Moral do Apagão

  • por Ordep Jose Trindade Serra
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O trauma foi grande. Ainda me sinto abalado. Aqueles cinco minutos de horror deixaram-me  perplexo, estarrecido. Todo o jogo foi um tormento. Em vão meus olhos procuravam na tela uma imagem, uma sombra, um vestígio de seleção brasileira. Aquele bando fantasiado com o uniforme dos canarinhos era a negação completa de toda a história de nosso futebol. Gente atordoada, sem inspiração, sem energia. Uma equipe mergulhada no pânico, um time desossado, aparvalhado.  O que aconteceu?

Apagão, dizem todos. “Inexplicável,” reiteram os craques e o próprio técnico. O certo é que naquele momento a Copa acabou para nós.

Daqui a pouco haverá o jogo com a Holanda. Confesso que não estou interessado. Terceiro ou quarto lugar, tanto faz. Já chegamos ao fundo do poço. Nada que aconteça nessa partida vai tirar-nos do buraco. E afundar mais é impossível. Nem mesmo sofrendo outra goleada. A agonia já se concluiu.

 Noite horrorosa, aquela. Eu implorava ao sono que me tirasse do pesadelo. Até rezei: “Pai, afasta de mim esta Copa”. Ato contínuo, fiz o esconjuro da maldita, com uma garrafa de bom vinho. Deu certo. Dormi amparado por Baco, que para sempre seja louvado. De manhã, porém, a má lembrança me esperava ao pé da cama. Assaltou-me quando abri os olhos.

Por sorte, não sou inclinado a depressão. Acudiu-me logo uma bela raiva. Foi ela que acendeu em mim o fogo da reflexão.

Minha ira não se dirige aos jogadores. Nem mesmo a nosso equivocado técnico. Ela se volta contra os grandes predadores de nosso futebol.

Refletindo, consegui livrar-me do  pior, do mais negativo: do rancor cego que ataca feito um rinoceronte, atropelando quem primeiro aparece. Estou indignado, mas lúcido.  Quero acertar no alvo.

Minha nova lucidez me mostra, em primeiro lugar, meu próprio engano. A esperança me enlouqueceu. Sonhei com o hexa, acreditei  que a gente podia chegar lá. Fechei os olhos para as evidentes falhas do nosso time. Embarquei na ilusão entusiástica nascida do breve sucesso na Copa das Confederações.

Quanto aos atletas e ao técnico, faço apenas uma ponderação. Acho compreensível que no primeiro momento tenham ficado perplexos e  apelado para o recurso mais fácil: a desculpa esfarrapada, tola, simplória, que recitaram em coro, falando em “apagão”, apelando para o  inexplicável.  Muito cômodo. Muito engraçadinho. Mas se quiserem superar o trauma, vencer a humilhação e levantar a cabeça, enfim, se lhes interessa dar-se ao respeito e reaver a credibilidade, a auto-estima, a eficiência, a dignidade profissional, só têm um jeito: buscar com franqueza e com o máximo empenho uma explicação para sua conduta desatinada, seu pavor histérico, sua bisonha inépcia. Falando em “apagão” apenas descrevem um efeito, um sintoma. A causa do mal tem de ser encontrada, identificada.

O que aconteceu passou do limite do tolerável. Está certo que a Alemanha tem uma excelente equipe, muito bem montada, com bons jogadores e um técnico capaz. Mas esta grande seleção penou para vencer a Argélia: só o conseguiu na prorrogação. Precisou de  noventa e dois minutos para fazer um gol na equipe africana. Sua vitória foi garantida por outro golzinho chorado, coisa de dez minutos depois; mas os argelinos ainda lhe deram um susto, fizeram o seu e ameaçaram a virada.

Já contra o Brasil, os germânicos não tiveram trabalho. Nem precisaram fazer esforço. Bastou-lhes uma blitz para destroçar nosso time completamente. A defesa canária se liquefez, parecia manteiga. O meio campo brasileiro inexistia, era ficção, era invertebrado. O ataque revelou-se tão inofensivo quanto um bando de borboletas. De que jeito se conseguiu compor um quadro tão patético?

Explique, Felipão. Diga como fez esse milagre, como transformou craques em coelhinhos. Não deixa de ser uma proeza. Circe teria inveja.

A nossos caros atletas desejo que percam o sono. Procurem entender o que se passou com  seu famoso grupo. Busquem a razão do pânico, do torpor, da disenteria. Discutam entre si e com seus travesseiros. Não se conformem com a desculpa esfarrapada.   “Apagão”, com certeza foi. Mas qual o motivo? Caiu um raio sobre suas cabeças? Pesquisem, reflitam. Encontrem os motivos e contem aos torcedores. Nós merecemos uma explicação.  Está em jogo a auto-estima dos brasileiros. Este já foi chamado de “país do futebol”. Sempre nos orgulhamos da excelência alcançada nessa arte por gerações de craques de nossa terra. Eles merecem respeito. Nós merecemos. Não nos insultem com a covarde invocação do inexplicável da silva. 

Nós, torcedores, também devemos nos penitenciar. Pensem, amigos, na injustiça com que foram e continuam a ser tratados os craques da Copa de 1950. Eles perderam por muito pouco uma única e difícil partida, vencidos por uma grande equipe – que mais tarde derrotaram com uma goleada histórica – e foram execrados, xingados, rebaixados. Esquecemos esta gloriosa seleção, de craques geniais. Nunca é tarde, vamos pedir desculpas aos magníficos jogadores de um de nossos maiores escretes; vamos reconhecer seus méritos. Fazer do Maracanazo uma tragédia nacional foi uma grande besteira em que ainda insistimos, como se pode ver no Museu do Futebol, no Pacaembu. Como irá esse museu representar, agora, a tragicomédia do Mineirão?   

Não vamos ser injustos de novo. Felipão e nossos craques desta triste Copa de 2014 não são os reais culpados da catástrofe do futebol brasileiro por eles encenada em Belo Horizonte, aos olhos do mundo todo. Sim, é isso mesmo: na verdade, eles foram apenas os atores que levaram ao palco mundial, sob a forma de uma ópera bufa, esta nossa tragédia. Os sórdidos palhaços da CBF, os vampiros que dirigem nossos clubes de futebol, os malandros de cartola das nossas corruptas federações, nossos dirigentes imorais e parvos são os responsáveis pela degradação da grande arte brasileira. 

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Não esqueçamos tampouco a incompetência de nossos governantes, sua complacência com os esbulhos, sua imoralidade, seu desinteresse pelo esporte que nos apaixona, a desfaçatez com que fizeram do futebol um pretexto para sua rapina, enchendo as burras dos empreiteiros, financiadores de suas campanhas, à custa do povo todo.

A FIFA agora deve estar rindo de nossa cara, ela que se locupletou do modo mais grosseiro nesse campeonato de rapinas, valendo-se da servil aquiescência de um governo grotesco, incapaz e mal intencionado, despudorado. Devem os fifós estar achando muita graça de nossa vergonha, do fracasso que ajudaram a construir.

É contra essa canalha que minha ira se dirige. Os jogadores podem voltar a ser craques.  Felipão pode  rever sua louca estratégia, refletir sobre o próprio desatino. Com certeza vai pedir perdão a Nossa Senhora do Caravaggio por ter invocado seu nome enquanto montava um time sem espinha dorsal. Ela perdoará, lembrando que ele já teve bons momentos e deu alegrias ao povo sofrido do Brasil. Já nossos cartolas e seus imundos cúmplices políticos são imperdoáveis. Que vão para o inferno, todos juntos.

E a galope.

Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).

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