O pavoroso naufrágio da invencível armada

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 57 Visualizações

Fui assistir na Fonte Nova a partida entre Holanda e Espanha. Esperava um jogo duro, uma disputa muito equilibrada entre as duas seleções. Não previ de modo algum o que aconteceu. Aposto que ninguém o esperava, nem o mais otimista dos batavos. No entanto, houve um sinal de desastre espanhol logo na véspera, tremendo signo que só reconheci depois do ocorrido, graças uma tardia reflexão. Terminada a peleja, o toque fatídico me parecia evidente. É o que sempre sucede nos grandes dramas, do teatro e da vida: só lemos a sina a posteriori, quando o prenúncio já se cumpriu. Fiquei até espantado com minha cegueira: como estudioso da tragédia grega, eu devia ter imaginado que a equipe espanhola ia naufragar. No entanto, só quando a catástrofe hispânica já tinha sucedido eu me lembrei das lições dramáticas dos antigos helenos e da funesta entrevista de Casillas.

Não sei se vocês assistiram a esse pronunciamento. Quem viu a cena, quem ouviu as declarações do famoso goleiro, talvez se espante com a qualificação que dei à sua fala. Aparentemente, ela nada teve de funesta. Ao contrário, foi gloriosa, triunfal. Em resumo, o arqueiro da Roja declarou que a Espanha veio ao Brasil pronta a ganhar todos os jogos desta Copa do Mundo e, finalmente, pôr na sua camisa a segunda estrela. Estava seguro, confiante, pensando já na vitória final. Que pode haver de mais positivo?

Pois bem, é justo nessa atitude que se acha o signo nefasto. Pelo menos assim pensavam os antigos gregos, os antigos romanos. Eles temiam a vanglória, tinham por inimiga a presunção. Julgavam que falar desse jeito equivalia a desafiar o destino, provocar os deuses. Tenho para mim que a história muitas vezes confirmou a pertinência desse receio, hoje por muitos considerado supersticioso.

10422465_246874062177297_8181693730787236893_n

Sim, acredito mesmo que os antigos tinham razão. O discurso de Casillas irritou as Erínias do futebol. Creio realmente nessas divindades tremendas. Estranho que um jogador da Fúria não se tenha lembrado das Fúrias, nem do desastre que tornou irônico o nome da Invencível Armada. Esqueceu a prudência. E saiu de campo com cara de tacho.

Mas deixemos Casillas com sua dor de cabeça. Passo agora a um rápido comentário da extraordinária partida e de suas circunstâncias.

Na Fonte Nova, a torcida da Espanha era maior, porque em Salvador há um grande colônia espanhola e os brasileiros que descendem dessa boa gente acompanham pais e avós no culto da Roja. Camisas vermelhas era o que mais se via. Holandeses, temos poucos; porém veio um bom contingente dos Países Baixos assistir o jogo. Eles conquistaram os baianos com sua simpatia, pois são animadíssimos: prontamente caíram na gandaia com os nativos. Seus craques tampouco se privaram de brincar do jeito que baiano gosta, embora com a devida moderação. O contraste com os espanhóis nesse ponto foi muito grande: a equipe da Roja ficou reclusa, pouco contato teve com o pessoal da cidade. Em matéria de alegria, jogadores e torcedores da Laranja começaram ganhando de goleada. Confraternizaram, brincaram, esbanjaram simpatia. Isso explica porque a maior parte do pessoal de camisa amarela presente no estádio apoiou os holandeses. Os que não pensavam inicialmente em tomar partido foram conquistados pelo excelente futebol do time batavo.

Confesso que torci pela Holanda desde o começo. Ainda me indago porque. Como latino e iberoamericano tenho mais proximidade cultural com a Espanha. Conheço muito melhor sua arte, sua literatura, seus costumes. E admiro seu futebol, pelo menos tanto quanto o da Holanda. Mas fiquei com esta.

No princípio, eu só ponderava o interesse do Brasil. Em tese, achei preferível um trabalhoso empate entre as duas grandes equipes: quisera que ambas se desgastassem ao máximo, pois nunca tive dúvida de que elas são sérias candidatas ao título cobiçado por nós.

Um amigo meu, o sábio Emerson, foi mais longe. Em circunstâncias normais, ele é um homem pacífico, generoso, benevolente; mas quando lhe perguntei que resultado preferia na disputa entre vermelhos e laranjas, esse bom homem deu-me uma resposta escabrosa:

– Quero que os dois times percam.

