A Copa do Mundo e o Santo da Fonte Nova

Ultimamente temos visto muitos jogos, ricos de surpresa, com belos espetáculos, momentos de agonia e êxtase mas também episódios divertidos, até mesmo hilários: em suma, esta Copa transborda. Impossível falar de tudo que já ocorreu. Também não dá para fixar a atenção num só ponto dessa trajetória sinuosa, variada. Nem seria possível dar limites claros a uma crônica elaborada enquanto transcorrem tantos eventos em lugares diferentes, com inúmeros lances dignos de registro. O jeito é usar a técnica dos retalhos (ou do pot pourri) com alguns flashes de partidas memoráveis, de acontecimentos interessantes.

Primeiro, volto meu foco para a Fonte Nova. E começo pelo Pavão Misterioso. Gente, eu juro que o vi. Não é ficção. Ele andava pelo gramado da nova arena com grande imponência, altivo e desligado. Deu uma ou duas carreiras nervosas, porém passou a maior parte do tempo caminhando com elegância, como se estivesse a supervisionar pomposamente o movimento da partida. Tocou na bola, sim, mas pouco. Os seus companheiros atordoados não ajudavam, pareciam esquecidos da existência dele. Também, coitados, naquele sufoco medonho que lhes impôs a Alemanha, não dava pra pensar em outra coisa. Era só correr atrás da bola, enxugar gelo na defesa, tapar buracos no meio campo, sonhar com ataques que raro logravam. No único instante em que os lusos levaram perigo à meta germânica, o árbitro não deu o pênalti que poderia facilitar-lhes o gol de honra. A iniciativa mais vibrante que os bravos portugueses tiveram foi também um desastre: refiro-me à façanha bélica do Carcará, digo, do famigerado Pepe. No mais, foi um naufrágio em que a equipe ibérica sucumbiu miseravelmente. A Alemanha mostrou toda a sua força, com passes longos e precisos, toques sutis, chutes implacáveis, penetrações estonteantes. Pelo menos no primeiro tempo. No segundo os germanos foram mais contidos; puxaram o freio de mão. Devem ter concluído que não precisavam de gastar tanto futebol com a desgraça já consumada do time português.

O estranho, o que surpreendeu a todos, foi o sumiço do grande atleta luso, “o melhor do mundo”, saudado no início da partida com efusivos aplausos tanto de seus patrícios quanto de inúmeros fãs brasileiros, mas principalmente das mulheres de todas as nacionalidades presentes no estádio (com pequena exceção das germânicas): pelo jeito, ele é o maior chamariz do público feminino na presente Copa. Mas não eram só as damas que estavam ansiosas: todo o mundo esperava com impaciência a exibição do novo portento. Deu-se, porém, que a partir dos primeiros quinze minutos do match a plateia desistiu dessa espera. Quer dizer, quase desisitiu. Perdeu a esperança de ver prodígios mas divertiu-se de outro modo: procurando o CR7 como fazem os aficionados daquele brinquedo “Onde está Wally?”

Uma garota que conseguiu localizá-lo cinco vezes no segundo tempo ganhou de prêmio cinco figurinhas portuguesas para seu álbum. Ganhou com merecimento. Não era fácil achar o gajo. O que se viu em campo de mais parecido com sua gloriosa imagem era um vulto errante no gramado, trajado com a camisa da fama. Um poeta do estádio concluiu que se tratava do Pavão Misterioso a mostrar-se, pela primeira vez, em figura de gente.

Registro duas outras hipóteses surgidas na Fonte Nova. A primeira foi fruto da especulação de um artista plástico que era a única pessoa munida de binóculos em todo o estádio: “Não é o Cristiano Ronaldo, é o Ronaldo Cristiano: um clone. Os portugueses clonaram seu craque, que está machucado. O diabo é que o clone não deu certo, não faz porra nenhuma.”

A outra conjetura veio da boca de um indignado cavalheiro lusitano: “O gajo está esgotado, alguma dessas fêmeas furiosas o agarrou. Uma não, provavelmente duas ou três das tais marias-chuteiras, como vocês as chamam. Na certa, elas invadiram a concentração e estupraram o rapaz. Um crime, ó pá.”

