Sonhos em Casablanca

  • por Ordep Jose Trindade Serra
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Foto: Reprodução Warner Home Video

Foto: Reprodução Warner Home Video

Não, minha senhora, você não devia estar aqui. Sua presença nesta crônica não se justifica. Mas que fazer? Não há quem resista a sua beleza fascinante, ao inesquecível poder de sua arte. Perdoem, leitores: é impossível mandar embora a adorável intrusa. Percebo que ela quase me desvia do assunto, mas também espero que o ilumine com seus belos olhos, enquanto me arrasta para outro lado. Não sei se minha esperança tem fundamento. Em todo o caso, previno logo os amigos que me leem: a bela invasora é docemente perigosa. Uma feiticeira.

Vocês talvez sorriam quando eu disser seu nome. Vão retrucar que se trata simplesmente de uma atriz sueca, por sinal já falecida, há mais de trinta anos. No máximo, admitirão que não falo de uma atriz qualquer: os mais velhos e os cinéfilos atestarão em coro que ela foi uma grande estrela. Ainda assim, muitos vão achar que me engano quando a chamo de “feiticeira”: a moça nunca fez esse papel. Vão dizer também que deliro pondo-me a conversar com ela no início de uma crônica sobre futebol. Quanto a isso, admito que têm razão: com certeza estou delirando. Mas posso provar que me defrontei com uma feiticeira das melhores.

Não fiquei doido, pelo menos completamente: minha loucura tem juízo. Bem sei, amigos, que Ingrid Bergman está morta. Mas continua presente. Eu a vejo nesta página. Alma penada ela não é, não pode ser. Deixou um bonito legado, fez boas obras, logo não tem pena a cumprir. Descansa em paz. Sua imagem é que não descansa.

Explico melhor: o fantasma que invadiu esta crônica era e não era Ingrid Bergman. Foi seu contemporâneo: ela mesma o contemplou, sabe-se lá quantas vezes. Hoje lhe sobrevive. Se o quiserem ver, procurem um cinema onde exibam filmes antigos. Ou recorram a Woody Allen. Vale a pena contemplar essa figura luminosa.

Não, amigos, não exagero quando a chamo de feiticeira. Sou um dos milhões de fãs a quem ela impôs uma curiosa, mas inocente alucinação. Em um de seus filmes, nós a ouvimos com plena clareza pronunciar uma frase que nunca disse. Meu amigo Samuel, o obstinado, até hoje a escuta: “Play it again, Sam!” Seu psiquiatra fez rodar umas trinta vezes o filme Casablanca no consultório e o viu com o paciente, para ver se o convencia, se o curava da ilusão. Em vez disso, acabou contagiado: ouviu também a frase irreal.

Os dois continuam em tratamento.

Agora vejam o que se passou comigo: recentemente peguei este filme numa locadora, com o propósito de descansar o juízo com arte pura, enquanto esperava o começo de uma partida de futebol. Talvez o vinho tenha influído um pouco, mas creio que foi ela, a feiticeira, quem me hipnotizou: o roteiro de “Casablanca” se alterou tremendamente nessa revisita. Na famosa cena final, no lugar de Humphrey Bogart estava um galo de crista baixa. A linda estrela subiu as escadas do avião de braços dados com um marroquino. Tinha um sorriso matreiro nos lábios. Acordei um tanto assustado, só para confirmar que o terrível presságio se cumpria.

Lamento, atleticanos. A verdade é que o Raja Casablanca mereceu a vitória. Foi melhor do começo ao fim, jogando com gana e inteligência. No segundo tempo, o mediúnico time de Marrocos parecia ter recebido o espírito de uma raposa: foi hábil na esquiva, certeiro nos contragolpes. Devorou com certa facilidade o que mais parecia um galeto al primo canto. Faltou cuca ao Atlético para sair da armadilha. Restou-lhe a disputa humilde do terceiro lugar.

