Pênalti ou vantagem?

  • por Henrique Joncew
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Esta semana, na vitória por 4×0 do Real Madrid contra o Ludogorets na Liga dos Campeões, Cristiano Ronaldo voltou a balançar as redes em cobrança de pênalti. A infração (primeiro lance do vídeo a seguir) foi cometida pelo meia brasileiro Marcelinho, que usou o braço em cima da linha para evitar um gol de cabeça de Varane e foi expulso. Mas a penalidade deveria ter sido marcada?

O rebote da “defesa” parou em Bale, que controlou a bola livre na pequena área com apenas um defensor caído pela frente. O galês finalizou e saiu para o abraço. Mas não valeu, porque durante esses décimos de segundo o árbitro Clement Turpin marcou a falta.

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É fácil falar, depois do pênalti convertido e da vantagem no placar e na quantidade de jogadores em campo, que tudo correu dentro dos conformes. Afinal de contas, o time do infrator foi punido com o cartão vermelho e o gol sofrido. E ainda por cima contra o Real Madrid dentro do Santiago Bernabéu. Perfeito, não?

Não necessariamente! Como dito, é fácil falar isso DEPOIS que tudo correu como descrito. Na hora da marcação, o Real foi privado de um tento muito mais provável (e que acabou ocorrendo!) para ter a possibilidade de anotá-lo da marca da cal. Mas o juiz, naquele momento, também poderia validar o gol de Bale e dar aos merengues a vantagem no placar e punir Marcelinho apenas com um cartão amarelo. A opção pelo pênalti e pela expulsão levou em conta as circunstâncias da partida. Com muito jogo pela frente, seria melhor para o time espanhol jogar contra dez adversários ao invés de onze e ainda poder abrir o placar na cobrança de Ronaldo. Mas o caso serve para levantar um debate interessante.

Acontece que surgiu um mito de que a penalidade máxima é absoluta. Derrubado na área? Mão? Puxão na camisa? Ataque de motosserra? Feijão por baixo do arroz? Bolacha em vez de biscoito? É pênalti e acabou. “Não existe vantagem em pênalti”, dizem doutores cheios de empáfia por aí. Mas isso é errado, não existe nada na regra do futebol que diga uma infração dentro da área deve ser sumariamente assinalada.

Quando ocorre uma falta dentro da área e a bola sobra para alguém que pode marcar, mas ainda tem um marcador pela frente, ou tem que fazer um cruzamento, ou ainda precisa dominar e conduzir a pelota, ou qualquer coisa do tipo para só depois surgir a possibilidade de gol, o correto é assinalar a penalidade. É bastante óbvio que um chute sem marcação com apenas o infeliz goleiro no caminho é muito mais vantajoso que o trabalho de desenvolver até mesmo uma jogada simples.

Mas se no rebote da falta um jogador chega em plenas condições de balançar as redes, como foi o caso de Bale, que estava sozinho e com domínio da bola diante de sete metros de gols escancarados diante de si a bem menos de 11 metros de distância, a oportunidade é ainda mais clara. E aí o juiz deve ter a sensibilidade de avaliar se a chance é melhor até mesmo que um pênalti e também, na conjuntura do jogo, qual a melhor marcação a assinalar: a penalidade ou a vantagem. Deixar o jogo correr é uma atitude arriscada, claro, porque se o jogador errar por falha própria, já era. Não tem gol, nem pênalti.

Aqui cabe uma breve explicação sobre outro erro bastante popular. A vantagem não é o resultado que se espera da jogada, mas a concessão do direito de buscá-lo. Entretanto, muitos juízes assinalam o tiro livre quando a equipe atacante não é bem sucedida na sequência do lance faltoso. Isso nem sempre é correto. Se a continuidade for prejudicada por um defensor que por causa da infração teve tempo de chegar e marcar o adversário, ou porque a bola sobrou em uma posição muito ruim para o domínio ou com muito efeito, impossibilitando o controle, ou por outro motivo que não seja da responsabilidade do time beneficiado com a sequência do lance, realmente deve-se parar o jogo. Mas caso o erro de quem ataca seja espontâneo após ter o domínio da bola, como um passe errado, uma tentativa de ajeitar-se demais para chutar ou um drible a mais que é desarmado, não se deve marcar nada. Muitos juízes se deixam influenciar pela expectativa de que o time que tem a vantagem vá conseguir prosseguir e, quando isso não ocorre, voltam atrás em sua decisão.

Voltando ao assunto original, existem dois bons exemplos de aplicação de vantagem em lances de pênalti: o da final da Libertadores de 2012 entre Boca Juniors e Corinthians e o da partida entre Argentina e Colômbia na Copa América de 2011. No primeiro, foi gol. No segundo, não. Em ambos, os donos do apito foram perfeitos.

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Na partida da Libertadores, o placar mostrava 0x0 quando Chicão meteu a mão na bola para evitar um gol xeneize, mas Roncaglia logo chegou bem colocado para completar para as redes. O árbitro Enrique Osses permitiu a sequência, o gol aconteceu e o zagueiro corintiano foi punido com o cartão amarelo (não se pode aplicar o cartão vermelho depois de vantagem, a não ser em casos de agressão e faltas muito violentas). Oras, Romarinho empatou o jogo mais tarde. Com o pênalti, o clube portenho teria um tento marcado e mais homens no gramado para evitar a igualdade. Um tento marcado? Tem certeza? A bola poderia ir para fora, para a trave ou para as mãos de Cássio e, em um contra-ataque maroto, o Corinthians poderia marcar e sair de Buenos Aires com a vitória.

Já na partida entre as Seleções, o colombiano Ramos penetrou na área argentina, fintou o goleiro e levou um carrinho de Burdisso. A bola sobrou limpa para Dairo Moreno, que chegou à bola inteiro e, senhor soberano da jogada, do estádio e quiçá do universo naquele segundo, concluiu tranquilo e sereno diante de um gol aberto. E errou. Corretamente, nada foi marcado além do tiro de meta. Não é porque o gol não saiu que o juiz Sávio Spinola deveria voltar atrás e marcar pênalti.

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Para simplificar a questão: e se o lance de Bale fosse o último lance da final Liga dos Campeões ao invés de um minuto perdido do primeiro tempo de um jogo de primeira fase que não alteraria o destino de nenhuma das equipes? Realmente seria melhor parar tudo e chutar de uma distância maior, com o goleiro em seu devido lugar? O futebol é imprevisível demais para ter qualquer tipo de lance como garantido. Nem mesmo uma penalidade máxima ou lance sem goleiro. A única certeza é o gol. É o que mexe no placar e decide partidas (em que pesem erros de arbitragem). Quem dirige as partidas deve arbitrar de forma a privilegiá-lo. E, no caso do Real, do Boca e da Colômbia, as oportunidades que se apresentaram superaram até mesmo a chance da cobrança de pênalti.

Mais leitura sobre o assunto pode ser encontra no blog do ex-árbitro Leonardo Gaciba (clique aqui ou aqui).

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Geólogo. Fã de futebol, Fórmula 1, paleontologia, astronomia e pirataria desde criança. Belo horizontino, cruzeirense e líbero, armador ou atacante canhoto. Tem Zidane e Velociraptor como grandes ídolos e modelos de vida. Gosta de batata frita, do espaço e de combater o crime à noite sob o disfarce de Escorpião Negro.

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