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Você lembra? Rüştü Reçber no Barcelona

Foto: Reprodução - Rüştü ficou apenas uma temporada na Espanha

Foto: Reprodução – Rüştü ficou apenas uma temporada na Espanha

O goleiro turco Rüştü Reçber é imensamente conhecido no país otomano, mas ganhou notoriedade internacional durante a Copa do Mundo de 2002. Com o jeitão extravagante (cabeludo, nada discreto em suas saídas de gol e com a cara pintada em vários jogos), Rüştü foi um dos pilares da surpreendente campanha da equipe turca naquele mundial, que terminou na terceira colocação.

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Tamanha representatividade lhe rendeu prêmios individuais ao longo da carreira. Rüştü esteve no “All Star Team” da Copa de 2002, no time ideal da UEFA no mesmo ano e ainda ocupou a 25ª colocação da lista de melhores goleiros do século 21 elaborada pela IFFHS.

O grande destaque obtido pelo goleiro o fez ganhar novo status internacional. Após quase dez anos e mais de 200 partidas pelo Fenerbahçe, Rüştü embarcou em nova aventura: transferiu-se para o Barcelona.

A passagem pela Catalunha foi curta, mas ainda muito lembrada por se tratar de um grande personagem recente do futebol mundial (principalmente por parte dos fanáticos por Copa do Mundo). O Doentes Por Futebol aproveita e traz para você um pouco do que o turco aprontou no clube espanhol.

Quase Gunner

Fazer parte da geração de ouro da Turquia trouxe muitos benefícios a Rüştü. Ser um dos pilares tanto da seleção quanto do Fenerbahçe fez com que os olhos do mundo voltassem para ele. Em 2003, quando iria completar 30 anos, havia rumores de que Barcelona, Milan, Inter de Milão, Valencia, Arsenal, Manchester United, Juventus e Liverpool o procuravam.

O clube que chegou mais perto de tirá-lo da Turquia foi o Arsenal. Na época em que os britânicos negociavam com o Fenerbahçe, Rüştü sofria com uma lesão nas costas. Segundo relatou ao jornal Daily Express em 2003, ele já estava acertado com o Arsenal quando foi conhecer o técnico Arsène Wenger.

Rüştü afirmou que o técnico francês o tratou como uma criança quanto à lesão, o que o levou a acreditar que o treinador estava inseguro quando, em sua própria opinião, suas atuações na Copa do Mundo deveriam falar por si sós. Esta declaração acabou mudando o foco do possível real motivo da não-transferência já que, em março daquele ano, Arsenal e Manchester United o disputavam e diziam que o principal entrave era sua esposa, Isil Reçber, que não queria sair da Europa Continental. O jornal inglês Telegraph chegou a informar que pessoas do Arsenal mostraram três casas em Londres para Isil.

Na época, o clube britânico estava à procura de um substituto de David Seaman, e este acabou sendo o alemão Jens Lehmann, já que a rixa do turco com Wenger impediu que o goleiro terceiro colocado no Mundial de 2002 ocupasse este posto.

Com essa diferença entre o goleiro e o técnico do Arsenal, o turco optou por assinar por cinco anos com o Barcelona (sendo que saiu de graça do Fenerbahçe). Era época de eleição no clube catalão e Rüştü era uma das promessas de campanha de Joan Laporta. O turco também chegava para suprir a carência que era o gol do Barça. Nos anos anteriores, Robert Enke, Roberto Bonano e até mesmo Victor Valdés deram calafrios à torcida blaugrana.

Início promissor

Foto: Fred Kfoury - O goleiro turco fez defesas importantes na estreia diante da Juventus

Foto: Fred Kfoury – O goleiro turco fez defesas importantes na estreia diante da Juventus

Rüştü estreou com camisa catalã em um amistoso contra a Juventus, realizado no Gillette Stadium, em Foxborough nos Estados Unidos. O turco atuou apenas na etapa inicial, mas, com saídas arrojadas e importantes defesas, fez seu nome na partida, que foi para o intervalo com 2×0 de vantagem para o Barcelona (acabou em 2×2).

Seu lance mais marcante foi em um tiro rasante de Alessandro Del Piero. Depois de rápido arranque de Edgar Davids pela esquerda, David Trezeguet escorou no alto e o camisa 10 da Velha Senhora chegou finalizando da marca do pênalti. Rüştü, no puro reflexo, fez defesa impressionante.

