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Jogos históricos da Liga dos Campeões: Deportivo 4×0 Milan

Foto: Reprodução | "O milagre do Riazor acontece", disse o narrador da Espn

Foto: Reprodução | “O milagre do Riazor acontece”, disse o narrador da Espn

Faltou futebol na quarta-feira à tarde? Horário propício para uma partida de Liga dos Campeões da Uefa. Não a atual: uma das quartas de finais da histórica edição de 2003-2004. Às vésperas do início do torneio da nova temporada, o Doentes Por Futebol relembra uma das maiores viradas que a UCL presenciou desde o seu novo formato: a remontada do Deportivo La Coruña ante o Milan de Carlo Ancelotti, que defendia o título da orelhuda.

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O Deportivo havia chegado às quartas após terminar em segundo no grupo, com Mônaco, PSV e AEK. Nas oitavas de finais, os galegos despacharam a Juventus com duas vitórias por 1×0. Por sua vez, o Milan teve bastante dificuldades para passar ao mata-mata como primeiro colocado do grupo H. Os rossoneros fizeram 10 pontos em 18 disputados, um a mais que o Celta Vigo, que terminou em segundo. Brugge e Ajax, com pífias participações, ficaram para trás. Na fase seguinte, o Sparta Praga não ameaçou a classificação milanesa. Após o empate por 0x0 na República Tcheca, o Ancelotti Team goleou por 4×1 no San Siro.

Eis então que Deportivo e Milan finalmente se encontraram para o primeiro jogo. Em Milão, um passeio à italiana: 4×1 para os rubro-negros, com direito a show de Kaká, autor de dois gols. Na volta, o Milan até pressionou no início, fazendo com que o goleiro Molina tivesse seu nome cantado pelos (muitos) torcedores blanquiazules presentes no Riazor.

A marcação no meio-campo que avançou em Pirlo e sufocou Seedorf pela esquerda cometeu o mesmo erro do primeiro jogo: deixou Kaká livre. O brasileiro dominou nos primeiros cinco minutos, com arrancadas perigosas e a onipresença no setor ofensivo. Mas foi Tomasson quem teve a bola para sepultar a classificatória. Depois de boa jogada de Cafú pela direita, o dinamarquês não aproveitou a desatenção defensiva do Depor para abrir o placar. Pior para o Milan. Na jogada seguinte, aos sete minutos, o primeiro gol do jogo saiu. Romero cruzou da esquerda, Pandiani se antecipou a Maldini e chutou firme, de canhota, para estufar as redes de Dida.

Após o susto inicial e o tento do uruguaio, o Deportivo passou a pressionar e dominar a partida com velocidade e toque de bola acima da média. Postado em um 4-2-3-1, o time de Irureta criava boas ocasiões pelos lados do campo, especialmente pelo esquerdo, onde Victor foi um pesadelo para Cafu. Kaká passou a ser controlado aos poucos, mas ainda teve uma ótima oportunidade para empatar. Após lançamento de Nesta no campo de defesa, o brasileiro deixou Naybet para trás com facilidade; no entanto, cara a cara com Molina, não conseguiu vencer o arqueiro espanhol, que se recuperou rápido.

Envolvente, o Deportivo, com intensidade e verticalidade, avançava cada vez mais as linhas. Dida salvou duas vezes, depois dos chutes de Luque e Victor, mas falhou no segundo tento espanhol. Aos 35 minutos, o brasileiro saiu mal do gol após mais um cruzamento de Romero, e Valerón (o eterno Valerón) cabeceou às redes vazia. Desnorteado, lento e carente de criatividade graças à má noite de Pirlo, o Milan já parecia pressentir o pior. E aos 44 minutos, o Riazor explodiu de vez. Na tentativa de cortar uma bola próximo da intermediária, Nesta falhou e Luque, entrando em diagonal pela esquerda, fuzilou. Era o terceiro gol do La Coruña, que já tinha a classificatória nas mãos graças ao critério de gols marcados fora de casa.

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No retorno para o segundo tempo, os espanhóis seguiram no mesmo ritmo. Pirlo confirmou a fraca exibição perdendo uma bola no meio-campo que quase gerou o quarto gol blanquiazul. Pandiani roubou e lançou Luque, que bateu por cima de Dida. Mauro Silva e Sergio garantiram consistência e solidez ao meio-campo, permitindo que a disciplinada linha de três à frente, formada por Valerón, Luque e Victor, levasse perigo constante às redes italianas.

Luque e Valerón deixaram o campo para as entradas de Fran e Djalminha, que estava em baixa no clube depois da polêmica cabeçada no treinador Irureta dois anos antes. A torcida dava show, inflamava o estádio e o time desfilava classe. Aos 31, o Deportivo tratou de triturar o Milan de vez. Fran ganhou de um estabanado Gattuso na entrada na área e chutou para o gol. A pelota desviou em Cafu, enganou Dida e confirmou a vexatória eliminação do Milan. Seguro defensivamente, os galegos fechavam os espaços e evitavam sofrer o gol que levaria o jogo à prorrogação, à espera do apito final do árbitro. Quando o suíço Urs Méier encerrou o jogo, os torcedores comemoravam com orgulho a primeira passagem do Deportivo a uma semifinal de Liga dos Campeões.

No mês seguinte, a aventura dos comandados de Irureta acabou de maneira cruel: uma derrota para o Porto de José Mourinho, no mesmo Riazor que assistiu à grande virada contra o Milan. O time de Carlo Ancelotti, por sua vez, afogou suas mágoas conquistando o título italiano da temporada. Era o último título nacional do Milan antes do domínio da rival Inter.

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Deportivo 4×0 Milan
Data: 7 de abril de 2004.
Estádio: Riazor, em La Coruña, na Espanha.
Gols: Pandiani, aos 5min, Valerón, aos 35min, Luque, aos 44min, do primeiro tempo; Fran, aos 31min, do segundo tempo.
Ida: Milan 4×1 Deportivo.
DEPORTIVO (4-2-3-1): Molina; Manuel Pablo, Jorge Andrade, Naybet, Romero; Mauro Silva, Sergio (Duscher); Valerón (Djalminha), Luque (Fran), Victor; Pandini.
MILAN (4-3-1-2): Dida; Cafu, Nesta, Maldini, Pancaro (Rui Costa); Pirlo (Serginho), Gattuso, Seedorf; Kaká; Tomasson (Inzaghi), Shevchenko.

Melhores momentos da partida:

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa Esporte@Globo da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.