A pedido dos clubes, jogadores se tornam palestinos

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A malandragem sempre esteve presente no futebol. Os brasileiros sofreram com as catimbas argentina e uruguaia por muitos anos. A simulação de faltas remete logo à cultura brasileira. Mas, com a globalização, estas e muitas outras práticas para ganhar vantagens indevidamente não podem mais serem atribuídas a algum grupo ou nacionalidades específicas. Seja pela disseminação ou pelo maior acesso à informação que nos permitiu ver cada vez mais malandros pelo mundo futebolístico.

Já contamos aqui a história de um senegalês que conseguiu jogar a Premier League na base do trote telefônico. Vimos Frank Lampard marcando gol no seu ex-time, o Chelsea, no último fim de semana, e isso não seria possível se uma malandragem não tivesse sido utilizada: contratar jogadores via franquias e repassá-los à matriz via empréstimo gratuito, driblando assim o fair play financeiro, que limita transferências milionárias.

Os malandros da vez são os clubes dos Emirados Árabes. Segundo o regimento da federação do país (e da maioria dos países da Ásia, incluindo a China), cada clube pode contar com quatro estrangeiros, desde que um deles seja asiático. Ou seja, um time dos Emirados pode contar com no máximo três sul-americanos, por exemplo. O quarto estrangeiro só seria permitido se ele fosse cidadão de algum país da Ásia. Mas essa regra começa a ser driblada.

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Luis Jiménez atuando pelo Al Ahli em 2014

Tudo começou em meados de 2013, quando o Al Ahli requisitou a inscrição do chileno Luis Jiménez na vaga destinada aos asiáticos. Jiménez, ex-jogador de Parma, Fiorentina e Inter de Milão, e de vasta presença na Seleção Chilena, obteve o passaporte palestino. Perguntado sobre sua relação com a Palestina, ele se limitou a dizer que jogou por muito tempo no Palestino, um clube chileno que representa o povo de origem palestina presente no Chile, não esclarecendo sua relação com esse grupo ou apresentando raízes com a nação asiática.

O precedente foi aberto e outros clubes, verificando a facilidade burocrática de conseguir o passaporte palestino, começaram a solicitar a algum de seus jogadores gringos a fazerem o mesmo. E claro, tem brasileiro na história.

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Jucilei é o camisa 11 do Al Jazira

Há alguns meses, a mídia brasileira publicava com certo ar de espanto que o ex-corintiano Jucilei havia se tornado palestino a pedido do Al Jazira, seu clube atual. Isso no auge dos conflitos entre israelenses e palestinos, na Faixa de Gaza. Indagado sobre a situação, Jucilei proferiu as seguintes palavras ao Globo Esporte:

– Para falar a verdade, não acompanho muito. Sei dos conflitos, mas não me aprofundo. Agora, talvez, eu passe a acompanhar um pouco mais. O passaporte palestino foi por acaso. O clube me ofereceu para que eu pudesse entrar como asiático e eu topei. É bom para mim e para o clube, pois não entro na cota de estrangeiros – explicou.

Divulgação / Site Oficial Al Sharjah

O palestino Maurício Ramos atuando pela Liga local (Divulgação / Site Oficial Al Sharjah)

Seguindo os passos de Jucilei, mais dois brasileiros fizeram o mesmo. Maurício Ramos, zagueiro que jogou 4 anos no Palmeiras, foi um dos destaques da última temporada atuando pelo Al Sharjah. A pedido do clube, foi inscrito na vaga asiática na temporada que se iniciou recentemente. Graças ao novo passaporte do zagueiro, o atacante Luan, ex-Palmeiras e Cruzeiro, pôde ser contratado. Ainda atuam no Al Sharjah o atacante Wanderley, ex-Flamengo, e Léo Lima, que chegou para substituir Fellype Gabriel após grave lesão que o deixa fora de combate até o fim da temporada.

Fábio Lima nos seus tempos de São Paulo (Divulgação SPFC)

Fábio Lima nos seus tempos de São Paulo (Divulgação SPFC)

O meia Fábio Lima com passagens por Icasa, Atlético-GO e São Paulo, chegou esperançoso ao Vasco em 2013 para construir uma carreira. Sem sucesso, ainda regressou ao Atlético-GO antes de assinar com Al Wasl. Agora palestino, Fábio, de apenas 21 anos, abriu uma vaga e permitiu a chegada do atacante Caio, que estava no Vitória emprestado pelo Internacional. Também atuam no Al Wasl os brasileiros Neto Berola, ex-Galo, e o atacante Éderson, artilheiro do último Brasileirão jogando pelo Atlético-PR.

Ao contrário de Jiménez, os três brasileiros podem atuar pela seleção palestina se forem convocados. Inclusive Jucilei, que já atuou pelo selecionado brasileiro em amistosos (nunca, no entanto, em competições oficiais).

Quem diria que ser palestino viraria um negócio?

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