Porém, a derrocada de Rüştü começou ainda na pré-temporada, quando uma lesão o tirou dos gramados e abriu espaço para Victor Valdés. O que poucos imaginavam era que o turco conseguiria se recuperar da contusão antes mesmo da estreia no Campeonato Espanhol, na partida diante do Athletic Bilbao.

Se poucos acreditavam que ele pudesse voltar, menos ainda acreditariam que o técnico Frank Rijkaard o deixaria de fora por conta do idioma. Segundo o holandês, o goleiro turco não tinha domínio da língua espanhola e, por isso, dava lugar a Valdés.

Obviamente, Rüştü não gostou da decisão e botou a boca no trombone. “Não é normal que um goleiro que tem a minha história e o meu calibre seja deixado de fora por não saber falar espanhol”, declarou na época.

Poucos jogos e muitas falhas

A estreia em jogos oficiais se deu apenas em outubro, diante do inexpressivo Matador Puchov da Eslováquia, em partida válida pela primeira fase da Copa da UEFA. Na ocasião, o Barcelona venceu por 8×0, com três gols de Ronaldinho. Na fase seguinte, Rüştü retornou ao campo nas duas vitórias sobre o Panionios da Grécia. No agregado, os catalães venceram por 5×0.

Depois disso, o goleiro turco só apareceu em quatro partidas do Campeonato Espanhol, tornando-se um personagem marcante (negativamente) na campanha do Barcelona.

De todos os jogos que participou, venceu apenas na estreia, o tenso clássico diante do Espanyol (com três jogadores de cada lado expulsos), por 3×1. Na trinca final de partidas, o Barça não venceu e ainda sofreu uma vexatória derrota por 3×0 para o Racing Santander na 18ª rodada. Neste tropeço, a imprensa espanhola não teve dó e colocou Rüştü como vilão por ter falhado em dois dos três gols.

Depois deste jogo, o turco só voltou a figurar no time catalão na 30ª rodada, ainda assim, vindo do banco diante do Real Bétis. Com a expulsão de Valdés, aos 35 minutos da etapa inicial, Rüştü entrou em campo para tentar defender o pênalti que o titular cometeu. A tentativa não teve sucesso e Alfonso Pérez marcou aquele que seria o gol de empate do jogo, 1×1.

Só gostaria de acrescentar um humildes parênteses nesta matéria: muitos podem se perguntar, então, quem jogou a partida seguinte, diante do Málaga, no lugar de Valdés. Na verdade, o próprio Valdés. Pesquisei muito o motivo dele não ter sido excluído da partida, mas não encontrei. A razão que me parece mais plausível é que a expulsão tenha sido anulada. Entretanto, não posso afirmar com absoluta certeza. Vale relembrar que a 30ª rodada havia sido atrasada e, por isso, a seguinte seria a 33ª.

Volta pra casa

Apesar do carisma e do empenho, o que marcou a passagem do goleiro turco foi o baixo número de jogos (sete no total) para um contrato que encantava o torcedor, fazendo-o imaginar que ali estava um goleiro para muitos anos. Não foi o que aconteceu. Percebendo a falta de espaço no Barcelona, Rüştü decidiu retornar ao Fenerbahçe por empréstimo no ano seguinte. Por lá, ficou até 2007, ganhando mais dois títulos do Campeonato Turco (acumulando quatro na carreira).

Em 2007, já perdendo espaço para Volkan Demirel, o goleiro tomou uma das decisões mais polêmicas da carreira: trocou o Fener pelo rival Beşiktaş, clube que defendeu até 2012, quando encerrou seu período como atleta profissional.

Aposentado, Rüştü assumiu o papel de Coordenador Geral da Seleção Turca e já traçou uma meta principal: estar na Eurocopa de 2016. Veremos se os turcos serão capazes de fazer história com o ex-goleiro agora gerenciando os bastidores do time.

Foto: Reprodução - Atualmente, o ex-goleiro faz parte da coordenação geral da Seleção Turca

Foto: Reprodução – Atualmente, o ex-goleiro faz parte da coordenação geral da Seleção Turca

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Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.