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DPF Entrevista: Mikaël Roche, goleiro do Taiti

Três jogos, três derrotas: três goleadas. Vinte e quatro gols sofridos, apenas um marcado. Após a campanha, no entanto, nada de lágrimas: apenas as boas lembranças e os sorrisos, irreversivelmente estampados nos rostos dos jogadores taitianos que participaram da memorável campanha de sua seleção na Copa das Confederações 2013. Sim, memorável – foi a primeira participação do Taiti em uma competição oficial da FIFA longe da Oceania. Nela, o time marcou seu primeiro gol oficial fora de seu continente. Um feito e tanto para uma seleção amadora que mediu forças num torneio que contava com quatro campeões mundiais.

A excepcionalidade da campanha dos “grandes guerreiros” foi suficiente para conquistar a maioria da torcida brasileira que foi aos estádios durante o torneio. E a seleção mostrou aos torcedores locais que o carinho era recíproco, disponibilizando ingressos a moradores de comunidades pobres e, ao final, agradecendo o apoio e todos os momentos inesquecíveis.

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Roche, ao centro: Taiti agradece apoio dos torcedores brasileiros.

Roche, ao centro (acima do ‘G’): Taiti agradece apoio dos torcedores brasileiros.

O goleiro Mikaël Roche, que defendeu a meta taitiana justamente no “duelo” contra a temida seleção espanhola, foi personagem marcante da participação do país na Copa das Confederações. Mesmo após os dez gols sofridos, seu semblante ao final do jogo era de grande satisfação. Ele aceitou o convite do Doentes por Futebol e nos concedeu essa entrevista exclusiva. Nela, o jogador conta suas impressões da competição, fala sobre a popularidade do futebol no Taiti e sobre os desafios do esporte na região da Polinésia Francesa. Além disso, o jogador descreve os principais aspectos da estrutura social e política desta pequena ilha encravada no Oceano Índico – e no coração de todos os torcedores brasileiros.

DPF: O futebol é popular no Taiti? O que essa Copa das Confederações representa para o futebol taitiano, e quais as perspectivas que ela trará para o futuro do esporte (profissional) do país?

Roche: O futebol é muito popular aqui. Na Polinésia Francesa, a FTF é a federação que tem mais jogadores filiados. No entanto, esportes aquáticos também fazem muito sucesso aqui, como o surfe ou o va’a (canoagem taitiana tradicional).

A Copa das Confederações não significou muito para o povo daqui – inclusive para muita gente na Federação! Nós, jogadores, sempre estivemos cientes de que a competição seria importante. Mas não sabíamos como ela era gigante, e como vocês brasileiros a vivem!

Essa competição deixou claro para muita gente o tamanho do abismo entre nós e o futebol do mais alto nível. Mas mostrou também alguns aspectos em que podemos trabalhar para melhorar a nossa situação, como estrutura (por exemplo, campos de boa qualidade), técnicas de treinamento, mentalidade, etc.

Falar sobre futebol profissional aqui no Taiti não é lá muito realista, porque o mercado do esporte ainda não é grande e atrativo o suficiente – apenas 280 mil pessoas vivem na Polinésia Francesa, 100 mil no Taiti. Logo, as empresas não investem tanto. E provavelmente nem poderiam, tendo em vista a crise que estamos vivendo aqui. Precisamos ser mais profissionais na maneira que vivemos e construímos o futebol no país. Mas acima das questões financeiras, a grande evolução precisa ser em termos de mentalidade.

DPF: Existe alguma liga de futebol no Taiti? Como ela funciona?

Roche: Aqui, são apenas duas divisões. A divisão de elite tem duas fases: a primeira, na qual os times brigam pela classificação para a segunda, que segue o formato de play-offs.

Taiti levanta a taça continental: o futebol profissional ainda é um sonho distante no país.

Taiti levanta a taça continental: o futebol profissional ainda é um sonho distante no país.

DPF: Como você descreveria a experiência de enfrentar alguns dos melhores atacantes do mundo como Villa, Torres, Cavani e Suárez, e o qual é o tamanho do impacto dessa experiência na sua carreira?

Roche: Jogar contra os melhores foi incrível, como um sonho se tornando realidade. Ainda mais atuando em um estádio lendário como o Maracanã, com um público espetacular, sempre nos apoiando… absolutamente inesquecível.

Eu não sei se essa Copa vai ter algum impacto na minha carreira, tenho 30 anos e não sei se interesso muito a clubes estrangeiros. Mas como jogador, eu me sinto mais forte e confiante.

Mikaël Roche recebe cumprimentos e incentivos do atacante espanhol Fernando Torres: na CC-2013, foi impossível não simpatizar com o Taiti.

Mikaël Roche recebe cumprimentos e incentivos do atacante espanhol Fernando Torres: mesmo para os rivais, foi impossível não simpatizar com o Taiti na CC-2013.

DPF: Como você descreveria a sociedade taitiana, sua distribuição de riquezas e principais valores culturais?

Roche: O Taiti tem vivido em uma economia artificial: a ilha recebe “ajuda” francesa em troca dos testes nucleares realizados na região e nunca realmente construiu um sistema econômico real. Com a crise econômica global, as “ajudas” diminuíram, e desde então estamos vivendo tempos duros. Pela primeira vez, começamos a conviver com a existência de cidadãos que não têm casa para morar. E na última década, tem crescido bastante a quantidade de pessoas consideradas pobres. No entanto, a maioria das pessoas ainda é das classes média e alta. A qualidade de vida ainda é muito boa por aqui.

DPF: Qual é a influência da religião no modo de vida dos taitianos?

Roche: A religião aqui é um elemento muito poderoso, e as principais decisões políticas ainda têm que passar pelo crivo do poder religioso (a maioria da população é composta por católicos e protestantes). Há muitas pessoas sob forte influência das igrejas aqui no Taiti.

Papeete, capital do Taiti: padrão de vida ainda é alto, mas as consequências da crise global estão à vista.

Imagens aéreas de Papeete, capital do Taiti: padrão de vida ainda é alto, mas as consequências da crise global estão à vista.

DPF: Quais são os maiores desafios para o futuro do país?

Roche: Nosso maior desafio é se tornar um destino ainda mais atrativo para os turistas. O turismo é nossa fonte de receitas número um. Há também uma necessidade de ter uma economia mais diversificada para cortar gastos em importação. Temos que manter o ótimo nível do nosso sistema educacional e encontrar uma solução para a equação da saúde pública, que é boa, mas muito cara.

DPF: Eu soube que você é professor. Como você descreveria as condições da educação taitiana?

Roche: A educação é muito boa aqui. Seguimos o modelo francês, que valoriza as especificidades locais nos programas escolares (como na Geografia, na História ou no esporte – ensinamos o va’a). E muitos dos nossos professores vêm da França, num contrato de quatro anos.

O conteúdo acima é de responsabilidade expressa de seu autor. O Doentes por Futebol respeita todas as opiniões discordantes e tem por missão promover o debate saudável entre ideias.

Recifense, rubro-negro, apaixonado por música e estudante de Jornalismo. Sócio-diretor do Doentes por Futebol, com passagens por Seleção do Rádio e SuperesportesPE. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.