Copa, política e futebol

  • por Ordep Jose Trindade Serra
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Vou torcer ardentemente pela Seleção Brasileira. Acredito, sim, que ela pode vencer, pois reúne excelentes jogadores em um time bem armado, muito forte. Tem gana. Joga com inteligência, alegria criativa e muita garra. Sei que terá difíceis adversários, mas merece respeito, merece confiança.

A conquista da Copa é desejo do povo. Sou homem do povo, sou torcedor. Quero a sexta estrela, o título imponente de hexacampeão para meu país. Isso não quer dizer que renuncio ao protesto, ou deixo de lado a indignação contra os muitos desmandos que os nossos irresponsáveis governantes, em todas as instâncias (União, estados, municípios), têm protagonizado. Não renuncio à indignação pelo que andaram fazendo a pretexto da Copa do Mundo. Não deixarei de gritar contra os mandatários de diferentes partidos e mais ainda contra os empreiteiros inescrupulosos a que eles oportunizaram grandes abusos, fantásticas roubalheiras.

Bem sei que o tal legado da Copa só será positivo de todo para a quadrilha da FIFA, o bando da CBF, a politicalha e seus protegidos. Será excelente para uma cadeia de empresários indignos. Nós, contribuintes, ficaremos com uma manada de elefantes brancos, uma dívida brutal e um grande logro.

Os prejuízos são muitos. Destaco a dor de milhares de famílias privadas de sua residência, deslocadas para a casa do chapéu. As promessas douradas de melhoria da mobilidade urbana, de aeroportos modelares etc. já foram amplamente desmoralizadas. O incremento do turismo durante a competição será bem grande, reconheço. Mas seu crescimento posterior não se acha garantido pelo efeito vitrine: a experiência da África do Sul foi negativa no particular. Reconheço ainda que uma pequena fração da gente boa do Brasil ganhará alguma coisa, mas acho pouco para tanto gasto. A relação custo-benefício resulta catastrófica para o grosso da população. No entanto, uma coisa é certa: o futebol brasileiro não tem culpa dos crimes realizados em seu nome.

Participei dos protestos de junho do ano passado. Na mesma altura, torci como um louco, vibrei com a gloriosa conquista dos canarinhos que arrebataram novamente a Copa das Confederações. Agora estou pronto a vaiar de novo governantes, fifós, malandros em geral, assim como estou pronto para aplaudir os craques de soberbos escretes que se exibirão em nossa terra. Sei que darão um belo espetáculo.

De todo o coração, celebro o time canário. Aposto no Brasil. Desejo ardentemente o hexa. Se a esperança da gente for recompensada, será uma afirmação do nosso futebol. Espero que este alento o faça renascer.

Acredito também que a esperada vitória não poderá ser capitalizada pelo governo, por mais que os políticos se assanhem. Nem presidente, nem governador, nem qualquer prefeito, nem situação nem oposição, por mais teatro que faça no circo eleitoral, poderá convencer o povo de que o êxito dos nossos atletas se deve a sua grei, a gestores bisonhos e cartolas nefandos como os que temos. A cobrança por melhores serviços públicos vai continuar. Não haverá trégua na luta por cidadania, por investimentos adequados em saúde, educação e segurança.

As grandes conquistas do futebol brasileiro sempre se deram graças ao gênio do povo, jamais a governos. Chegamos ao tri numa campanha fantástica em um dos piores períodos de nossa história, com a democracia enxovalhada. Os generais que usurparam o poder tiveram êxito em aproveitar o entusiasmo do povo e fazer pose como se fossem eles os responsáveis pelo triunfo. Mas sua mentira foi desmascarada. Hoje sabemos que se deu exatamente o contrário, que o regime militar também agrediu o futebol com sua bárbara violência. A perseguição a Garrincha mostra com terrível clareza a estupidez, a brutalidade, a indecência, a burrice e a medonha hipocrisia do regime ditatorial.

Toda Ditadura anda de braços dados com o obscurantismo. Não persegue apenas os adversários políticos, ou sequer os homens e mulheres de espírito crítico, prontos a contestar. A lucidez a ofende, a criatividade a aborrece. No mínimo, exige da pessoa criativa um aplauso reverente, um silêncio obsequioso, um estilo tão obtuso quanto o dos mandatários. Seu apoio mais sóllido vem das mentes limitadas, dos medíocres satisfeitos. E como disse Camus em uma drama pungente (sua tragédia intitulada Calígula), a mediocridade é mortal quando se sente ofendida.

Sabe-se que muitos artistas brasileiros foram perseguidos, obrigados a tomar o caminho do exílio. Cientistas de renome viram-se afastados das universidades onde ensinavam: só na UnB, já na primeira leva de perseguidos, cerca de duzentos professores deixaram a cátedra de uma vez. Pelo Brasil afora, homens e mulheres foram retirados de seus ateliês, de seus palcos, dos laboratórios onde conduziam suas pesquisas; muitos foram presos, muitos viram-se obrigados a esconder-se, a calar, a exilar-se. Poetas e músicos, gente de teatro, escritores, jornalistas, intelectuais de todo o naipe passaram a ser vigiados, maltratados, detidos ou expulsos em consequência do golpe militar, nos anos de chumbo seguintes. Pois bem: mesmo sabendo disso, mesmo tendo conhecimento da estupidez do regime de botas, de vez em quando a gente ainda tem surpresas tremendas com a redescoberta de sua brutalidade. Impossível não se escandalizar com uma revelação feita, há pouco, pela Folha de São Paulo: impossível não ficar indignado e estupefato ao ler sobre a perseguição feroz movida contra Garrincha pelo rebotalho que então governava o país.

Eis um crime imperdoável. Que mal fazia Garrincha a quem quer que fosse? Que ameaça ele representava? Como se podia querer mal a um anjo de pernas tortas que deu tanta alegria a nosso povo? E que dano se poderia atribuir à voz celeste de Elza Soares, ou a seu amor apaixonado pelo pássaro divino dos estádios? Só mesmo de gente perversa, imunda, pode ter nascido a ideia sinistra de atormentar pessoas ao mesmo tempo simples e geniais. Quem os perseguiu detestava a beleza, odiava a arte. E por certo abominava o futebol.

Acho difícil até imaginar a espécie de celerados que metralharam a casa de Garrincha, os mandantes dessa maldade, ou a natureza dos imbecis que exigiram sua exclusão do nosso escrete, dos patifes que acabaram por tirá-lo efetivamente do futebol. Tenho vergonha só de pensar que esses crápulas pisaram o chão de nossa terra e a desgovernaram por um longo tempo. Idiotas com essa tara não se arrependem, mas todos nós, brasileiros de verdade, que temos consciência moral e amamos nosso país, estamos no dever de reparar tamanho mal, ao menos um pouco – tanto quanto nos é possível – celebrando a memória de Garrincha. A ele devemos dedicar todas as taças que ganhamos, todas as que vamos ganhar. Pois na figura de Garrincha se concentra o que o Brasil tem de melhor, de mais puro, criativo, amável, prodigioso. Ele foi simplesmente o mais genial de nossos craques, o melhor de todos os tempos.

Sinto nojo ao me lembrar de como um obtuso ditador e seus asseclas se pavonearam com a conquista do tricampeonato. Parecia que tinham feito os gols da vitória. E usaram o entusiasmo do povo para oprimi-lo ainda mais. Depois disso, não podemos deixar que nenhum governo, por melhor que seja, se aproprie das conquistas de nossos atletas, das vitórias de nosso futebol. Melhor que cuidem de sua vida e deixem o povo festejar.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).

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