Croácia, Brasil e outros delírios

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 3 Anos atrás

Não sei se vocês conhecem a ilha de Boipeba. É uma pequena joia do litoral da Bahia. Fica perto de Tinharé e integra o município de Cairu. A linda paisagem, o sossego do lugar e a simpatia do povo têm atraído para lá muitos visitantes. Turistas acorrem de todos os lados: brasileiros e estrangeiros, sobretudo no verão. Aparecem até mesmo no inverno, quando a temperatura chega a 21 graus centígrados e os baianos todos vestem casaco (só tiram na praia, depois das 10 horas). Nesse tempo frio, como se sabe, as moças da Boa Terra usam biquini forrado. Já os turistas não se queixam, nem mesmo quando sopra a brisa do mar. Podem crer, muita gente vai a Boipeba até para assistir mega-eventos esportivos. Pela tevê, é certo, mas com uma luxuosa paz, em praia esplêndida, saboreando moquecas e ótima cachaça.

Conheço uma família carioca que deixou o Rio de Janeiro para assistir em Boipeba a Copa do Mundo. Meu irmão, que é baiano, tem lá uma casa de praia onde, no momento, se acha instalado com a turma do Rio (sua excêntrica família de aliança), acompanhando todos os jogos e torcendo placidamente.

A torcida que se reúne em casa do mano incorpora personagens locais que têm uma visão muito particular da bola do mundo. Um deles é o Boto, que ganhou esse apelido porque levou uns tempos convencido de que pertencia à simpática espécie dos golfinhos. No começo, dizia que se comunicava com eles, escutava seus apelos, suas conversas marítimas, e entendia perfeitamente suas mensagens. Acabou por crer que era um golfinho desterrado, ou melhor, desmarizado, se é que me entendem: julgava-se perdido em meio terrestre, com enganosa aparência humana. Esteve por diversas vezes muito perto de afogar-se, pois não nada muito bem; ainda assim, atirava-se às águas quando entendia que os companheiros cetáceos o chamavam. Por sorte, era sempre pescado e reconduzido a terra, apesar de seus úmidos protestos. Por fim um sábio pescador providenciou sua cura, levando-o a um terreiro da Ilha. No canzuá, ele foi submetido a misteriosos rituais. Iemanjá, felizmente, aceitou as oferendas. Ao cabo, nosso amigo se convenceu de que é humano (coisa que às vezes lamenta). Mas o apelido ficou: é Boto para todo o mundo.

Por telefone, meu irmão me contou que esse Boto se revelou um torcedor fanático, profundamente zeloso de nossa Seleção. Tanto que na véspera do jogo com a Croácia quase se torna uma ameaça ecológica. Ele mora na beira de um brejo, devidamente frequentado por sapos, rãs e gias de diferentes espécies. Depois de uma noite de insônia, logo cedo ele procurou o mano falando de sua última preocupação: cismou que a saparia estava torcendo contra nosso time e isso poderia dar azar. É que, segundo ele, alguns batráquios ficavam o tempo todo fazendo “CROAC, CROAC”. Irritado, o Boto pensou em drenar o brejo. Por sorte, meu mano convenceu a criatura de que seus ouvidos o enganavam e lhe deu remédio: fez com que ele provasse uma cachaça especial, de extraordinários dons terapêuticos. Depois de uma boa dúzia de goles, o Boto voltou para casa sonolento e adormeceu ouvindo beatificamente a saparia que, segundo ele, clamava: BRASIL! BRASIL! Encantado, o ex-delfim acordou quase na hora do jogo, com um prognóstico feliz. Mas quando aconteceu o sinistro gol de Marcelo, voltou-lhe a dúvida. Felizmente, o mano ainda tinha meio litro de sua famosa cachaça psiquiátrica. E Neymar ajudou com um poderoso tranquilizante.

