Goleiro: o mais amado e odiado

  • por Leandro Lainetti
  • 4 Anos atrás

“Goleiro, para ser bom, tem de dormir com a bola. Se for casado, dorme com as duas”. (Neném Prancha)

Em novelas, filmes, seriados, fábulas, não importa, sempre procuramos heróis e vilões. Somos maniqueístas, a necessidade de enxergar o bem e o mal é intrínseca a nossa natureza. No futebol, claro, não poderia ser diferente. Queremos alguém para ser alçado ao pedestal dos deuses e outro para ser execrado e escorraçado aos recantos mais sombrios do planeta. Em jogos decisivos, então, essa procura vem à tona de forma avassaladora.

Ninguém, mas ninguém mesmo, entra em um campo de futebol com mais possibilidades de ser herói ou vilão, de representar tanto o bem quanto o mal como os goleiros. A posição ingrata, como é conhecida popularmente. 89 minutos perfeitos. Basta um lance, uma bola, um minuto, talvez um segundo, para que toda a perfeição seja esquecida. Se aluno fosse, a prova do goleiro só teria uma questão. E a nota dez poderia se tornar zero a qualquer instante.

Quando heróis, os goleiros precisam ser humildes. Quando vilões, também. 1 x 0 para o seu time, defesas salvadoras durante todo o jogo. Gol do camisa nove e lá se vai nosso herói solitariamente para o vestiário. 1 x 0 para o adversário, frango histórico e lá se vai nosso vilão cercado de pessoas a lhe apontar câmeras, flashes, microfones e dedos. A confissão de culpa precisa ser feita antes mesmo do julgamento. Pobre goleiro.

Foto: Reprodução - Félix, também campeão pela Seleção Brasileira, mas na Copa de 1970.

Foto: Reprodução – Félix, também campeão pela Seleção Brasileira, mas na Copa de 1970.

Entre os 11 que estão em campo, é aquele que não divide olhares. Quando ele precisa ser o alvo da multidão, não há nada que o faça dividir atenções. É o jogador mais solitário, na derrota ou na vitória. Nos pênaltis, é Deus no céu e ele na Terra. E, às vezes, nada mais é do que um torcedor com visão privilegiada do campo.

Ser goleiro é ter arrojo, jogar-se aos pés dos atacantes, não como um fã histérico, mas como um animal selvagem em disputa pela presa, a bola. Ser goleiro é ser muralha, homem elástico, é poder ter o privilégio de ser o único em campo com permissão para pegar a bola com as mãos. É ser intocável dentro do seu espaço – a pequena e grande áreas. Ali, o goleiro é sempre a vítima.

Há de ser corajoso o sujeito que, um dia, cogitar ser goleiro. E, quando se tornar o camisa 1 de algum time, que esteja preparado para encarar os dois lados da moeda. Mas, acima de tudo, que esteja preparado para, dia sim e outro também, ser amado e odiado por todos nós.

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Jornalista trabalhando com marketing, carioca, 28 anos. Antes de mais nada, não acredito em teorias da conspiração. Até que me provem o contrário, futebol é decidido dentro das quatro linhas. Mais futebol nacional do que internacional. Não vi Zico mas vi Romário, Zidane, Ronaldinho, Ronaldo. Vejo Messi e Cristiano Ronaldo. Totti é pai.