos 2000, nos acostumamos a ver a maioria dos times do Brasil e da Europa adotarem esquemas táticos como o 4-4-2 ou até mesmo o 3-5-2, que, evidentemente, utilizam dois atacantes. Um deles, fazendo companhia ao tradicional centroavante, ganhou a denominação de “segundo atacante”, um jogador de grande movimentação, velocidade e habilidade que flutua pelo gramado procurando penetrar a defesa adversária e servir os companheiros, além de marcar os seus próprio gols. No Brasil, Bebeto é um exemplo clássico desse tipo de jogador, fazendo dupla na seleção com Romário em 1994 e Ronaldo em 1998.

Entretanto, nos últimos anos uma tática em especial tem ganho cada vez mais espaço no futebol mundial. Abrindo os dois meias ofensivos do 4-4-2 e recuando um de seus atacantes, nascia o 4-2-3-1, esquema bastante aplicado na última Copa do Mundo.

Pense nas principais seleções do mundo na atualidade: Alemanha, Espanha, França, Argentina e a própria seleção brasileira de Felipão, dentre outras. Todas atuam no 4-2-3-1, com jogadores abertos pelas pontas ao invés de um atacante específico de movimentação que sirva o centroavante. Assim, há uma maior ocupação dos espaços abertos da região central do campo de ataque, garantindo presença ofensiva em ambos os lados, mas sem desguarnecer a zaga. Talvez a Itália seja a que chegue mais perto de preservar o segundo atacante. Cesare Prandelli costuma jogar com dois atacantes, como foi no amistoso contra o Brasil, em março, quando escalou Osvaldo e Balotelli na frente, e na Euro 2012, com Cassano formando ao lado de Balotelli a dupla de frente.

Foto: zonalmarking.net - O 4-2-3-1 da Alemanha, com os dois atacantes abertos marcados de verde. De vermelho, o meia avançado pelo centro

Foto: zonalmarking.net – O 4-2-3-1 da Alemanha, com os dois atacantes abertos marcados de verde. De vermelho, o meia avançado pelo centro

Nos clubes europeus, o cenário é o mesmo. Praticamente todos os gigantes do continente, principalmente os espanhóis e alemães, já se desfizeram há alguns anos do chamado segundo atacante. O Bayern, por exemplo, não abre mão da trinca Ribery-Müller-Robben auxiliando o centravante Mandzukic, assim como o Borussia Dortmund sempre que pode jogou com o trio formado por Gotze, Reus e Blaszczykowski, além do artilheiro Lewandowski. Isso só para ficar nos dois finalistas da UEFA Champions League. Até mesmo as principais potências inglesas estão abrindo mão do tradicional 4-4-2 com duas linhas de quatro jogadores para se adaptarem ao esquema da moda.

Foto: reprodução - O Real Madrid de José Mourinho. A linha de 3 jogadores avançados dá suporte ao centroavante,

Foto: reprodução – O Real Madrid de José Mourinho. A linha de 3 jogadores avançados dá suporte ao centroavante

A mudança acabou prejudicando o futebol de alguns jogadores que, de origem, exerciam a função de segundo atacante, e que tiveram dificuldades para se adaptarem à nova formação. Talvez o principal exemplo disso seja Robinho. Acostumado a atuar de forma mais livre no Santos, chegou à Europa tendo que se encaixar em um outro padrão, no qual ele teria menos liberdade de circular pelo campo e mais obrigações táticas a cumprir. O brasileiro acabou não se adequando da forma ideal e não rendeu tudo o que dele se esperava no futebol europeu.

Foto: reprodução - Com altos e baixos, Robinho raramente conseguiu repetir na Europa o futebol dos tempos de Santos

Foto: reprodução – Com altos e baixos, Robinho raramente conseguiu repetir na Europa o futebol dos tempos de Santos

Aos poucos, o futebol brasileiro também vai utilizando menos o segundo atacante. Apesar de a maioria das equipes ainda seguirem o costumeiro 4-4-2, alguns times já estão seguindo o exemplo do futebol europeu. Na final do Mundial de Clubes, contra o Chelsea, o Corinthians aplicou algo bem próximo de um 4-2-3-1, com Emerson Sheik caindo mais pela esquerda (entrando em diagonal e fazendo jogadas também pelo centro), Jorge Henrique pela direita, Danilo centralizado e Guerrero na área, alteração que resultou no título dos comandados de Tite. Além do atual campeão do mundo, Atlético-MG (com o envolvente trio formado por Diego Tardelli, Ronaldinho e Bernard e Jô de centroavante), Fluminense, Cruzeiro e São Paulo também estão se modernizando taticamente.

É arriscado dizer que a posição de segundo atacante está “em extinção”. Afinal, futebol é cíclico, em todos os aspectos. Pode acontecer que daqui a alguns anos esse tipo de jogador volte a ser bastante utilizado, assim como os antigos pontas foram esquecidos durante algum tempo e retornaram recentemente, moldados de acordo com as exigências do futebol moderno. Jogadores mais bem adaptados ao 4-2-3-1, como Bernard, Wellington Nem e Osvaldo, já estão saindo das nossas categorias de base, e a tendência é que esse número aumente. Portanto, fãs de jogadores como Bebeto, Edílson, Müller (o brasileiro, ex-São Paulo) e outros terão de esperar um pouco mais para voltarem a ver atacantes desse tipo se destacando em grande escala.

Foto: reprodução - Bebeto construiu toda a sua carreira na seleção atuando como segundo atacante

Foto: reprodução – Bebeto construiu toda a sua carreira na seleção atuando como segundo atacante

Comentários

Estudante de Jornalismo e redator no Placar UOL Esporte, belo-horizontino, apaixonado por esportes e Doente por Futebol. Chega ao ponto de assistir a jogos dos campeonatos mais diversos e até de partidas bem antigas, de décadas atrás.