Terminado o jogo, o Boto foi de novo internado no terreiro: o pessoal de Boipeba concluiu que ele precisa fazer umas oferendas à Senhora dos pântanos, a santa Nanan. É que, no fim da partida, ao ver Marcelo esportivamente vestido com a camisa da Croácia, o Boto ficou furioso: xingou nosso lateral de filho da gia pra baixo. Levou uns cascudos, pois desrespeito com mãe de craque é coisa que o povo boipebano não perdoa (a não ser quando o craque é argentino).

Foto: Assessoria da CBF | Neymar celebra o empate

Foto: Assessoria da CBF | Neymar celebra o empate

Por sorte, a torcida de Itaquera foi mais compreensiva e apoiou de forma inteligente o nosso time – que, de fato, começou mal aquele jogo. A Avenida Daniel Alves estava escancarada e os croatas aproveitaram. Por pouco não inauguram o placar logo no primeiro lance de seu ataque. A cobertura do lado esquerdo tampouco era perfeita. Depois do chute suicida até que Marcelo se reergueu, jogou bem; mas de seu lado ainda brotaram sustos.

Em nosso meio campo, o craque Paulinho não era Paulinho; digo, não era nem a sombra do que do que sempre foi. Parecia sonado, apático, desenxabido, jeito de quem não queria de modo nenhum estar ali. Pelo jeito, acordou brigado com a natureza. Ou com a namorada. Na linguagem dos especialistas, nessa partida ele sofreu de deficit de agonística, um trem horroroso: assim se chama a falta de gana, de disposição de luta. O nome feio se justifica: indica uma coisa fatal num esporte competitivo. Quando esse não-Paulinho deu lugar a Hernane, o time sentiu-se revitalizado. Foi uma injeção de ânimo, um grande alento. Mas não digo nem direi que o ex-corintiano deve ser alijado do time canarinho. Pelo contrário, penso que ele deve ser psicologicamente reconvocado, chamado a jogar o que sabe.

Outro problema se mostrou mais compreensível: Hulk baleado não era, não podia ser, o herói completo. Não estava verde o bastante para fazer como sempre. (No caso dele, “verde” significa “saudável”, “perfeito”, “em boas condições de fúria”). Ainda assim, o bravo mostrou disposição. Merece aplausos.

Neymar mostrou seu poderio, sua arte e sua vontade. Seu único erro foi a tentativa de degolar um adversário com o braço, coisa que não dá certo nem mesmo no MMA. Com a bola, fez maravilhas. Cada arrancada sua era uma faísca que fazia soar o alarme de incêndio na cuca dos croatas. Num momento decisivo eles não puderam apagar o fogo. Para o Brasil, foi a salvação, um gol redentor. A torcida voltou a ter esperança de vitória e até Marcelo (croac, croac) sentiu-se perdoado.

Todavia, com perdão de nosso astro, se eu tivesse que escolher o nome do jogo indicaria Oscar. Brilhante, ágil, preciso, o meninão mostrou garra e inteligência, uma espantosa habilidade e uma verdadeira gana de craque.

Quanto a Fred, diz a turma que merece um Oscar. (A estatueta, bem entendido, aquele prêmio de Hollywood). Todavia, prefiro ficar com a opinião de meu personal trainer, o Mestre Israel, que também pratica jiu-jitsu. Segundo sua ilustre opinião, Fred não fingiu nada, foi derrubado por um golpe traiçoeiro, perverso, que justificaria até um cartão vermelho: a perigosa chave de ombro, tão sutil que pode passar despercebida, pois consiste em um toque instantâneo, mas tem horrenda eficácia: produz um efeito doloroso no local e um súbito amortecimento das pernas, além de uma careta. Por sorte, o juiz era japonês, na certa escolado em artes marciais: viu logo de que se tratava e não deixou passar em branco essa violência. Nada mais justo, portanto, que a punição determinada pelo árbitro e aplicada por Neymar.

O importante é que vencemos, ultrapassamos as caroaras da estreia e a urucubaca do Itaquerão, de que o Corinthians já foi vítima.

Agora vamos em frente.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).