Quando um vale mais que dois

  • por Lucas Sousa
  • 3 Anos atrás
Arte: Doentes por Futebol

Arte: Doentes por Futebol

Certamente você já ouviu alguém falar que nada é impossível no futebol ou que existem algumas coisas que só o futebol pode proporcionar. O esporte como um todo não tem lá muita lógica. Tanto que, no futebol, um pode valer mais que dois. Não só pode como, em diversos casos, vale.

Pergunte a um torcedor do Liverpool ou do Borussia Dortmund e ele, com certeza, dirá que um vale muito mais que dois. Sem dúvidas, um red daria Mario Balotelli e Rickie Lambert (talvez até inclua Fabio Borini como brinde) para ter Luis Suárez de volta. Assim como um aurinegro, para ter Robert Lewandowski vestindo amarelo e preto novamente, abriria mão de Ciro Immobile e Adrián Ramos. Liverpool e Borussia não fazem uma boa temporada, muito por causa da dificuldade para suprir a enorme perda que tiveram. Muito porque dois não substituem um.

O Borussia Dortmund já sabia há algum tempo que Lewandowski deixaria o clube. Propostas não faltaram antes de a temporada passada começar. Os jornais divulgavam números próximos a 80 milhões de euros e a transferência era iminente, até porque só restava mais um ano em seu contrato. Se não vendesse Lewandowski naquele momento, em seis meses o jogador poderia assinar um pré-contrato com qualquer clube e o Borussia não teria praticamente nenhum retorno financeiro.

Foi a escolha dos aurinegros. Trocaram 80 milhões de euros por mais uma temporada com o polonês no comando de ataque. Na época, era uma escolha compreensível. O Dortmund havia chegado à final da Liga dos Campeões e a confiança estava no topo. Não dava pra prever as diversas (e constantes) lesões e que o time não se encaixaria mais.

Para suprir a ausência do seu principal atacante na temporada seguinte, o Borussia Dortmund teria que ir ao mercado. Teve tempo para observar as melhores opções e continuou no caminho que o levou ao alto nível no futebol do continente: investir em jogadores que estão começando a despontar no cenário europeu. Apostou em Ciro Immobile, de 24 anos, artilheiro do campeonato italiano pelo Torino com 22 gols, para ser o novo goleador do time. Como uma opção a mais, fechou também com Adrián Ramos, ex-Herta Berlim, acostumado com a Bundesliga, e que teve uma temporada de 16 gols.

Foram duas boas contratações, mas ainda não engrenaram com a camisa amarela. Immobile e Ramos têm uma média de 0,2 gols cada – Lewandowski, na temporada passada, alcançou 0,6. Na atual, a dupla do Borussia marcou 4 gols na Bundesliga, dois a menos que o agora atacante do Bayern. Mesmo assim, o italiano demonstra que pode ser o novo artilheiro do Dortmund. Vivendo altos e baixos, balançou as redes cinco vezes nas últimas dez partidas, um bom número se levarmos em conta que é sua primeira experiência no futebol alemão.

O grande problema é que nenhum dos novos atacantes tem o poder de decisão do antigo camisa 9. Apenas um dos seis gols de Immobile modificaria o resultado caso não tivesse sido marcado. Em outras palavras, cinco gols marcados pelo italiano “não fariam falta” ao Borussia. Esse número mostra que ele não está sendo tão decisivo quanto se esperava.

Diferente do Borussia, o Liverpool não recusou uma proposta beirando os 80 milhões e Luis Suárez seguiu para o Barcelona. O uruguaio queria sair e o clube aproveitou para fazer muito dinheiro com ele. Obviamente, a perda era enorme. Suárez foi o grande destaque dos Reds e um dos jogadores mais decisivos do mundo na última temporada, marcando 31 gols e servindo seus companheiros por 12 vezes em 33 partidas pelo Inglês. Apenas Alan Shearer e Andy Cole marcaram mais que ele em uma única edição de Premier League. Enfim, Lusito saiu pela porta da frente.

Além de buscar novos atacantes, o Liverpool usou o dinheiro da venda de Suárez para reforçar todos os setores e por isso não levou um nome de ponta para o setor. Balotelli e Lambert chegaram à terra dos Beatles.

Lambert fez uma boa temporada pelo Southampton, com 13 gols e 10 assistências. Aos 32 anos, não se esperava que fosse um grande artilheiro com a camisa dos Reds, mas também não se esperava atuações tão ruins. O atacante, que esteve no Brasil disputando a Copa do Mundo, não tem um gol sequer em 12 partidas com a camisa vermelha. Balotelli não fica muito atrás: um gol contra o Ludogorets, um contra o Swansea e só. Assim como Lambert, passou em branco 12 vezes nesta temporada, números horríveis para qualquer atacante.

A ausência de Daniel Sturridge, vice-artilheiro na temporada passada com 21 gols, também pesa muito, e seu retorno pode ajudar Balotelli e Lambert a encontrarem o rumo do gol. Curiosamente, o atacante do Liverpool que mais marcou nesta temporada está emprestado. Divock Origi já fez cinco gols pelo Lille, mais do que qualquer jogador dos Reds. Na escassez que estão enfrentando, poderia ser uma boa opção.

Repor um grande jogador não é nada fácil. O Dortmund seguiu na direção que lhe rendeu alguns ótimos atletas nos últimos anos, como Marco Reus, e apostou em um dos bons atacantes da nova geração. Immobile ainda está longe da fase que o levou à Copa e ao Borussia, mas tem potencial e ainda pode render bons frutos ao clube. Com a mesma idade porém mais rodado, Balotelli já está em sua quarta experiência em um time de ponta e precisa corresponder. É um jogador que já decidiu uma semifinal de Euro contra a Alemanha, mas também perde gols dignos de uma pelada. Ramos e Lambert não criaram uma expectativa como os italianos, mas decepcionam da mesma maneira, ou até mais.

Pelo menos no que diz respeito aos atacantes, para Borussia Dortmund e Liverpool, definitivamente um vale mais do que dois.

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Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.