Volante: destruir qualquer coisa que estiver pela frente

“Dizem, não consegui provar, que na mitologia grega, Atlas, aquele que segura o mundo há tanto tempo, seria o primeiro volante de todos
os tempos. Aguentando a barra lá embaixo, enquanto o resto apronta pelo globo terrestre acima” (Sidney Garambone)

Foto: Reprodução - Clodoaldo, craque do Santos e tri com a Seleção no Copa do Mundo de 1970

Foto: Reprodução – Clodoaldo, craque do Santos e tri com a Seleção no Copa do Mundo de 1970

No futebol existem aqueles que constroem e aqueles que destroem. Os volantes se encaixam na segunda categoria. Ao entrar em campo, a missão fundamental da posição é simples: destruir o que os adversários querem criar. Eles são quase a antítese do futebol bem jogado. Quase, porque há aqueles que jogam e não deixam o adversário jogar. São os dotados de visão de jogo, poder de marcação, bom passe e até finalização aguçada, sendo um ótimo elemento surpresa.

A função já teve vários nomes: center-half, médio-centro, cabeça-de-área, até chegar ao nome atual. A expressão cabeça-de-área, inclusive, foi transformada, pejorativamente, em cabeça-de-bagre, mostrando claramente o preconceito com o qual os nossos marcadores precisam conviver. Os “brucutus”, mais uma definição que leva a crer em dificuldade no trato à bola, são aqueles homens brutos, mas capazes de um gesto romântico – como um gol – em certas ocasiões.

Foto: AFP - Falcão, ídolo do Inter, craque da Seleção de 1982 e "Rei de Roma"

Foto: AFP – Falcão, ídolo do Inter, craque da Seleção de 1982 e “Rei de Roma”

Ser volante é ser um cão de guarda, daqueles que vem com a plaquinha de “cuidado, cão bravo” pendurada no pescoço. Eles também não usam coleira, afinal, tem que botar qualquer invasor que tente pular o muro da casa para fora, geralmente com mordidas no tornozelo. A medida é pura precaução para evitar que os adversários cheguem aos zagueiros. Se chegarem, que seja aos trancos e barrancos, para que o trabalho dos amigos da retaguarda seja facilitado. Essenciais para qualquer equipe, os carregadores de piano são os responsáveis pelo trabalho árduo dentro da mecânica do time.

Volante é o cara que entra em campo sob o olhar desconfiado do juiz. Do alto de sua toga futebolística, Vossa Excelência já observa o, geralmente, camisa cinco pensando: “na primeira eu dou o amarelo e na segunda é chuveiro”. A fama de violento também é normal entre jogadores, torcedores e técnicos. Os volantes são sempre tachados como os mais grossos de uma equipe. É comum ouvir torcedores pedindo para que eles roubem a bola e passem logo ao companheiro mais próximo.

Foto: Satellite - Dunga, depois de execrado na COpa de 90, ergue a Taça como capitão em 1994

Foto: Satellite – Dunga, depois de execrado na COpa de 90, ergue a Taça como capitão em 1994

E se o juiz é um ladrão de ocasião, o volante é um ladrão profissional, com carteira assinada e até sindicato. Há uma mercadoria valiosa rolando pelo campo e, mais do que ninguém, são eles que precisam surripiá-la, de forma sorrateira ou não, dos pés adversários.

Entre o ataque e a defesa, lá estão eles, com chances de dar passes e marcar gols, mesmo que em menor quantidade. Mas ao subir as escadas do vestiário para o campo, eles sabem que o principal objetivo é um só: destruir qualquer coisa que estiver pela frente.

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Jornalista trabalhando com marketing, carioca, 28 anos. Antes de mais nada, não acredito em teorias da conspiração. Até que me provem o contrário, futebol é decidido dentro das quatro linhas. Mais futebol nacional do que internacional. Não vi Zico mas vi Romário, Zidane, Ronaldinho, Ronaldo. Vejo Messi e Cristiano Ronaldo. Totti é pai.