De Dunga a Xabi Alonso: os papéis se inverteram

  • por Lucas Machado
  • 4 Anos atrás
Arte: Doentes por Futebol

Arte: Doentes por Futebol

Em 1990, na Copa do Mundo disputada na Itália, a Seleção Brasileira que fracassou e foi eliminada nas oitavas de final da competição ao perder por 1×0 pra Argentina ficou conhecida como Geração Dunga. Aquele grupo destoava do futebol bem jogado de outrora ao privilegiar a forte marcação. Classificado como volante pegador, Dunga inaugurou uma nova época no futebol brasileiro, que, na Copa seguinte, em 1994, nos Estados Unidos, teve a sua grande redenção.

Antes acostumados a verem jogadores à frente da defesa do nível de Falcão, Cerezo, Andrade, Adilio, Clodoaldo, entre vários outros, os amantes do futebol brasileiro passaram a ver em campo um volante cada vez menos qualificado com a bola nos pés e com o único intuito de desarmar e proteger a defesa. Frases como “volante bom é aquele que não aparece” e “ele está ali para desarmar e entregar no pé de quem sabe” tornaram-se comuns e vimos surgir atletas como Mancuso, Amaral, Da Silva, Paulo Almeida, Gattuso, De Jong, Gravesen, Nasa, Paulinho. O “estilo Dunga”, campeão em 1994, deu origem a um novo jeito de jogar futebol.

Com um jogo completamente voltado para o resultado, o futebol arte sumiu não só no Brasil como em toda a Europa. Sempre correndo atrás do modelo brasileiro, os europeus, que já tinham um pouco do “dunguismo”, exacerbaram ainda mais esse estilo.

Mas, de uns tempos pra cá, os papéis se inverteram. Os alunos viraram professores e vice-versa. Buscando o futebol bonito e bem jogado, os europeus instalaram uma nova era no esporte. Passes perfeitos, lançamentos longos e posicionamento correto viraram peças-chave para o primeiro volante moderno, personificado por Xabi Alonso, Schweinsteiger, Toni Kroos, Busquets, Blind, Matic e Pirlo. Qualificando a saída de bola e responsáveis por iniciarem as jogadas ofensivas, os volantes foram além do poder de marcação de lado e passaram a ditar o ritmo dos jogos.

Com o futebol europeu como modelo e buscando o reencontro com os times da década de 70 e 80, o futebol brasileiro tem procurado se modernizar. Se pegarmos o Cruzeiro como exemplo, campeão das duas últimas edições do Brasileirão (2013 e 2014), veremos que o toque de bola e preocupação em ditar o ritmo de jogo foram fundamentais nas duas conquistas celestes. Com uma dupla de volantes qualificada – Henrique e Lucas Silva -, o time mineiro liderou 32 das 38 rodadas e conquistou o Brasileirão de 2014 com duas rodadas de antecedência.

O Brasil se perdeu e tenta se achar. O caminho até a reinvenção é doloroso – prova disso foi o 7×1 aplicado pela Alemanha na Copa de 2014. Xabi Alonso, Toni Kroos e Pirlo podem e devem ser modelos, mas o ouro perdido pode ser encontrado na própria essência do esporte nacional, em nomes como Falcão, Cerezo, Clodoaldo e Andrade. A Europa de hoje é o Brasil de ontem. O papel tem que se inverter e, para isso, basta estudarmos um pouco da história do nosso futebol.

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