A África no Mundial de Clubes 2014

  • por Matheus Mota
  • 3 Anos atrás
Zamalek x Vita Club pela CAF Champions League 2014. Foto: Reprodução

Zamalek – EGI (branco) x Vita Club – RDC (auri-negro) pela CAF Champions League 2014. Foto: Reprodução

O Mundial de clubes ainda está longe, por isso não tem se falado muito nele (ainda mais porque é quase certo que o Real Madrid sairá vencedor). Se, em um eventual milagre, o “fortinho” Ortigoza conseguir marcar qualquer jogador do time espanhol e o San Lorenzo conquistar a taça, é certo que em Boedo haverá manifestações pela canonização do papa Francisco ainda em vida. Imaginem um estádio chamado San Francisco de Boedo? É possível.

Contudo, estamos falando de um Mundial, ou seja, haverá outros times na brincadeira. Ainda que a maior parte deles não tenha alcançado o status de protagonista, Mazembe e Raja Casablanca estão aí pra provar que os demais não são uma nulidade (menção honrosa ao Al Ahly, que sempre participa de maneira briosa, fazendo campanhas dignas).

Indo nessa direção, é bom dar uma olhada nas competições continentais. Por ora, fiquemos na África – que, vale lembrar, terá dois times na competição, sendo o campeão do Marrocos, país sede, um deles -, onde a Liga dos Campeões local já está na semifinal, e com algumas surpresas. A primeira é que o Al Ahly, time que parecia ter vaga automática no Mundial, não irá para o Marrocos. O clube, que só voltou a participar de competições nacionais nesta temporada (o campeonato egípcio estava suspenso desde 2011), não empolgou em nenhum momento, precisando dos pênaltis para superar o Young Africans, da Tanzânia. Na fase seguinte, não resistiu e caiu para o xará Al Ahly de Bengasi, da Líbia, por 4×2 no placar agregado, o que representou um feito notável para o futebol líbio. Vale lembrar que a Líbia ainda não está estabilizada, e o campeonato local passava por situação semelhante ao do egípcio. Outro fato a se destacar é a presença do Atlabara, primeiro clube do Sudão do Sul a participar da competição máxima do futebol africano. Ainda que o sonho tenha durado pouco (eliminação nos pênaltis ante o Berekum Chelsea, de Gana), valeu a experiência.

No mais, os clubes do norte da África mais uma vez levaram vantagem sobre os do centro e sul do continente: dos oito times que foram para a fase de grupos (a CAF Champions League possui três fases em mata-mata), seis – Setif da Argélia, Espérance e Sfaxien da Tunísia, Al Hilal do Sudão, Zamalek do Egito, e o já citado Al Ahly da Líbia – são da região, sendo que do centro-sul da África, Vita Club e Mazembe são do mesmo país, a República Democrática do Congo.

Antes de prosseguir, cabem aqui algumas notas. Primeiramente, é preciso falar sobre o mau desempenho dos clubes sul-africanos. Apesar do país ter uma das economias mais pujantes do continente, e de seus clubes disporem de um capital financeiro considerável, as equipes sul-africanas não conseguem fazer boas campanhas na competição, tanto que perderam o direito de mandar dois times para o certame. Desde que a Copa de 2010 foi realizada, o único clube a conseguir ir para a fase de grupos foi o Orlando Pirates, em 2013, quando ficou com o vice. Outro ponto é que, com exceção do argelino Setif, nenhum dos times que disputaram vaga para as semifinais pertence a países que participaram das últimas duas Copas do Mundo. Os problemas vistos com as seleções de Gana e Camarões, só para ficar nessas duas, não são pontos isolados: eles refletem a realidade dos campeonatos locais.

Voltando ao tema principal, a fase de grupos terminou, e as semifinais já foram definidas: Setif x Mazembe e Vita Club x Sfaxien. Sobre os confrontos em si, é difícil dizer quais são os favoritos.

Em relação ao primeiro, o Mazembe possui alguma superioridade, pois mantem uma base há mais tempo, além de ter conquistado o último campeonato nacional de maneira invicta, justificando a alcunha de “Todo Poderoso” que carrega no escudo. Das últimas cinco edições da CAF Champions League, os congoleses conquistaram dois e chegaram em uma semifinal. Dos jogadores que venceram o Inter no Mundial, cinco ainda estão no elenco, dentre eles o goleiro Kidiaba, certamente a figura mais emblemática daquele time.

Será que o veremos no Marrocos? Foto: Reprodução

Será que o veremos no Marrocos? Foto: Reprodução

Da parte do Setif, o clube foi se acertando durante a competição, pois de julho de 2013 até o início do torneio, em fevereiro deste ano, foram quatro as trocas de treinadores. No final das contas, tudo deu certo e sob o comando do até então interino Kheïreddine Madoui – que já está de contrato assinado até o ano que vem -, o time está em vias de realizar sua melhor campanha desde a conquista do título continental de 88. De quebra, o Setif tem o artilheiro da competição, o atacante Belameire (6 gols). Será um duelo interessante, pois o Mazembe venceu todas as partidas que realizou em casa e não perdeu fora, enquanto o Setif, na fase de grupos, empatou os 3 jogos em casa, assegurando a classificação como visitante, com 2 vitórias e 1 empate.

Na outra semifinal, o Sfaxien pode ser considerado favorito por ter mais experiência internacional. Nos últimos anos, os tunisianos conquistaram a Copa das Confederações (segundo torneio mais importante no continente) em 2007, 2008 e 2013 e essa bagagem permitiu uma campanha segura, que teve como maior sobressalto uma derrota de 2 x 1 fora de casa para o Esperánce, que, no final das contas, não influiu muito. Uma eventual conquista da Champions League seria a primeira do clube.

O Vita Club, por sua vez, conquistou a Copa em 73, e desde então, só fez campanhas relevantes em 78 e 81, com uma semifinal e um vice, respectivamente. Ao contrário de seu adversário, o Vita chegou até aqui fazendo o arroz com feijão. O ponto mais alto foi a vitória em casa contra o Kaizer Chiefs por 3 x 0, todos marcados pelo atacante Mumbele, destaque do time na competição. Pesa a favor dos congoleses o fato de que em um mata-mata um arroz com feijão bem feito pode ser suficiente. Além disso, se há pouca experiência internacional, a chance de acabar com um jejum de 41 anos tem alto poder motivacional.

As partidas de ida e volta das finais estão previstas para ocorrer entre os dias 24 e 26/10, e 31/10 e 02/11, respectivamente. Até o momento, não se sabe se algum canal de televisão por aqui transmitirá os embates, mas é muito provável que tenhamos que recorrer à criatividade, além de um senso de moral dúbio, para acompanhar essas pelejas. Para os mais pacientes, o Mundial está logo aí, e quem sabe daqui não saia um novo candidato à zebra?

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Paulista e torcedor do Santo André. Historiador, acompanha o futebol como um todo, mas sobretudo o lado mais alternativo da coisa.