Equipes alternativas que gostamos – Linhares EC 94

  • por Matheus Mota
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De pé: Canário, Ivan Baiano, Sílvio, Rocha, Hiran e Cerezo; agachados, Tinco, Tião, Cássio, Arildo Borges e Leandro. Com esse elenco, o Linhares foi campeão capixaba de 93. Foto: Reprodução

De pé: Canário, Ivan Baiano, Sílvio, Rocha, Hiran e Cerezo; agachados, Tinco, Tião, Cássio, Arildo Borges e Leandro. Com esse elenco, o Linhares foi campeão capixaba de 93. Foto: Reprodução

É sabido que o futebol brasileiro é muito polarizado, já que as equipes das regiões Sul e Sudeste levam enorme vantagem sobre as do restante do país. Isso não é querer diminuir o tamanho de equipes como Bahia, Santa Cruz e Remo, por exemplo, mas é fato que o número de conquistas nacionais desses times é bem menor que a de clubes do eixo sul do Brasil. Quando um deles, mesmo que grande em seu estado e/ou região, supera um grande do Sul/Sudeste, isso é tratado como zebra. Um dos exemplos mais claros é a decisão da Copa do Brasil de 2008 entre Sport e Corinthians.

No entanto, indo por essa direção, é possível cravar uma exceção: o Espírito Santo. Dos estados do Sul/Sudeste, é o que possui menor expressividade no futebol nacional. Os clubes capixabas nunca tiveram desempenhos brilhantes em competições nacionais e é possível dizer que, em se tratando de futebol, o Espírito Santo se fechava em si mesmo.

Neste cenário, chama atenção a brilhante campanha do Linhares na Copa do Brasil de 94, pois além de ter sido algo sem precedentes, foi um feito nunca mais igualado por um clube capixaba. Até aquele momento, o futebol do Espírito Santo já contava participações na elite do futebol brasileiro, mas sempre em campeonatos com mais de 30 times, organizados de maneira, digamos, singular. Na Copa do Brasil, a despeito de ter mandado esquadrões de estirpe, como Ibiraçu e Muniz Freire, a barreira da primeira fase ainda não havia sido superada.

O feito do Linhares é ainda mais singular pela equipe ter surgido em 91 a partir de uma fusão frustrada entre o Industrial e o América, ambos da cidade de Linhares. Ironicamente, foi justamente este malogro que lançou as bases para a histórica campanha na Copa do Brasil.

Os dois clubes, apesar de terem sido fundados no início do século XX, nunca haviam tido muito destaque no cenário capixaba. Por conta disso, mesmo com tanto tempo de vida, optaram por um projeto de fusão peculiar – a estrutura esportiva tornar-se-ia uma, mas, patrimonialmente, as duas instituições permaneceriam divididas. Para evitar conflitos, o nome e as cores escolhidas (azul e branco) eram as mesmas da cidade de Linhares.

A política logo deu resultados, e o recém-criado clube foi muito bem nos estaduais de 91 e 92, quando caiu apenas nas semifinais. O tão almejado título foi comemorado em 93, conquista que lhe daria a vaga na Copa do Brasil do ano seguinte.

Sobre o título de 93, a equipe comandada por Jorginho Namorador realizou uma campanha das mais pragmáticas, com 9 vitórias e 10 empates em 20 partidas, marcando 25 gols e levando apenas 11. Já nesse campeonato, uma das armas do Linhares na Copa do Brasil já se apresentava: Arildo Borges, ponta esquerda com uma habilidade rara em cobrança de faltas. Arildo foi fundamental para o título, pois marcou, de falta, um gol na partida de ida das finais contra o Aracruz.

Nos bastidores do clube após o título, a parte da diretoria oriunda do Industrial viu que haveria a necessidade de um maior investimento no time e propôs a fusão integral. No entanto, os mandatários do lado do América, além de terem rejeitado a proposta, retiraram todo o apoio ao Linhares. Com a separação consumada, o Industrial optou por adotar em definitivo a identidade de Linhares EC.

Contra o Aracruz, o Linhares se sagraria campeão capixaba de 93, garantindo a vaga na Copa do Brasil do ano seguinte. Foto: Reprodução

Contra o Aracruz, o Linhares se sagraria campeão capixaba de 93, garantindo a vaga na Copa do Brasil do ano seguinte. Foto: Reprodução


Mesmo com um ambiente tão conturbado, o Linhares conseguiu montar aquela que é apontada como a melhor equipe capixaba de todos os tempos, juntando atletas que haviam participado da conquista do ano anterior, caso do já citado Arildo Borges e do lateral esquerdo Cerezzo, com jogadores de certo nome no futebol nacional, como o meia Dico Maradona, campeão brasileiro pelo Bahia, o atacante Vandick – que anos depois teria uma passagem marcante no Paysandu -, e o lateral direito Carlos Alberto Kao Yien, o popular China, que chegou no Espírito Santo após passagens pelo Grêmio e pela Inter de Limeira. Somado a isso, haviam revelações do futebol capixaba, casos do lateral Rogério Tatu e sobretudo do goleiro Hiran. Nascido na própria Linhares, Hiran não só se destacou em clubes tradicionais, como Internacional e Guarani, como também possui uma trajetória ímpar no desporto nacional, como ter sido homenageado com um minuto de silêncio após ter sido dado como morto, e claro, por estar em atividade até hoje.