Os alemães se deliciaram, foram muito aplaudidos nesse dia. Imaginei que Salvador, feita à imagem da velha Lisboa, com uma grande colônia lusa e inumerável multidão de lusodescendentes, iria torcer em peso por Portugal. Deu-se, porém, que a maior parte da torcida baiana optou pelos germânicos. É que desde o começo eles foram muito simpáticos. Dois de seus astros até vestiram a camisa do Bahia. (Já surgiu o boato de que Schweinsteiger e Klose reforçarão o tricolor da Boa Terra na próxima fase do Brasileirão. Não sei se acredito).

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Já falei aqui da espantosa tunda que a Espanha levou na Fonte Nova. Francamente, eu esperava que a Fúria se recuperasse. Mas pelo jeito ela saiu aleijada da tremenda partida em que os holandeses do terrível Robben lhes impuseram uma derrota acachapante. Deixarei para outra crônica o comentário do último naufrágio, decisivo nesta Copa, da ex- Invencível Armada. Passo a outra partida que assisti no estádio baiano.

Antes, vou revelar um segredo. Vocês podem pensar que não, mas de acordo com a teologia baiana, que raramente erra, estádios geralmente têm patronos sobrehumanos: costumam ser tutelados por entes extraordinários, às vezes incontroláveis, que ditam seus destinos. O belo espírito que rege a Fonte Nova é malicioso, alegre e um tanto endiabrado. Aqui na Bahia nós o chamamos de Exu.

Ao dirigir-se à Fonte Nova para assistir aos jogos da Copa do Mundo, os torcedores passam pelas margens verdejantes de um bonito lago artificial, o Dique de Tororó. No interior desse lago (e também em suas margens) pode-e ver um belo conjunto de estátuas representando os orixás da Bahia, ou melhor, oito deles, de grande prestígio: Iansã, Nanã, Ogum, Oxalá, Xangô, Iemanjá, Oxum e Oxossi. Quem conhece um pouco dos mistérios do candomblé percebe logo que falta nesse conjunto um Orixá muito cultuado, querido e temido por diversas razões. Mais de um turista nativo já me perguntou: “onde está Exu?”

Contarei agora, mas só a vocês. O artista Tati Moreno, que fez essas belas esculturas, achou melhor não incluir no grupo do Dique o irrequieto deus, amigo de brincadeiras, molecagens, zombarias, travessuras, sempre inclinado a pregar peças e dar sustos, criando confusão por onde anda.

Exu não se conformou com essa exclusão. Depois de algum tempo de vadiações pela cidade toda, instalou-se secretamente no centro Fonte Nova, onde hoje pontifica. Houve quem dissesse que o responsável por isso foi o governador, que botou nome de cerveja na nova arena e liberou o uso de bebidas alcoólicas antes, durante e depois dos jogos: se fosse por ele, os próprios atletas já entrariam em campo encharcados. Mas o pessoal do candomblé protesta: essa ideia de jerico de misturar álcool com esporte não veio do sutil orixá, que gosta de beber tanto quanto o governador da Bahia, mas é inteligente e não tem nada contra a vida esportiva. Simplesmente o deus matreiro concluiu que futebol é terreno propício para suas artes.

Hoje a Bahia inteira se felicita pela decisão do Santo manhoso. Ele gosta de alegria, fez de sua arena um viveiro de gols. Claro que de vez em quando apronta. Eu pressenti a vitória da França assim que vi entrar na Fonte Nova quatro gauleses vestidos de baiana, saracoteando de forma absurda. Tenho certeza de que foi Exu quem lhes deu a ideia. Tinha lá muito suíço esforçado, mas as fantasias malucas estavam do lado francês e isso agradou muito o jovial orixá.

Mas ele não resiste a uma molequeira. Por favor, se vocês encontrarem Benzema, expliquem que aquela ferroada no bumbum, na hora do pênalti, não foi obra de vespa nem beliscão de suíço. Contem também ao pobre juiz que seu apito não soprou sozinho fazendo encerrar-se a partida na hora do oitavo gol. Exu, vocês sabem, gosta muito do número sete.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).