Decepção Asiática

  • por Matheus Mota
  • 3 Anos atrás
Cotado como candidato a uma das vaga do Grupo C, a seleção japonesa decepcionou. Foto: Getty Images

Cotado como candidato a uma das vaga do Grupo C, a seleção japonesa decepcionou. Foto: Getty Images

Na Copa passada, dos quatro representantes asiáticos, dois passaram de fase; no caso, Japão e Coréia do Sul, os dois maiores no futebol do continente. Nas partidas em que foram eliminados, contra Paraguai e Uruguai, respectivamente, a classificação não veio por detalhes. E as perspectivas para os próximos anos eram animadoras. O mesmo valia para a Austrália, em sua primeira Copa como membro da AFC. Ainda que tenha sido eliminada na 1ª fase, com direito a uma goleada contra a Alemanha, os australianos conquistaram quatro pontos, um resultado melhor do que o esperado. Em relação à Coréia do Norte, a própria classificação para a Copa foi um daqueles eventos inexplicáveis do futebol; até para os padrões da região a equipe não apresentava um alto nível.

No entanto, nesse ciclo de quatro anos entre um mundial e outro, muita coisa aconteceu, deixando as expectativas outrora animadoras um pouco mais comedidas. Ainda que o Japão tenha conquistado a Copa da Ásia de 2011 e tenha conquistado a vaga no Mundial com relativa tranquilidade, o time comandado pelo italiano Alberto Zaccheroni alternava altos e baixos. A campanha na Copa das Confederações, por exemplo, mostrou um time extremamente inconstante.

Da parte da Coréia do Sul e da Austrália, ambas passavam por um momento de renovação e sofreram mais do que o esperado para conquistar a vaga no Mundial. Os sul-coreanos empataram em pontos com o Uzbequistão (que há anos bate na trave), só levando vantagem por terem marcado um gol a mais. O líder da chave em que estava a Coréia do Sul foi o surpreendente Irã, que também passava por um momento de reestruturação de seu futebol, convocando descendentes de imigrantes iranianos – que, via de regra, foram formados por clubes de pequeno ou médio porte de grandes ligas europeias. Sobre os australianos, estes só garantiram a vaga no último jogo das eliminatórias, em um sofrido empate fora de casa contra o Japão. Nos amistosos pré-Copa, os resultados não foram dos melhores. Esse período culminou na demissão do técnico Holger Osieck. O desempenho apresentado nas duas derrotas por 6×0 para Brasil e França não satisfizeram a FFA, que apostou em uma solução caseira ao apontar Ange Postecoglu como seu novo técnico. Atual campeão australiano, o novo comandante intensificou o processo de renovação da equipe.

Nesse mesmo período, enquanto o Japão ganhou os quatro amistosos de preparação, a Coréia do Sul venceu apenas dois dos seis que disputou, com direito a pesadas derrotas para México e Gana, ambas por 4×0. Já o Irã venceu apenas um de seus cinco jogos preparatórios. Ainda que os resultados dos amistosos pré-Copa, em si, não possam dizer muita coisa – afinal são jogos pautados pelos experimentos – o contexto vivido pelas quatro seleções não permitia muito otimismo.

Com a Copa ficaram mais incertezas do que qualquer outra coisa. Porém a Austrália certamente agradou, dando a impressão de que poderia ter tido vida mais longa na competição se tivesse obtido melhor sorte no sorteio de seu grupo. As partidas contra Chile e Holanda deixaram uma ótima imagem do time. Resta saber como irão se virar sem a presença de Tim Cahill, que, do alto de seus 34 anos, vê seu ciclo na equipe chegar ao fim. Ainda assim, pode-se dizer que há potencial para um crescimento qualitativo dos Aussies.

Quanto à Coréia do Sul, esta fez um jogo divertido contra a Argélia, mas não teve um desempenho satisfatório contra a Rússia, e principalmente, contra a Bélgica, em jogo que tinha superioridade numérica e mesmo assim perdeu. O time de Hong Myung-Bo cometia falhas que denotavam ingenuidade, sobretudo defensivas. Ainda que a média de idade dos sul-coreanos seja a quinta mais baixa dentre os 32 participantes (26,2 anos), parte dos atletas atua em campeonatos de alto nível – logo, não é possível alegar inexperiência.

O Irã veio com um time que mostrou mais do que se esperava; não brilhou, mas nem de longe deu vexame em um grupo com equipes bem mais qualificadas. É bem verdade que a partida contra a Nigéria foi horrenda. Mas é inegável que os iranianos mostraram tenacidade, que foi posta à prova contra a Argentina, onde suas poucas chances pararam nas mãos de um inspirado Romero. Contra a Bósnia, em uma partida em que teriam de propor o jogo, o saldo foi uma justa derrota por 3×1. Agora veremos como será a vida sem Carlos Queiroz, que deixou a seleção após a Copa, e se continuará a tendência de apelar aos descendentes de iranianos que emigraram.

Esperava-se, pela fragilidade do time, que o Irã fosse a decepção entre as seleções da AFC. Mas esse posto coube ao Japão. O Irã atuou dentro das possibilidades que tinha enquanto o Japão jogou abaixo do que podia. O começo contra a Costa do Marfim foi promissor, mas nessa mesma partida o rendimento japonês caiu drasticamente. O empate contra a Grécia, mesmo com um jogador a mais, e a derrota para a Colômbia mostraram um time extremamente ineficiente. Nenhum atleta se destacou, jogando abaixo do que costumeiramente fazem pelos clubes (com exceção de Kagawa, que já vinha em má fase), e Zaccheroni não conseguiu implantar um padrão de jogo eficiente.

Em suma, o saldo dos asiáticos nessa Copa mostra evidente retrocesso na comparação com o que foi visto no Mundial da África do Sul. O futuro não parece muito promissor, pois não se sabe se as bases dos processos de renovação e reestruturação de algumas seleções são suficientemente sólidas. Mas também não mostra motivos para desespero, pois o futebol em países como Japão, Coréia do Sul e Austrália, dá mostras de estar à frente do que é visto em outros centros da Ásia. De todo jeito, é bom tomarem cuidado.

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Paulista e torcedor do Santo André. Historiador, acompanha o futebol como um todo, mas sobretudo o lado mais alternativo da coisa.