Com a tabela da Copa do Brasil confirmada, o destino reservou um grande adversário logo de cara: o Fluminense, que mesmo que não estando em seus melhores dias, era franco favorito e contava com nomes como Branco e Ézio. Para completar, o primeiro jogo seria no Rio de Janeiro, no estádio das Laranjeiras (outros tempos do futebol brasileiro). Em uma partida movimentada, o Linhares saiu do Rio com um ótimo 2×2, sendo que esteve na frente do placar em duas oportunidades. No jogo de volta, no estádio Engenheiro Araripe, em Cariacica, a vaga parecia estar perdida com o gol do Fluminense, marcado pelo atacante Luiz Henrique, aos 44 do 1º tempo. O Linhares só conseguiu alcançar o resultado aos 43 do 2ª tempo, com Arildo Borges, que, assim como no jogo do Rio, marcou de falta. O 1×1 bastou para que os capixabas passassem de fase. Ah, Arildo Borges marcou um gol nas duas partidas, ambos de falta.

Após passar pelo Fluminense, o Linhares enfrentaria o São José do Amapá, que, assim como os próprios capixabas, era considerado um azarão, e havia superado um adversário de um centro mais tradicional, no caso o Nacional-AM, com duas vitórias por 2×1. Após um empate sem gols em Linhares, a decisão ficou para o jogo da volta, no Zerão, em Macapá. No Amapá, o São José abriu 2×0, mas o Linhares conseguiu reverter o placar, com gols de Varela pelo São José, e de China, Rocha e dois de Arildo Borges – de falta – para os visitantes.

Após passar pelos amapaenses, a 3ª fase colocaria o Comercial-MS como adversário. Para chegar às quartas de final, o Comercial passou do Paysandu na primeira fase nos pênaltis. Depois, venceu o Kaburé-TO (dois 2 x 0). Na estreia do técnico Gilberto Alves, ou simplesmente Gil, que substituiu Jorginho Namorador, o Linhares soube se aproveitar do fator casa e venceu em seus domínios pelo placar mínimo, gol de Vandick. No jogo da volta, o empate em 1×1 (gols de Gersinho e Neilor, para o Linhares e Comercial, respectivamente) levou os capixabas para as semifinais. Até ali, foram 2 vitórias e 5 empates, em uma campanha que lembrava a do título capixaba de 93.

Linhares x Ceará pela semifinal da Copa do Brasil 94. Foto: Reprodução.

Linhares x Ceará pela semifinal da Copa do Brasil 94. Foto: Reprodução.

Enquanto em uma semifinal Grêmio e Vasco da Gama fariam um confronto digno de uma final de Brasileiro, a outra teria um nada menos que um épico Linhares x Ceará. Novamente, o Linhares era considerado o azarão da parada, pois além do Ceará ser um gigante regional, havia passado por Palmeiras e Internacional. Além disso, o Vozão vinha em uma ascendente desde que Dimas Filgueiras assumira o comando técnico.

No primeiro jogo da semi, no Ceará, o Linhares não conseguiu criar grandes chances, a despeito de trabalhar muito bem a bola. O Ceará, jogando de maneira mais direta, criou as melhores chances do jogo, fazendo com que o goleiro Hiran trabalhasse mais do que o recomendável. O empate sem gols foi um castigo pelo que o Ceará produziu e um prêmio não muito merecido para o Linhares.

Fosse como fosse, as coisas ainda estavam em aberto. Os capixabas teriam que mandar o jogo na capital, Vitória, pois o estádio Guilhermão não atendia os requisitos mínimos estabelecidos pela CBF. No mais, os torcedores capixabas, apesar do otimismo e orgulho pela campanha, não tinham motivos para acreditar que o LEC passaria, afinal o time já havia feito o improvável na primeira fase.

Iniciada a partida, viu-se que ela era uma extensão do jogo de ida: o Linhares trabalhava bem a bola, mas não conseguia concluir com muito perigo, enquanto o Ceará levava certa vantagem com jogadas mais diretas. As coisas ficaram nessa toada até os 37º do 1º tempo, quando o atacante Sérgio Alves colocou os visitantes na frente, o que forçava o Linhares a fazer 2 gols para ficar com a vaga.

Após o gol do Ceará, o Linhares tentou colocar mais velocidade em seu jogo, mas não conseguiu criar muitas chances. O dia era um daqueles em que nada dava certo, nem mesmo as sempre perigosas cobranças de falta de Arildo Borges. Com a vantagem no placar, o Ceará jogava no contra-ataque e tinha as melhores chances do jogo. No final do segundo tempo, o time nordestino ainda estava com uma condição física relativamente boa, enquanto o adversário estava esgotado. Foi com esse cenário que o juiz, Sidrak dos Santos, decretou o final do jogo. As comemorações de um lado e as lamentações de outro não foram muito efusivas, dado o desgaste das duas equipes.

Mesmo com a eliminação, o clima era de orgulho e de esperança para o futuro. Contudo, o otimismo depositado em um novo projeto para o futebol capixaba não se concretizou. O próprio Linhares, que surgiu com o objetivo de se protagonista no futebol estadual e nacional, sucumbiu, sofrendo com más administrações e, finalmente, deixando de existir. Atualmente, a cidade é representada por outro clube, o Linhares FC, fundado em 2001, e que já conquistou um título estadual. Pouca coisa mudou no futebol capixaba desde a campanha de 94, o que nos leva a crer que a trajetória do Linhares na Copa do Brasil ocorreu apesar dos pesares que o cercava.

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Paulista e torcedor do Santo André. Historiador, acompanha o futebol como um todo, mas sobretudo o lado mais alternativo da coisa.

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