O futebol do Ano Novo

  • por Ordep Jose Trindade Serra
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Jano

O Deus Jano: uma de suas faces contempla o pretérito, a outra descortina o futuro.

Em crônicas de fim de ano é costume fazer retrospectivas e previsões. Nada simples, nada seguro. Se já é difícil disciplinar a memória para que ela retrate o passado de modo justo, selecionando com critério (pois ela sempre seleciona), mais complicado ainda é o trabalho da imaginação que sai à caça do porvir e se arrisca a sondá-lo. Perigoso? Sim. No entanto, não há como fugir da tentativa. Vivemos fazendo planos, projetos, conjeturas, que importam em antecipar e pressupor. Até na ciência, como dizia Carlos Drummond de Andrade, navegamos em um mar de hipóteses. Também temos de fazer balanços, e diante do que eles nos mostram somos levados a considerar, além do realizado, o desafio do possível.

O momento reclama tanto uma coisa como outra, exige revisão e previsão. Aproxima-se o mês que os romanos consagraram a um deus bifronte: com uma de suas faces ele contemplava o pretérito, com a outra descortinava o futuro. Não temos a visão onisciente de Jano mas somos obrigados a imitá-lo a nosso modo imperfeito, sabendo que estamos sujeitos a erros, a muitos enganos. Só aceitando com coragem esta condição errática, dispostos a rir de nossas ilusões, podemos colher alguns acertos. Nossas avaliações são falíveis, claro está. E quase sempre os nossos palpites são cegos. Ainda assim, são necessários. A vida exige. Quem não tenta, já fracassou.

Corramos o risco. Para nos proteger na empreitada, sempre é possível recorrer a um escudo protetor: precisamos de senso crítico. Sim, ele se pode cultivar. Exercita-se na consideração do passado.

Sinceridade também é indispensável. Falemos, pois, com franqueza: neste ano de 2013 nosso futebol sofreu bastante. Ainda assim, teve bons momentos, conheceu sucessos animadores, achou belos motivos de esperança.

O negativo ninguém ignora. O campeonato brasileiro foi fraco, chocho, por vezes sem graça, frustrante quase o tempo todo. É certo que o Cruzeiro brilhou e dois ou três times, além dele, mostraram valor. Mas de um modo geral as equipes oscilaram muito e em média o padrão técnico das partidas foi baixo. Para cúmulo, a competição terminou muito mal.

Por outro lado, a Seleção encontrou seu caminho. Conquistou com brilho a Copa das Confederações, derrotando escretes de primeira linha. Foram triunfos convincentes, indiscutíveis, que fizeram renascer a esperança da torcida. Agora dá para acreditar.

Enfrentemos o paradoxo: o êxito da Seleção confirma a qualidade dos nossos craques, mostra que continuamos a ser um celeiro inesgotável de grandes jogadores, de astros da cancha; ao mesmo tempo, o obscuro campeonato revela graves moléstias do nosso futebol. Em suma, em 2013 o futebol brasileiro se mostrou, a um tempo, forte e fraco.

Coisas muito esquisitas aconteceram. O Corinthians passou de campeão do mundo a rei do jogo chato. O glorioso Galo, que já se via em trono soberbo, saiu da rinha africana humilhado, surrado impiedosamente por ave de menor porte. Apanhou de passarinho. E o Fluminense fez tristíssimo papel: deixou o título glorioso de 2012 por uma lanterna de assaltante, empenhado em entrar de qualquer jeito, sem merecimento algum, no espaço reservado aos melhores. Em campo, nada fez que justifique a permanência no grupo de elite. Foi bisonho. E agora sacrifica a dignidade. Triste sintoma.

Este caso merece maior exame. Como pode ser que um grande clube, rico de história e tradições, se sujeite assim à chacota? Por acaso não incomoda a seus dirigentes vê-lo achincalhado, injuriado, ridicularizado, chamado de Tapetense? O hábito já inveterado de procurar vantagem com jeitinhos jurídicos só diminui o Flu, nada lhe adianta. Grandes times já caíram e deram a volta por cima com elegância. O Corinthians elevou-se a campeão do mundo depois do tombo. Saiu coroado da Série B e conquistou, logo em seguida, uma fieira impressionante de triunfos gloriosos. O Palmeiras emerge agora do mesmo valo com a taça na mão, cercado de respeito. O purgatório da série B não mutilou esses clubes. Bem pior é o inferno a que o Fluminense hoje se arrisca, atraindo a antipatia geral, a reprovação zombeteira dos concorrentes com quem pretende ombrear-se por via de um mero truque.