Adverti que isso não é possível, mas ele continuou:

– Possível eu sei que não é, mas ainda assim acho desejável. Em todo o caso, reformulo meu voto: tomara que haja um empate dramático, doloroso, com três expulsões de cada lado e muita gente machucada nas duas equipes.

Não concordei. Considero essa opção pouco esportiva. Por outro lado, acho que a neutralidade não tem graça. É muito mais gostoso assistir um jogo torcendo. Decidi, portanto, escolher um lado. E minha escolha me surpreendeu: teve motivos de que só aos poucos tomei consciência. A nova, cordial e alegre invasão holandesa de Salvador ocorrida nestes últimos dias me cativou. E a declaração arrogante de Casillas me influenciou de modo negativo, fez com que eu embirrasse com sua famigerada seleção.

Pelo que vi no estádio, outro craque da Roja fez com que uma parte considerável da torcida brasileira ficasse contra a Espanha: refiro-me a Diego Costa, vaiado sempre que pegava na bola e sistematicamente comparado a um cervídeo muito comum em nossas campinas. Não aprovei, achei bobagem. Concentrei-me no jogo propriamente dito.

No começo, a Espanha parecia dominar. A Holanda continha-se, guardava-se no seu próprio campo, com poucas investidas. Ainda assim, a equipe campeã do mundo só marcou seu tento graças a uma encenação. Diego Costa se atirou ao solo da área batava e o juiz marcou pênalti, que Xabi Alonso converteu em gol. Mas quase no fim da primeira etapa veio o empate numa jogada espantosa: lançamento de Blind, salto acrobático de Van Persie, cabeçada fatal. Difícil descrever aquele salto, digno de uma rã amazônica tamanho gigante, terminando com um mergulho artístico, no estilo dos nossos astros do vôlei quando comemoram um de seus muitos campeonatos. A Fonte Nova estremeceu aplaudindo o prodígio. Era só um anúncio do que viria logo mais.

No segundo tempo, a Holanda partiu com tudo para cima da Espanha. Robben parecia um demônio careca atormentando a defesa hispânica com arrancadas terríveis, dribles e toques fulminantes. Sua velocidade estonteava os iberos. Fez um golaço logo aos sete minutos e continuou fustigando. Van Persie, Sneijder e Companhia Limitada acionaram a laranja mecânica com implacável furor. De Vrij marcou aos dezenove e condenou ao silêncio a charanga da esforçada colônia hispano-baiana. Aos vinte e seis, as Erínias futebolísticas cegaram Casillas que marcou bobeira e levou humilhante gol, driblado pelo terrível Van Persie. A equipe espanhola perdeu o tino: entrou na roda, assombrada por gritos de olé que ecoavam por toda a Fonte Nova. O diabólico Robben aos trinta e quatro minutos fulminou Casillas, que assistiu prostrado o golpe decisivo. Goleada arrasadora. O poeta Florisvaldo Matos viu fantasmas batavos emergirem das águas sagradas da Baía de Todos os Santos para dançar em volta do estádio, onde só não entraram chacoalhando os ossos porque foram contidos pelos Orixás do Dique. E os torcedores da Laranja recomeçaram a folia com ânimo redobrado: ainda hoje podem ser encontrados a festejar pelos sete caminhos de Exu que se enovelam misteriosamente na Cidade da Bahia.

Até agora foi a Seleção Holandesa a equipe mais brilhante que vi nesse mundial, no estádio ou na TV. Sei que é cedo para avaliar; todavia, considerando unicamente as primeiras performances, só o time laranja e a Azzurra se exibiram em toda a sua força. E a Holanda sobrou.

Em todo o caso, repito que é cedo. A Espanha não está morta. Pode recuperar-se, fazer-se de novo magnífica. Esse pavoroso naufrágio não a destruiu. Ela não poderá mais ser vitoriosa em todas as partidas, como o grande Casillas imaginou, mas tem forças para lutar pelo título. Brasil e Argentina ainda não mostraram seu real poderio. O Uruguai é que está com a corda no pescoço; não aposto em sua sobrevivência, que todavia não acho de todo impossível. A Inglaterra continua no páreo, embora combalida pela derrota inicial. E a Costa Rica já mostrou que não é de brincadeira.

Esta Copa promete.

Facebook Comentários

Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).

  • facebook