Soy loco por ti, América

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 3 Anos atrás

Meus vizinhos André e Ana formam um casal muito simpático. Ana é uma empresária bem sucedida, conhecida também por seus dotes culinários e sua singular devoção ao Vasco da Gama. André, além de grande atleta (já escalou os Alpes e percorreu de bicicleta dois terços da Europa) é um gentleman de impecável aplomb, o único baiano dotado de fleugma inglesa. É capaz de falar dos assuntos mais perturbadores de forma lacônica e totalmente serena. Já sua elegante esposa não é tão serena assim. Os dois assistiram juntos, pela TV, o jogo entre Uruguai e Itália, que acompanharam de maneiras bem diferentes: ela, agitada, torcendo com ardor contra ambos os times; ele, com olímpica tranquilidade. Em determinado momento, a lembrança das iguarias em preparo atraiu a  boa senhora à cozinha, onde teve de demorar-se por um breve instante. No que ela voltou, indagou ao marido o que se passara no entretempo. André informou com discrição: “Luiz Suárez tentou comer o Chiellini”. Ana ficou escandalizada, tanto que perguntou de novo, incrédula: “Agora? No gramado? Diante de todo o público?” E ele confirmou: “Sim”. Só depois de uma pausa meditativa, vendo que a esposa se arrepiava  de horror, o sóbrio André esclareceu: “Por via oral”. Minha amiga ficou um pouco mais tranquila, porém ainda demorou a crer na estranha informação. Só que o ato de canibalismo foi imediatamente confirmado pela TV. Diante das imagens sinistras e vendo que até a FIFA se indignou, Ana desistiu do seu projeto de arrecadar fundos junto ao empresariado luso-brasileiro a fim de permitir a contratação do craque uruguaio pelo Vasco. Vai concentrar-se agora em Robben, Benzema e Cristiano Ronaldo.

 

Quanto a este último, ela é movida também por uma intenção generosa: quer livrá-lo do mau futebol de sua seleção. Cá para nós, acho o escrete luso tão pouco inspiradao quanto o Vasco dos dias de hoje… Mas não sou eu quem vai dizer isso a minha amiga: seria uma desgraça ser excluído de seus banquetes.

 Atendendo aos protestos de Ana Melão, quero também penitenciar-me por ter chamado o Cristiano Ronaldo de Pavão Misterioso. Eu lhe dei esse título em crônica passada só por causa da maneira como ele atuou no jogo entre Portugal e Alemanha. Devo esclarecer que eu considero o gajo um excelente jogador, um craque legítimo. Ele não teve culpa: o problema estava mais em seus companheiros de equipe, que não conseguiam enxergá-lo, pelo menos durante aquela partida. De resto, nem mesmo um virtuose consegue ter bom desempenho atuando numa orquestra ruim. E até uma pequena artrite pode imobilizar um excelente violinista. Ainda assim, baleado e sem companheiros capazes de entender sua arte, Cristiano Ronaldo mostrou que é iluminado; no jogo fatídico contra os Estados Unidos, aquele gol foi muito mais seu que do afortunado Varela.

 Já os espanhóis são sérios candidatos a ganhar um campeonato de desculpa esfarrapada, o grande prêmio cara de pau. Depois da acachapante derrota sofrida no confronto com a equipe alemã, eles saíram daqui se queixando do gramado da Fonte Nova. Que os alemães (e os holandeses) acharam ótimo. Ó grama injusta! Quanta parcialidade!

 Queixaram-se também os hispanos da torcida mal educada que vaiou Diego Costa. Eu desaprovo essa vaia. Já disse que achei bobagem, condenei quem apupou o atleta binacional. Por outro lado, reconheço que os torcedores espanhóis são educadíssimos, de uma cortesia ímpar. Chegam a ponto de atirar bananas nos gramados para que os adversários possam fazer um lanchezinho enquanto eles os saúdam imitando macacos – por certo a fim de os divertir. Certa vez atiraram no campo uma cabeça de porco, sem dúvida na esperança de que o time visitante aproveitasse o brinde para uma feijoada.

