DOENTES POR FUTEBOL

Brasil nos 4 Cantos: Edmar

A Ucrânia chamou a atenção de todo o mundo quando bateu a França por 2×0 na repescagem e quase tomou-lhe a vaga na Copa do Mundo deste ano. Enquanto os fãs do futebol menos atentos ainda se perguntavam onde estava o grande e histórico centroavante Andriy Shevchenko, do outro lado, aqueles mais contaminados pelo vírus do esporte bretão, com toda a sua curiosidade, buscavam avaliar o desempenho de um brasileiro: Edmar, que se naturalizou ucraniano em 2011.

Nascido em Mogi das Cruzes, Edmar de Lacerda Aparecida, deu seus primeiros passos no futebol profissional na equipe da Inter de Limeira. Apesar disso, antes de conseguir essa oportunidade, como a grande maioria dos garotos que tentam a sorte no futebol, o volante participou de peneiras de clubes maiores, no caso, Portuguesa e Santos.

ODD Shark

No Brasil, atuou ainda no Paulista de Jundiaí e no Internacional, sem muito sucesso.

Veio 2002 e chegou a proposta que mudaria para sempre a sua carreira. O Tavryia Simferopol, da Ucrânia, “descobriu-o” e ofereceu-lhe um ano de contrato. Com a proposta aceita e as malas prontas seguiu para a fria Ucrânia e não encontrou uma recepção das mais agradáveis. Num país estranho, sem nenhum compatriota, com uma temperatura extremamente desencorajadora e sem conhecer uma palavra sequer do idioma local, Edmar sofreu.

Apesar disso, logo em seu primeiro jogo, esse panorama começou a melhorar. Autor de um gol em sua estreia, rapidamente foi acolhido por seus companheiros, que, apesar de não ter uma comunicação adequada (Edmar era o único estrangeiro da equipe), buscaram, ao menos no campo, ajudá-lo.

Após um ano, e já adaptado, assinou a renovação com o clube, onde fez história. Edmar se tornou o primeiro estrangeiro a capitanear a equipe, onde permaneceu até 2007. Nesse meio tempo, conheceu Tatiana, a ucraniana que arrebatou seu coração e fez sua ligação com o país crescer ainda mais.

Em 2008, após cinco anos no país, o volante já poderia pedir a naturalização. Apesar disso, nunca lhe ocorreu a possibilidade de defender o selecionado ucraíno. Somente após se casar, decidiu tornar-se cidadão ucraniano, quando também mudou seu nome, transformando-se em Edmar Galovskyi de Lacerda.

No Metalist Kharkiv desde 2007, conseguiu, por fim, um pouco de visibilidade. Curiosamente, o ucraíno-brasileiro também marcou nesta estreia, em partida válida pela Copa da UEFA (atual Europa League) contra o Everton, da cidade de Liverpool, no Goodison Park.

Desde a sua chegada, o Metalist firmou-se como a terceira força do futebol ucraniano – atrás de Shakhtar Donetsk e Dynamo Kyiv – e, se ao chegar não encontrou nem sombra de brasilidade na fria nação (além dele, apenas os brasileiros Diogo Rincón e Brandão, atuavam na Ucrânia), agora, só no seu clube, ele tem a companhia de Diego Souza, Cleiton Xavier, Rodrigo Moledo, Márcio Azevedo e Marlos.

Embora viva uma trajetória de sucesso no país, Edmar garante que não pensava em defender outra camisa amarela que não a brasileira. Isso até um convite recebido em 2011. Oleh Blokhin, possivelmente o maior jogador ucraniano de todos os tempos, então, treinador da seleção de seu país, perguntou-lhe se gostaria de defender o país onde já morava há quase 10 anos. Convite feito, convite aceito.

Desde então, a seleção que fez parte da URSS, conta com uma pitada de talento tupiniquim. Já são nove partidas e um gol. A melhor partida do volante foi justamente contra a França, na vitória por 2×0, ocasião em que proveu as duas assistências para os gols da Ucrânia.

Sem nunca ter desprezado o Brasil e tendo uma vida na Ucrânia, Edmar decidiu defender as cores dos auri-celestes do leste europeu. Seus sucessos na carreira ultrapassam seus sonhos de garoto, mas dois deles ainda perduram, disputar uma Eurocopa e uma Copa do Mundo. O primeiro sonho é viável. Na França, em 2016, ele terá 36 anos. Já o segundo é mais difícil, já que em 2018 o brasileiro terá 38 anos. Contudo, nada parece impossível para um jogador nascido em Mogi das Cruzes, que, com coragem, apostou numa carreira num destino então pouco usual, onde fez sucesso e é adorado.

Confira alguns gols do volante ucraíno-brasileiro:

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Advogado graduado pela PUC Minas, pós-graduando em Direito Desportivo e Negócios do Esporte, 24 anos. Admito minha preferência pelo futebol bretão, mas aprecio o esférico rolado qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Estou também no "O Futebólogo", meu blog.