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Neymar e suas amígdalas

Neymar vai retirar as amígdalas para ganhar peso.

Segundo o jornal espanhol MARCA, o craque brasileiro Neymar, recém-contratado pelo Barcelona, e que sofre constantemente de inflamação das amígdalas, será submetido a cirurgia para a retirada das mesmas, com objetivo de ganhar mais peso e massa muscular.

ODD Shark

As amígdalas são “ilhas” de tecido linfático que se situam na parte posterior da garganta de cada lado da úvula. Por situar-se na entrada da via aérea respiratória, esta estrutura está constantemente sujeita à vírus e bactérias que causam infecção ao penetrar na cavidade oral pela respiração. Acredita-se que as amígdalas (juntamente com outras estruturas do Anel Linfático de Waldeyer, situadas na cavidade oral) funcionam como parte do sistema imunológico de nosso organismo, atuando como primeira linha de defesa contra micro-organismos patógenos, atividade que teria maior efetividade durante a infância, diminuindo de importância a medida que a criança cresce.

A amigdalectomia – excisão cirúrgica desse tecido – é indicada em situações muito precisas e específicas, notadamente infecções (amigdalites) de repetição causadas por uma bactéria denominada de Estreptococos B-hemolítico do grupo A, e mesmo assim dentro de critérios consensuais, e em quadros de obstrução ao fluxo aéreo normal das vias respiratórias por as amígdalas apresentarem um tamanho maior que o habitual, especialmente em casos de distúrbio respiratório do sono.

Um estudo publicado em 2011 pela revista da Academia Americana de Otorrinolaringologia serviu de base para uma terceira justificativa para se fazer a retirada das amígdalas: corrigir o baixo peso corporal de um indivíduo. Esse trabalho feito em cima de dados de 9 pesquisas realizadas nos últimos 40 anos, num universo de quase 800 crianças de 0-18 anos, mostrou que no primeiro ano após a amigdalectomia, o IMC (índice de massa corporal) teve aumento de 5,5 a 8,2% (7% em média) num grupo estudado. Outros dados mostraram ganho de peso em mais de 50% dos pacientes de outra amostragem.

Alguns fatores são especulados como os motivos do ganho de peso após a cirurgia. As amídalas inflamadas e edemaciadas (inchadas) ocupariam maior espaço na cavidade oral, dificultando a entrada de ar, o que levaria a maior gasto calórico para se respirar. Com a retirada das mesmas e menor esforço respiratório, o perda de energia seria menor. Outra teoria diz que inflamações crônicas ou recorrentes dessas estruturas causariam dor e dificuldade de deglutição, com consequente má alimentação e diminuição da ingestão de calorias, levando ao baixo peso. Com a cirurgia, as pessoas passariam a comer melhor, resultando em ganho de peso.

Porém, como em toda cirurgia, a amigdalectomia traz riscos e complicações, principalmente em crianças. A mais comum é a hemorragia intra ou pós-operatória. Dor (com consequente desidratação e perda de peso pela dificuldade de deglutição) e obstruções pós-operatórias podem acontecer, bem como traumatismo de tecidos locais. Também são relatados traumas psicológicos e alteração da voz. Vale lembrar aqui o caso trágico do jogador Geraldo “Assoviador”, meio campista rubro-negro da década de setenta, tido como craque de grande futuro, que faleceu precocemente aos 22 anos, em 1976, após sofrer um choque anafilático durante uma simples cirurgia de…retirada de amígdalas! Por isso, o bom senso é o “tratamento” mais indicado, e ainda não há consenso sobre o uso da cirurgia para fins ponderais (aumentar o peso corporal).

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Médico clínico geral e geriatra, apreciador do bom futebol, doente pelo Flamengo e viúva de Zico!