Cinzas e diamantes

  • por Ordep Jose Trindade Serra
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O Campeonato Brasileiro deste ano fatídico de 2013 acabou de forma bestial. As imagens grotescas de brutamontes a bater-se como cães raivosos na Arena Joinville traduzem, além da crassa estupidez dos protagonistas, a incúria de nossos governantes, que não se preocupam nem um pouco com segurança pública. Mostram também a irresponsabilidade dos cartolas. Hooligans são calhordas que se servem do esporte para extravasar sua sanha animalesca. Não são torcedores. São meros pulhas, tristes devotos da violência, uma ralé composta de desclassificados, imbecis e bandidos. É certo que esa espécie de cretinos tem causado problemas no mundo inteiro. Mas já se provou que o holliganismo é controlável, pode ser contido e erradicado, como sucedeu, de resto, em diferentes países da Europa.

Dá-se que para acabar com essa praga são indispensáveis determinação, inteligência, seriedade. Essas coisas andam escassas no Brasil. Os nossos cartolas já mostraram que são inimigos do bom senso. Muitos estimulam as lamentáveis torcidas organizadas e lhes fazem mimos, mesmo quando têm de arcar com os prejuízos que elas provocam. São da mesma laia. A nossos dirigentes políticos, na sua maioria, faltam espírito republicano e lucidez.

Autoridades aparecem na televisão e se pronunciam nos jornais com lamentos hipócritas, fingindo que se importam com o sofrimento das vítimas, com o horror das cenas estúpidas. Não me convencem. Acho que seu aborrecimento é verdadeiro, mas a causa dele não tem qualquer relação com sentimentos humanitários ou escrúpulos de cidadania. Incomodam-se com o prejuízo político. Circulando pelo mundo inteiro, às vésperas da Copa do Mundo, as imagens desse show de brutalidade revelam nosso deficit de civilização e a incompetência de nossos gestores. O descalabro que se verificou era perfeitamente evitável. Sabe-se disso pelo mundo afora, pois muitos países aprenderam a evitar essa  espécie repugnante de barbárie.

Acontece que não temos uma política séria de segurança pública. A polícia brasileira está abaixo da crítica, o judiciário é falho, o estado tolera docemente o avanço do crime. Só se incomoda com a contestação.

No triste episódio de Joinville, colaborou para a consumação do desastre a estapafúrdia decisão de um promotor bronco, incapaz de perceber que o interesse público não se limita a espaços e eventos categorizados como públicos em função da agência que os promove. Sua limitação intelectual e seu incrível despreparo jurídico favoreceram a calamidade, que podia ter sido muito maior.

Foi também uma decisão equivocada o recomeço da partida. Para os árbitros e seus patrões, era mais importante cumprir a tabela do que garantir segurança ou mostrar respeito. As cenas tão chocantes que causaram horror aos jogadores (um deles até chorou) nada significaram para nossas soi-disant autoridades esportivas. Pouco lhes importa a decência, portanto aquilo não os incomodou. Contido o tumulto a poder de bombas, esperaram que a multidão se aquietasse numa incerta calma a fim de seguir em frente com o jogo. Vergonha não conta, o espetáculo devia continuar.

Não concordo, é claro, com a tramoia dos dirigentes do Vasco, que agora querem anular a partida, alegando a interrupção de mais de setenta minutos. É uma jogada suja com o objetivo único de reverter no tapetão uma derrota justíssima.

O Vasco mereceu o tombo. Perdeu feio, como era de esperar. Nada mais previsível que seu fracasso. O adversário foi muito superior, o tempo todo. A disparidade técnica dos dois times fez-se logo evidente. E do ponto de vista tático, a pobre equipe cruzmaltina fez todas as bobagens possíveis.  Combinou a impotência do ataque sem inspiração com a anemia da defesa estilo peneira, tornada ainda mais vulnerável por falta de um meio campo digno do nome.

Novidade? Nenhuma. Há muito que o Vasco padece com um futebol esmolambado, cambaleia com uma equipe abaixo de medíocre, jogando pedra em santo. Sinto muito por sua fiel torcida, de que participo. Mas a verdade não se pode esconder.

 A origem desse karma vascaíno não é mistério para ninguém. Por muito tempo, o glorioso Almirante cedeu sua nau a um pirata sem vergonha, rude e ganancioso: um reles malfeitor, uma rufião sem qualquer escrúpulo. Como era de prever, o pilantra saqueou, desgovernou, depredou e encheu de furos o belo navio luso-brasileiro. Foi substituído por um craque fantástico, brilhante no campo, mas despreparado para a função de gestor, de todo incompetente em matéria administrativa. Com um piloto inepto e a embarcação esfrangalhada, o naufrágio era certo. A equipe vascaína remará na Segunda Divisão, junto à jangada do Náutico, entre pantanais de inépcia e poluídas praias fluminenses.

