Pinturas Inesquecíveis: Zidane e o voleio

  • por Leandro Lainetti
  • 3 Anos atrás

GOL FINAL UCL CONTRA LEVERKUSEN TERMINADO

Zinedine Zidane nunca foi comum com a bola nos pés. Talvez por isso evitasse cabecear, ainda na juventude, qualquer cruzamento que viesse na direção dele. Simplesmente abaixava e deixava a pelota passar. Grande ironia ter anotado dois gols na final da Copa do Mundo de 1998 utilizando-se de um recurso que raramente ele preferia.

Zinedine Zidane nunca foi comum com a bola no pés. Fosse no direito ou no esquerdo, sempre a domou sem grito ou chicote. Ela o respeitava. Não por menos, já que era tratada com raro carinho e afeto. A chuteira de Zizou a carregava como uma filha, um canguru filhote na bolsa da mãe. Cada toque uma carícia, cada domínio um afago, cada chute uma demonstração de amor. Cada golaço um regozijo.

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Chuteira clássica do craque Zidane. Adidas a relançou recentemente, clique na imagem e saiba mais.

Podem perguntar para aquela bola da final da Champions League da temporada 2001-2002 se ela não se sentiu exatamente assim. Mais: podem perguntar se ela não se sentiu única na história. Dos pés de Solari para os de Roberto Carlos, dos pés de Roberto para os céus, e dos céus ela sorriu. O destino eram as chuteiras pretas do regente da orquestra, do artista clássico. Então vislumbrou. Não precisou de bola de cristal para saber que o encontro final seria com os infinitos fios de nylon entrelaçados. A rede.


Agora voltemos ao maestro. No instante em que a bola viajava aos céus, Zidane a mirava. Nunca treinara os movimentos que iria fazer alguns segundos depois, tampouco precisasse. Gênios são instintivos. Pensam e executam com a rapidez, frieza e precisão de deixar um atirador de elite com inveja. A clarividência é um dom presente nestes casos e, ali, ele já sabia todo o desfecho daquele lance.

Como passos de uma dança insistentemente ensaiada ele começou: foi diminuindo a passada, posicionou o corpo, parou por um, talvez dois segundos – que para ele eram a eternidade – inerte na mesma posição apenas esperando o momento certo. Iniciou o giro, movimentou as pernas, abriu os braços para achar o equilíbrio, calibrou o pé e fez a mágica acontecer. Bola na rede, cerveja aos ares, torcedores ensandecidos, narrador enlouquecido.

Os gênios libertam emoções. E também assinam paradoxos, como fez Zizou. Uma obra de arte criada em tão pouco tempo, guardada por toda a eternidade.

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Jornalista trabalhando com marketing, carioca, 28 anos. Antes de mais nada, não acredito em teorias da conspiração. Até que me provem o contrário, futebol é decidido dentro das quatro linhas. Mais futebol nacional do que internacional. Não vi Zico mas vi Romário, Zidane, Ronaldinho, Ronaldo. Vejo Messi e Cristiano Ronaldo. Totti é pai.