É inevitável comentar esse feio acontecimento. O autodenominado Supremo Tribunal da Justiça Desportiva puniu a Portuguesa, beneficiando o time das Laranjeiras. Impossível negar que era mesmo essa a intenção dos lamentáveis juízes. Está certo que a Lusa errou, fazendo com que um atleta jogasse irregularmente por dezoito minutos. Mas puni-la assim, por essa infração, vem a ser, no mínimo, despropositado. Há mais: a sentença confirmada no dia 27 de dezembro pelo STJD tem um vício legal que a inquina. Fundamentou-se no artigo 133 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva. Segundo esse artigo, a punição determinada em juizo por um tribunal desportivo deve ser imediata, automática. Todavia, de acordo com o artigo 35 do Estatuto do Torcedor, que é uma Lei Federal, as decisões da Justiça Desportiva devem ter a mesma publicidade exigida no tocante às decisões dos tribunais federais. Ou seja, a punição inflingida à Portuguesa precisava ser publicada pela CBF no seu site. Não foi. Agora a mal afamada Confederação quer subordinar uma Lei superior a seu código privado. Trata-se de um abuso evidente. A Lusa tem o direito – e mesmo o dever – de protestar, recorrendo à Justiça comum. Se o fizer, poderá ganhar a causa. Sua punição foi ilegal.

Infelizmente, seja qual for o resultado desse imbróglio, já houve prejuízos. E o clube paulista não é o único lesado. O campeonato brasileiro vê-se corroído pelo descrédito. Como respeitar uma competição em que um concorrente poderoso obtém privilégios fora de campo?

Há outra vítima que pouco se leva em conta. Sucede que entre os adeptos do Fluminense há pessoas honestas, sérias, que prezam o fair play. Esses torcedores serão vítimas de um escárnio difuso, no seu caso imerecido. Sofrerão com a atitude dos dirigentes do clube que amam. Os insensatos que foram aplaudir a aparente “vitória” do Flu no Tapetão pouco se incomodam com isso. Mas entre os fãs da grande equipe das Laranjeiras há quem se incomode, há pessoas dignas, há quem goste de respeito.

Recapitulando, parece-me claro que a força do futebol brasileiro está no talento dos seus atletas, nas florações continuadas de craques que brotam por aqui o tempo todo. A fraqueza, a moléstia do nosso mais querido esporte, deriva da cartolagem: de suas rapinas e de sua burrice. A CBF continua retrógrada, tirânica, desatinada e estúpida, em termos de ética digna da quadrilha internacional chamada FIFA, que recentemente, a pretexto do campeonato mundial, nos infligiu vários golpes sujos, com a conivência de um governo irresponsável e o apoio de empreiteiros locais gananciosos. O tão decantado legado da Copa já se mostra imponente sob a forma de custos gigantescos, a ser pagos pelo povo com sacrifício, em nome da criação e manutenção de uma bruta manada de elefantes brancos. Para edificar alguns deles, famílias foram expulsas, perderam suas casas, tiveram sua condição de vida deteriorada e seus direitos constitucionais violados. Até espancamento de índios aconteceu. Gerou-se uma dívida enorme, financeira e social. Em alguns lugares, como na Bahia, equipamentos esportivos foram destruídos, um complexo olímpico veio abaixo a fim de erigir uma arena “padrão Fifa”. A última coisa em que pensaram as autoridades envolvidas com a Copa foi o futebol.

Mas houve também um resultado positivo: o povo foi às ruas, protestou com vigor, mostrou que não se resigna, não aceita o esbulho, ama o esporte e detesta a corrupção. Sim, nós gostamos de futebol, somos doentes por futebol, mas nada temos de bobos. Queremos decência, queremos cidadania. Foi bonito ver o entusiasmo pela seleção combinado com a cobrança de direitos. O povo brasileiro fez bonito e foi aplaudido. Em diferentes jornais da Europa li comentários elogiosos à atitude da nossa gente e até agradecimentos por termos mostrado a bandalheira do mega-evento: cidadãos de outros países já se previnem, acautelando-se para não ser logrados do mesmo jeito. O vampirismo da Fifa e dos aproveitadores que ela arrebanha foi denunciado nas ruas do Brasil.

Outros grandes sucessos de 2013 merecem ser celebrados, pois são uma fonte de esperança. A Associação dos Atletas pela Cidadania brilhou, deu quinau no trêfego Ministério dos Esportes. Ainda não ganhou a luta, mas vai vencê-la. O manifesto que divulgou é uma das páginas mais bonitas de nossas recentes manifestações cidadãs. Nos domínios do futebol, irrompeu gloriosamente o Bom Senso. Alex e seus companheiros são hoje nossos maiores campeões. A insensatez da CBF lhes oferece dura resistência, mas eles triunfarão, mais cedo ou mais tarde. E seu triunfo acarretará um poderoso avanço, um crescimento gigantesco do futebol brasileiro.

Eis minhas previsões: no campo, a Copa do Mundo que se avizinha será bonita, pois há fortes equipes em disputa, vários candidatos ao título. Os grandes craques serão aplaudidos, os dirigentes da Fifa, os gaiatos da CBF e nossos lastimáveis políticos serão sistematicamente vaiados nos estádios. E o Brasil vencerá.

Feliz Ano Novo!

Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).

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