Torço para que esses grandes clubes se recuperem no purgatório da Série B. Não é impossível. O futebol tem sido palco de grandes reviravoltas.

Falar nisso, como celebraremos o Campeão de 2012, que agita sua flâmula amarfanhada no grupo da lanterna de 2013? Não há pó-de-arroz que disfarce o borrão, esconda o vexame, ajeite a máscara. Até piora: acentua, com o sulco das lágrimas insistentes, a expressão dolorosa do fracasso. Não creio que a culpa seja dos atletas, embora o time tenha decaído escandalosamente. Pelo jeito, foi a diretoria que jogou de sapato alto, bancando um Luís XV de opereta em falsos jardins de Luxemburgo. Os cartolas do Flu devem estar suspirando, com saudades  inconfessas do tempo em que era fácil puxar o tapetão a fim de manter-se na elite de jeito clandestino, só pelo requinte da fantasia.  Pois é, agora não dá mais. Eles têm razão de se preocupar. O decepcionado torcedor do Fluminense cobrará caro, com razão e com dureza.

A propósito, já circulam pelo Rio histórias fantásticas, que envolvem até assombração. Um amigo carioca viu nas Laranjeiras um vulto estranho, um fantasma reclamador exigindo respeito aos berros. Contam que na mesma noite macabra um vigilante, atraído por sons cavernosos, encontrou no vestiário um boneco muito parecido com o presidente do clube. Na verdade era idêntico, exceto por um detalhe sinistro: o engonço estava vestido de noiva e enforcado. Calma, leitora amáve! Não se preocupe: graças a Deus, a triste imagem não era real. Desapareceu feito fumaça quando o trêmulo funcionário se aproximou.

O fenômeno me pareceu um tanto extravagante, fora do comum e esquisito, mesmo para o Rio de Janeiro. No entanto, segundo os amigos espíritas que consultei, não é difícil interpretá-lo. Passo o recado: os bambas da mesa branca recomendam que a Diretoria do Flu mande logo celebrar – de preferência, no Teatro Municipal – sete missas tridentinas por alma de Nelson Rodrigues.

Agora chega de falar em desgraça. Louvarei os times que se deram bem. Começo com os  estropiados, mas felizes: aqueles que, apesar dos tropeços no Brasileirão, tiveram lucros investindo no paralelo. Dou logo um exemplo radical, mirando o grupo dos rebaixados.  Nem todos choram nesse detestado círculo. Tem pelo menos um clube de cabeça erguida entre os escombros do campeonato, cercado por uma torcida que se agita com entusiasmo.  Pois é, quem disse que a Ponte ruiu? Olha ela aí, na final da Sul-Americana. Hoje o Brasil inteiro está com a Macaca.

Tem mais. Há um time que parecia capenga, beirou o precipício e de repente, quando menos se esperava, levantou voo. Vejam a elegância do Urubu, pairando com entusiasmo em céu de campeões. Sim, é o Flamengo com uma taça dourada, a Copa do Brasil de 2013.  Belo exemplo de superação, de garra, de denodo. Um técnico inteligente e uma equipe que se rearticulou: isso dá gosto ver.

Agora voltemos os olhos para a faixa superior do Brasileirão. Não vou falar da Sublime Raposa, nem do bem sucedido Grêmio. Louvo o Atlético Paranaense, aplicado e vibrante o tempo todo. Louvo o Botafogo, que superou seus vacilos e se garantiu com méritos na galeria do G4, único carioca a honrar as tradições do Rio nesse tremendo campeonato.

Permitam-me que celebre também um vizinho do grupo superior. Sou torcedor do Bahia, mas em nome da justiça devo reconhecer: o Vitória brilhou. Com um pouco de sorte, poderia estar entre os privilegiados combatentes da próxima Libertadores. Fez a melhor campanha de um nordestino na era dos pontos corridos. É, de longe, o melhor time do Nordeste na atualidade. E me parece em ascensão. Merece aplausos.

Na última rodada do Brasileirão vimos times tradicionais mergulhados no borralho. Mas em meio às cinzas,  apareceram também alguns diamantes.  Eles garantem o esplendor de nosso futebol.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).

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