Camisa 10: sem ele, pobre seria o futebol

  • por Leandro Lainetti
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“Nos meus times de futebol de botão, o camisa 10 era a tampinha de relógio ou o galalite que melhor conseguia encobrir o goleiro com a bolinha” (Marcelo Barreto)

Imagine a cena: o cara recebe a bola de costas para a marcação pouco depois da linha central do campo. No domínio, repleto de classe, limpa a marcação. Conduz a pelota quase colada ao pé como se ela fosse uma extensão do seu corpo. Em seguida, dribla um, dois, três marcadores em sequência e com tamanha facilidade que parece ter previsto o que eles fariam. Invade a área, olha rapidamente o goleiro avançando em sua direção e, com o mais sutil dos toques, encobre o arqueiro e faz a bola cair mansamente dentro do gol. Golaço. Lance de gênio. Coisa de camisa 10.

Foto: Lemyr Martins - Pelé, o Rei do futebol foi um verdadeiro camisa 10

Foto: Lemyr Martins – Pelé, o Rei do futebol foi um verdadeiro camisa 10

Camisa 10, a função, e não o número, é “o cara”, o melhor e principal jogador do time. O maestro, líder, a cabeça pensante da equipe. Gênios, são capazes de antever um passe, um lançamento, um chute a gol, o bote do adversário. São eles os principais responsáveis por adjetivar qualquer jogada de forma positiva e elogiosa. São responsáveis também por comandar a equipe, como se maestros fossem. Mas, ao contrário de uma ópera, os pés é que movimentam a batuta – a bola – para reger os outros músicos.

Na maioria das vezes, a idolatria da torcida recai sobre o camisa 10. Com ele em campo, a esperança do torcedor é renovada a cada bola que passa pelos pés do craque. Alguns são mais humildes, outros nem tanto, mas a qualidade no trato à bola é sempre a mesma, cheia de carinho, sutileza.

Foto: Reprodução - Zico, camisa 10 completo, é Deus para os rubro-negros

Foto: Reprodução – Zico, camisa 10 completo, é Deus para os rubro-negros

Essa relação com a bola, inclusive, deveria ser alvo de estudos científicos. Como pode homem e objeto parecerem uma coisa só? É assim mesmo, sem exagero algum. Se vem na cabeça, parece um dos fios da cabeleira. Se vem nos pés, uma continuação dos dedos. Se vem ao peito, a bola é coração.

Camisas 10 são imprevisíveis. Coitado do adversário que tentar prever o movimento que ele fará. Vai correr o risco de ser mais desmoralizado do que se apenas aparece à frente do craque, inerte, assumindo ser inferior a ele. Os adversários – confesso que às vezes tenho pena deles – também são alvos de dribles magistrais, e ficam imortalizados junto ao lance, preenchendo o papel de vítima necessário a cada cena de crime.

Foto: Reprodução - Ronaldinho foi duas vezes o melhor do mundo com a camisa do Barcelona

Foto: Reprodução – Ronaldinho foi duas vezes o melhor do mundo com a camisa do Barcelona

Ouso dizer que o futebol não deveria nem existir sem a presença deles, os baluartes, os maiores artistas dos gramados. Fundamental que passemos o resto de nossas vidas admirando a riqueza que existe nos pés desses gênios. E que essa riqueza nunca se acabe, pois sem o camisa 10, pobre seria o futebol. Pobre seríamos nós.

Jornalista trabalhando com marketing, carioca, 28 anos. Antes de mais nada, não acredito em teorias da conspiração. Até que me provem o contrário, futebol é decidido dentro das quatro linhas. Mais futebol nacional do que internacional. Não vi Zico mas vi Romário, Zidane, Ronaldinho, Ronaldo. Vejo Messi e Cristiano Ronaldo. Totti é pai.

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