Os vizinhos

  • por Leandro Lainetti
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romário

Um era rubro-negro. O outro, vascaíno. Naquela final da Copa Mercosul, em 2000, cada um exerceria uma função. Secador e torcedor, respectivamente. Ver o Vasco ser vice só não é melhor do que ver o Flamengo campeão, o que até aquele 20 de dezembro já havia acontecido três vezes, com as derrotas cruzmaltinas no Cariocapara o próprio Flamengo -, no Mundial, para o Corinthians, e no Rio São Paulo, contra o mesmo rival daquela noite que viria a se tornar memorável.

No primeiro jogo, o Vasco havia vencido em São Januário por 2×0. No segundo, no Palestra Itália, deu Palmeiras, 1×0. Por não existir a regra do saldo de gols, a disputa seria decidida em mais uma partida, novamente no estádio do Alviverde, que teve melhor campanha durante a competição. Embora no papel o elenco vascaíno fosse melhor, em campo o favoritismo ficaria exatamente no centro do gramado, sem pender para um lado ou outro.

Com as arquibancadas lotadas, o Palmeiras conseguiu exercer a pressão, até que abriu o placar aos 34 minutos. Marcio Rezende assinalou pênalti que Arce, como de hábito, converteu com tranquilidade. Pela primeira vez na noite, ouviam-se os gritos do vizinho rubro-negro, que mal teve tempo de respirar antes de lançar mais berros pela janela. Logo na saída de bola, o Palmeiras recuperou a pelota. Magrão passou para Tuta, que chutou para defesa de Hélton. No rebote, o mesmo Magrão empurrou para as redes. Em dois minutos o jogo se tornava um pesadelo, que ainda teria mais um momento. Aos 45’, Tuta recebeu e fechou o placar da primeira etapa.

Os quinze minutos de intervalo nunca demoraram tanto a passar para o vizinho vascaíno. Durante todo aquele tempo, era obrigado a ouvir o rubro-negro cantando o coro que, naquela época, estava começando a se tornar tradicional: “ôôôôô, vice de novo!”. Não bastasse a chinelada em campo, ainda era obrigado a passar por aquela tortura quase interminável. Mal sabia ele que, em 45 minutos, tudo iria mudar.

E começou quando Joel sacou Nasa para pôr Viola junto ao quarteto Juninho, Juninho Paulista, Euller e Romário. Se o imponderável pode aparecer no futebol, podem apostar, com um quinteto desses em campo fica muito mais possível. Aos 14 minutos, de pênalti, Romário diminuiu. Os vizinhos ficaram calados. Dez minutos depois, de novo Romário, de novo de pênalti. O vizinho vascaíno veio à rua gritar na janela do rival, que respondeu timidamente, já prevendo o que estava por vir.

A expulsão de Junior Baiano, dez minutos após o segundo gol, serviu apenas para deixar aquela noite mais épica e histórica. Ao 40’, Romário daria a pixotada mais genial de sua carreira, acertando a orelha da bola e, sem querer, acertando um passe açucarado para Juninho Paulista empatar. Enquanto o jogador corria em direção ao banco de reservas para comemorar, o vizinho vascaíno descia a rua na mesma velocidade.

Embaixo da janela do rubro-negro, comemorou muito, esbravejando todo o seu dicionário de impropérios.

Tudo estava tão óbvio, tão cristalino. O novo final já estava escrito, e estranho seria se não se consumasse. Mas o Baixinho estava em campo para garanti-lo. E o Baixinho é sinônimo de história. E de vitória. E de gol. Aos 48’, quando o chute de Juninho Paulista desviou na zaga, só poderia sobrar no pé de um jogador. E foi justamente no dele. Bola no Baixinho, bola na rede. Virada épica. Título memorável.

E os vizinhos? Bom, o vascaíno, que curiosamente também era baixinho, voltou à janela do rubro-negro. Talvez tenha passado a noite inteira ali, talvez tenha gritado até ficar rouco, talvez tenha posto a casa do rival abaixo. O rubro-negro, coitado, certamente sonhou a noite inteira com o tradicional coro: “o Vasco é o time da virada…”

Ficha Técnica:

Palmeiras: Sérgio; Arce, Gilmar, Galeano e Tiago Silva; Fernando, Magrão, Taddei e Flávio; Juninho e Tuta (Basílio). Técnico: Marco Aurélio.

Vasco da Gama: Hélton; Clébson, Odvan, Júnior Baiano e Jorginho Paulista; Jorginho (Paulo Miranda), Nasa (Viola), Juninho Pernambucano e Juninho Paulista; Euller (Mauro Galvão) e Romário. Técnico: Joel Santana.

Placar: Palmeiras 3×4 Vasco (Gols: Arce-PAL (pênalti), aos 36´, Magrão-PAL, aos 37´, e Tuta-PAL, aos 45´do 1º T; Romário-VAS, 14´ (pênalti), 23´(pênalti) e 48´, e Juninho Paulista-VAS, aos 40´do 2º T).

Jornalista trabalhando com marketing, carioca, 28 anos. Antes de mais nada, não acredito em teorias da conspiração. Até que me provem o contrário, futebol é decidido dentro das quatro linhas. Mais futebol nacional do que internacional. Não vi Zico mas vi Romário, Zidane, Ronaldinho, Ronaldo. Vejo Messi e Cristiano Ronaldo. Totti é pai.

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