Futebol e Profecia

  • por Ordep Jose Trindade Serra
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Son Heung-Min | Foto: bundesliga.com | Montagem: DoentesPorFutebol.com

Uma coisa têm em comum os economistas e os comentaristas de futebol: raramente acertam uma previsão. Não me atrevo a fazer nenhuma nessa Copa. Se encontrarem em meus textos algum prognóstico, fiquem logo sabendo que eu mesmo não lhe dou confiança, não creio nele nem um pouco. Quando me perguntam qual será o resultado de uma partida, minha resposta, de um modo geral, traduz wishful thinking. Falo simplesmente o que eu desejo que aconteça. Quando o Brasil joga, minhas previsões de resultado sempre favorecem o time canarinho. Não sei porque, mas sucede o contrário quando a Argentina joga com qualquer outra equipe: mesmo sendo admirador do futebol portenho, sempre profetizo a desgraça de sua seleção. É estranho. Não sei porque isso. De um modo geral, sou generoso com os hermanos da América Latina. Torço também pelos africanos, principalmente quando lutam com gringos. Nesses caso, faço lindas predições, baseadas no puro desejo – e fico intrigado quando elas se realizam. Se tento ser racional, muitas vezes erro. É quase uma fatalidade.

Em todo o caso, tenho meus acertos: em minhas análises adivinho muitas coisas que já aconteceram. Podem crer, a posteriori profetizo muito bem. Antecipar é que é o problema. Imaginei que a Espanha se recuperaria depois da sova cruel aplicada pelos batavos, mas então veio o Chile e quebrou-lhe as pernas. Ironia das ironias: torci pelo Chile e vibrei com sua vitória, porém confesso que ela me surpreendeu. Agora, já acho muito lógico o resultado. O Chile jogou dez vezes melhor, com muita classe e garra. A equipe andina bem merece tomar da hispânica o apelido de Fúria, pelo modo como destroçou a campeã do mundo naquela partida. A Roja empalideceu, o rubro furor estava do outro lado. Tinham toda a razão os torcedores chilenos que ostentavam o cartaz “La Roja es nuestra”, alegando que a camisa de seu time era a Vermelha de verdade. Concordo. Então sucede que errei, mas acertei: La Roja ganhou. Só que não era a europeia, a favorita: era a americana.

Pobre Casillas, que chegou ao Brasil já se coroando de louros, a reivindicar a segunda estrela. Sua atuação abaixo da crítica reflete a ira das furiosas Erínias do futebol, provocadas por sua arrogância. O time do grande Iniesta acabou esfrangalhado. E o extraordinário jogador saiu de campo com cara de bobo.

Creio que os brasileiros foram responsáveis, ao menos em parte, por essa reviravolta no destino dos triunfadores ibéricos. Até a Copa das Confederações, a seleção campeã do mundo era considerada quase invencível. Os canarinhos quebraram seu feitiço, desfizeram sua aura. Outras equipes perderam o receio de enfrentá-la. Já neste campeonato, os vingativos holandeses prostraram sua grande rival no pó. E os terríveis chilenos a pisotearam. Só falta que os cangurus a espezinhem. Não duvido de mais nada.

Aposto que não sou o único a ter surpresas nesta Copa. Eméritos comentaristas, notáveis técnicos, enciclopédicos mestres do futebol estão alucinados. Pensem no tal grupo da morte, com três campeões do mundo. Os peritos e os imperitos davam como certo que dois deles ficariam com as vagas para as oitavas de final. Os sábios palpites só variavam na indicação de quem as ocuparia e de quem sairia em primeiro lugar: O Uruguai? A Inglaterra? A Itália? A outra seleção só era lembrada como vítima destinada ao sacrifício desde que a sorte a colocou nesse autêntico corredor da morte. Craques respeitáveis, estrategistas da mais pura lavra, jornalistas tarimbados que testemunharam numerosas Copas, todos esperavam a definição entre as três potências. O destino foi irônico, revelando o que fazia do Grupo D uma câmara de extermínio. Como em um romance policial intrincado, a suposta vítima revelou-se o Matador. A Costa Rica começou por derrubar com facilidade o bicampeão Uruguai, seguiu caminho derrotando a poderosa Azzurra, detentora de quatro títulos em Copas do Mundo. Assim eliminou previamente a velha campeã Inglaterra e se classificou com uma folga que lhe permite brincar despreocupada com os britânicos já despachados, no jogo de despedida dos súditos de Elizabeth.