E olhem que ele quase tropeça. Sua defesa parecia esfrangalhada: por mais de uma vez deixou o Gouangzou cantar de galo em sua área. Seus volantes fizeram-se perigosamente voláteis: vez por outra, batiam asas, deixavam os zagueiros desprotegidos. O time fragilizou-se, sem motivo aparente. Em lances bisonhos, levou dois gols semi-asiáticos (na conclusão, um foi argentino, o outro brasileiro). O Atlético melhorou um pouco no segundo tempo. Ainda assim, em trêmulos momentos, quase mata de pânico sua sofredora torcida.

Ronaldinho só foi quem é (ou era?) em dois ou três lances. Seu esplendor de craque mostrou-se por inteiro em um instante mágico: no esplêndido gol de falta em que exibiu genial perfeição, assombrando o estádio com um feitiço matemático. Excetuado este lance, o craque do Galo ficou longe do brilho que o fez venerar no mundo inteiro, Marrocos inclusive. E quase compromete seu time, pois perdeu a calma em hora má, reagindo de forma descontrolada a uma agressão estúpida.

Não o condeno. Seria difícil até para Santo Antônio mostrar paciência depois de derrubado, pisado e chutado covardemente pelo adversário. Perdoem-me todos os santos (Totonho inclusive), mas, nesse tipo de situação, o modelo clássico de virtude é Pelé.

Explico para quem não se lembra: partindo do princípio de que bom cabrito não berra, o Crioulo, quando agredido desse jeito, aguardava o momento certo para dar o troco de modo feroz – mas praticamente invisível. No campo, além de supercraque da bola, o Negão revelou-se, muitas vezes, um ator fantástico. Ingrid Bergman e Rosselini o aplaudiriam. Não raro, depois de infligir secretamente ao marcador desleal um merecido martírio, o Rei confortava sua vítima com expressão franciscana, um ar angelical que comovia os árbitros e impressionava o público. Sei que ele ganhou na cancha todos os prêmios possíveis, mas um ficou faltando: considero uma injustiça não lhe terem dado um Oscar.

Essa arte Ronaldinho não tem. Reagiu da maneira óbvia, com fúria transparente. Ao cabo, foi ele quem saiu de campo. E o grosso chim ficou impune. O juiz cara de pau não marcou nem a falta do celerado.

Por sorte, no fim do dramático jogo, o Galo triunfou. Mostrou garra nos minutos finais e usou bem a arma com que o derrubaram nesse torvo mundial, liquidando o Goungzou em um contra-ataque impecável. Assim conquistou o terceiro lugar.

Não é coisa pouca num campeonato como esse, mas foi apenas um pobre lenitivo para a dor dos atleticanos, que já se viam na final: entraram em campo contra os marroquinos com um ingênuo excesso de confiança. Pagaram caro. Na verdade, considero seu time superior tanto ao Gouangzou quanto ao Raja Casablanca, embora este último o tenha vencido com méritos. Quem conhece futebol sabe que isso não é um paradoxo.

Na final, resolvi torcer pelos marroquinos. Por três motivos. Primeiro, eles são simpáticos. Segundo, acho que torcer pelo Bayern (como, aliás, tenho feito ao longo do campeonato europeu) seria quase fútil nessas circunstâncias: seria muito parecido com uma aposta no óbvio. O terceiro motivo foi Ingrid Bergman, ou melhor, seu personagem no filme que já evoquei. Sua simpatia pela turma de Marrocos me parecia evidente.

Tentei até apelar para uma improvisada magia. Assisti de novo ao filme Casablanca, tomando o mesmo vinho que tinha consumido na véspera da partida entre o time privilegiado e o (então) infortunado Galo. Tinha a esperança de que a estrela visitasse de novo meu cérebro em momento dionisíaco, com um presságio semelhante. O primeiro me acabrunhou; mas dessa vez eu imaginava estar na mesma torcida que a bela criatura das câmeras. Se ela me surgisse de novo de braços dados com um marroquino, ou simplesmente dissesse “Play it again, boys!”, o milagre aconteceria.

Não deu certo. O filme transcorreu de modo irritantemente normal. Talvez porque eu o esperasse, o breve sono divinatório não me me tomou. A dama dos sonhos foi-se embora: deixou a África de braços dados com outro gringo.

Achei muito sem graça a vitória do Bayern.

Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).

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