 Gente, falando sério, a Espanha só pode queixar-se de si mesma. Chegou aqui inchada de arrogância e com futebol defasado. Esqueceu-se de que seu esquema tático já é bem conhecido pelos adversários, não se renovou. Agora culpa Deus e o mundo por sua merecida eliminação na primeira fase da Copa.

 

Volto ao caso do Uruguai. É preciso que a celeste acorde, abandone de vez a catimba, se quiser voltar a ser uma grande equipe, digna de respeito. Nada há de positivo nessa tática imunda: catimba significa somente desonestidade, covardia, unfair-play. Quem apela para a baixaria já está admitindo que honestamente não pode vencer o adversário. Quem recorre a manobras ilícitas, a jogo sujo, a fim de ganhar de qualquer maneira, não tem vergonha na cara. Desmoraliza suas conquistas.

 A conduta de Suárez foi indesculpável. Qualquer um pode comprová-lo, pois existe o documento filmográfico: ele fez o que fez de modo premeditado. Só há uma explicação para seu gesto: o guapo queria irritar Chiellini, na esperança de que este, enfurecido, reagisse com um duro golpe e acabasse punido com a expulsão. Vê-se bem no tape, já repetido centenas de vezes, que o uruguaio se atira de propósito contra as costas do italiano,  eleva-se no ar e inclina a cabeça a fim de mordê-lo. O esbarrão nada teve de casual. Foi procurado, estudado, planejado. Não teve sequer o pretexto de uma disputa de bola. E a mordida estúpida é bem visível na tela. Admiro o futebol de Suárez, mas detesto sua estólida, indecente, covarde  malandragem. Acho muito justa a punição que lhe aplicou a FIFA, sobretudo considerando que o mordedor é reincidente.

 Lamento a reação corporativa da Federação Uruguaia e a atitude  equivocada do próprio presidente do país, José Mujica (um homem que admiro). Ao fazer de Suárez um herói, eles incidem em um falso patriotismo que nada traz de bom para seu povo nem para seu futebol, antes o diminui, prejudica, avilta. Como homenagear um homem que lhes infligiu um severo vexame internacional? Como negar a evidência indiscutível do ato bárbaro? Por acaso o queriam impune? Terão coragem de dar o atleta descontrolado e seu gesto canino como exemplo para sua juventude? Os jovens uruguaios não o merecem.

 

Igualmente tola foi a bisonha tentativa uruguaia de atribuir a punição do mordedor à imprensa do Brasil,  aliás mais brada do que a europeia na forma como tratou do assunto. De resto, nem que o buscassem, nossos jornalistas não teriam meio de influir na deliberação dos juízes da FIFA. Alegar que Suárez foi afastado por conta de uma conspiração da seleção brasileira, supostamente receosa de novo “maracanazo”, foi ainda mais ridículo.  É muita pretensão imaginar tal receio: o escrete uruguaio, nesta Copa, manteve-se bem longe do rol dos reais  candidatos ao título. Tanto é que sua eliminação não surpreendeu ninguém.

 O triste papel de Suárez foi a única mancha na alegria de quem, como eu, vinha cantando neste campeonato “Soy loco por ti, América”. Mas foi só isso, foi o único travo. Ainda temos, sim senhor, amplo motivo de júbilo. Muitos imaginaram que a Copa do Mundo de 2014 ia consagrar plenamente a hegemonia do futebol europeu. De fato, Alemanha, Holanda, Bélgica e França  têm tido bons desempenhos. Mas a safra americana é brilhante. Espanha, Inglaterra, Itália e Portugal deram adeus na primeira fase, ao tempo que desabrocharam lindas surpresas americanas: México, Chile, Colômbia e Costa Rica são novas potências de que ninguém poderá fazer pouco dagora em diante. Seu futebol cresce e aparece, promete safras maravilhosas. E já merece o máximo respeito. A hegemonia gringa deixou de ser inquestionável. Brasil e Argentina estão bem vivos. E o Uruguai ressuscitará.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).