(A propósito: eu soube por meu vizinho André Cordeiro, sempre bem informado acerca de tudo, que Sua Majestade prometeu aplicar um belo tabefe na bochecha de Balotelli, caso ele se aventure nas proximidades do palácio de Buckingham. Seria bem feito, diz André: porque diabos pedir beijos à Coroa? Com tanta inglesinha bonita no mundo…).

Para completar, a prodigiosa equipe caribenha condenou Uruguai e Itália a uma luta feroz da qual um dos dois sairá aniquilado e em que ambos precisarão gastar muito sangue, suor e lágrimas: simplesmente, antecipou para eles o mata-mata.

Por favor, amigos, sejam justos com a bela e misteriosa Costa Rica: não a chamem de zebra. Eu a imagino como uma linda mulher languidamente deitada entre dois oceanos: uma sereia. Como sabiam os gregos e reconhecem os baianos, sereias são muito perigosas. Tanto nadam como voam e seus encantos muitas vezes se revelam fatais. Em terra, assumem a forma de lindas moças com olhos de ressaca. Esta implacável ninfa que destroçou italianos e uruguaios, fazendo naufragar os ingleses antes mesmo de encontrá-los, tem a proteção de La Negrita, que deve ser irmã ou prima de nossa Aparecida – e também, estou certo, da sedutora Janaína, rainha de nossos mares. De acordo com meu amigo João Valença, monge e macumbeiro, isso explica muito bem o sucesso dos costa-riquenhos em terras brasileiras. A propósito, um médium cearense me escreveu dizendo que viu São José com seu ramo bento dançando chiquichiqui nas praias de Fortaleza. E uma linda iaô de Recife garante que aprendeu com ele a parrandera na praia da Boa Viagem, na noite febril do último 20 de junho. Deixaram o pobre São Genaro com dor de cotovelo.

Mistérios à parte, convenhamos: os filhos da sereia jogaram um primoroso futebol, líquido e envolvente, em cujas ondas sucumbiram os favoritos do grupo. Nossos caros irmãos costa-riquenhos já garantiram lugar na história das Copas.

Decisivo: Suárez comemora o segundo gol contra a Inglaterra | Foto: Divulgação FIFA

Decisivo: Suárez comemora o segundo gol contra a Inglaterra | Foto: Divulgação FIFA

Mas deixam que eu faça também meu louvor ao querido Uruguai. Mais uma vez ele revelou-se heroico, dramático, passando do nadir ao zênite, numa histórica peripécia. Luis Suárez entrou em definitivo para o panteon dos grandes craques. Está consagrado, suceda o que suceder com a gauchada simpática no próximo embate com os italianos.

Celebro também a excelente Gana, que fez numerosos profetas rasgarem a carteirinha, pois quase todo o mundo dava como líquido e certo que os terríveis germanos iam arrasar a seleção centro-africana com uma goleada feroz, numa Blitzkrieg exemplar. Foi outra coisa o que se viu em campo. O majestoso escrete da África jogou de igual para igual com os temidos teutões, mostrando técnica e gana tamanha que faz jus, perfeitamente, ao nome de sua terra. A equipe alemã precisou de apelar para a artilharia pesada do medonho Klose. Ao saber que este igualou Ronaldo Fenômeno, minha vizinha Simone rogou-lhe uma praga: decretou que ele ficará em pouco tempo igualmente gordo, chato e burro. O marido dela, Ingo, que é alemão de nascença, até agora protesta, e já mandou um patuá para seu ídolo.

Meus jacarés já estavam prontos a chorar pela Argentina quando o fulminante Messi derrubou o Irã já nos descontos, depois de mais de quarenta e cinco minutos de agonia azul e branca. Tive de aplaudir. Foi lance típico de um gênio. Ele continua sendo o Messias da galera portenha. Mas meus parabéns vão para a turma do aiatolá, que quase levou milhares de apostadores ao suicídio. Alá os proteja. Amém.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).

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