Tailândia: a nova casa do futebol brasileiro

Foto: Alexandre Gama/Arquivo Pessoal

Foto: Alexandre Gama/Arquivo Pessoal

Escondida no sudeste da Ásia, a Tailândia é um país que inspira a curiosidade de muitos. Além de viver uma monarquia constitucional, como o Reino Unido, a Espanha e o Japão, ou seja, tendo um primeiro-ministro como chefe de governo e um monarca como chefe de estado, a pequena nação asiática, de apenas 513.115 km2 (menor que a Bahia, por exemplo), tem em seu território belos templos, paisagens e praias que deliciam qualquer tipo de turista.

A presença de brasileiros no país é constante, até porque a entrada é facilitada por acordo entre os dois países, que faz com que não seja necessário visto para entrar na Tailândia e ficar lá por três meses. Mas há quem vá para o país asiático para trabalhar, e como nosso principal material de exportação é o futebol, muitos vão para lá viver do esporte bretão. Hoje não é exagero algum dizer que a Tailândia se tornou uma casa do futebol brasileiro.

Aproximadamente 30 profissionais com origens verde e amarelas participaram da última temporada da Thai Premier League. Um dos que mais está calejado no país é o treinador José Alves. Já faz 12 anos que o técnico deixou o São Paulo, clube onde trabalhava nas categorias de base. Desde então, passou por Tobacco Monopoly FC, atual TTM Customs FC (de 2004 a 2006 depois em 2010), pelo P.E.A. FC, atual Buriram United (de 2006 a 2007), pelo Rajpracha FC (2009), pelo BB CU FC (2013) e desde 2013 comanda do BEC Tero Sasana FC. Durante este período, Alves também esteve à frende de uma academia do São Paulo na Tailândia, foi diretor técnico da base do Muangthong United, também na Tailândia, e ainda passou dois anos no Yadanarbon, de Myanmar.

Carreira vencedora

Foto: José Alves/Arquivo Pessoal

Foto: José Alves/Arquivo Pessoal

Alves não tem o que reclamar de sua passagem pelo país asiático. No período em que está lá, foi campeão nacional com o Tobacco Monopoly, na temporada 2004/2005 e em 2014 conquistou a Copa da Liga Tailandesa com o BEC Tero Sasana, vencendo o Buriram United na decisão por 2×0. A vitória teve um gosto especial, afinal de contas, o time da província de Buriram é o principal papa títulos do país nesta década, tendo conquistado três campeonatos nacionais, três copas nacionais, três copas da liga e duas supercopas no período.

“Jogo contra o Buriram há 5 anos e sempre fiz bons jogos contra eles. Neste ano, pela Thai Premier League, em casa, ganhamos por 3×2 e no returno foi 1×1, mas jogamos melhor e merecíamos ganhar. Na decisão da Copa da Liga, anulamos os pontos fortes do Buriram. Já havia usado esta mesma estratégia nos jogos anteriores e sempre deu certo. Neste jogo fomos superiores”, conta José Alves ao Doentes Por Futebol.

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O Buriram United, derrotado na decisão da Copa da Liga, não pode queixar-se muito, em contrapartida. Dono de uma torcida fanática e com jogos com média de público de 22 mil pessoas, o time se sagrou bicampeão da Thai Premier League nesta temporada, se tornando o maior campeão do país, com quatro conquistas, uma a mais que o Muangthong United. No centro deste novo título, estava o brasileiro Alexandre Gama, técnico com passagem pelo Fluminense.

Há menos de um ano na província que fica a aproximadamente 400 quilômetros da capital Bangkok, o treinador mostra fascínio com o que tem encontrado no país, especialmente com a estrutura do Buriram. Em entrevista ao Portal IG em agosto de 2014, Gama se disse impressionado com o clube, que possui dois centros de treinamento e um estádio para mais de 30 mil pessoas, o maior do país. O New I-Mobile Stadium, casa do Buriram United, é apelidado de “Thunder Castle” e foi inspirado no Stamford Bridge, estádio do Chelsea.

É evidente que a montagem de toda essa grande estrutura passa por uma pessoa bem abastada, digamos assim. No caso do Buriram United, esse cara é Newin Chidchob, conhecido político local. Ele está no comando do clube desde 2009 e, quando o assumiu, mudou o nome do time de PEA FC para o nome atual.

“Melhor do que esperava”

Foto: Buriram United/Divulgação

Foto: Buriram United/Divulgação

E através de todo esse mundo de possibilidades financeiras, Alexandre Gama tem a chance de trazer alguns reforços desejados. Um deles também é brasileiro. Trata-se do atacante Rafael Coelho, ex-Vasco da Gama e Avaí. O catarinense ainda não pode estrear em uma partida oficial, afinal de contas, foi contratado quando as inscrições para o campeonato já estavam encerradas. Rafael participou apenas de amistosos, mas diz ter tido uma boa impressão do país. “Muito melhor do que eu esperava”, vibra o atacante ao DPF.

Rafael Coelho pode acompanhar alguns jogos da Thai Premier League desde que chegou ao clube e ressaltou que o estilo do campeonato local é de muito mais correria e preparo físico do que técnica e habilidade. Seria isso um facilitador para quem vem do Brasil? O técnico José Alves não pensa assim. “Os clubes estão sendo bastante exigentes nas contratações de brasileiros. Já vieram alguns que não tinham muita qualidade e não conseguiram jogar nem na terceira divisão do país. Os jogadores locais têm qualidade, e algumas vezes são melhores que os brasileiros”, afirma o treinador.

Alves pontua que os clubes começaram a pagar mais e, ao mesmo tempo, exigir mais dos atletas brasileiros. Por isso, em sua visão, os jogadores vindos do Brasil que estão atuando na Tailândia estão lá porque provaram ter qualidade.

O artilheiro

Quem comprova esta afirmação de José Alves é o meio-campista Heberty Andrade, do Ratchaburi, quarto colocado da última Thai Premier League. Desconhecido do público brasileiro, o jogador de 26 anos foi o artilheiro máximo do último Campeonato Tailandês com 26 gols, recorde da liga.

Heberty é apenas um dos vários brasileiros que se destacam na Tailândia. No top-10 de artilheiros do torneio, estavam outros quatro compatriotas: Leandro Assumpção, ex-Flamengo e autor de 14 gols pelo Chiangrai United; Aron, 15 gols pelo Osotspa; Renan Marques, que fez 17 gols pelo Chiangrai United; e Thiago Cunha, ex-Palmeiras, autor de 20 gols pelo Chonburi. Além deles, quem também teve destaque recentemente foi o atacante Cleiton, do Muangthong. Apesar de balançar as redes apenas quatro vezes nesta temporada, ele foi artilheiro da edição de 2013 da Thai Premier League com a camisa do BEC Tero Sasana, anotando 20 gols.

“Todos eles poderiam jogar na Série A do Brasileirão, mas o futebol, às vezes, é questão de oportunidade ou de um empresário que saiba negociar. Vejo jogos da Série A e da Série B e vejo jogadores sem a mesma qualidade destes que estão aqui. Vejo estas diferenças apenas como oportunidades que são bem aproveitadas ou não. Aí, às vezes, é melhor sair do Brasil e ter oportunidade de mostrar a qualidade aqui na Ásia onde o futebol tem crescido muito”, avalia José Alves.

Rafael Coelho endossa o discurso do treinador e diz que os asiáticos admiram muito o futebol brasileiro e a ida de atletas daqui para lá se deve especialmente para qualificar o campeonato local. “Os tailandeses respeitam muito os brasileiros. A nossa qualidade acaba prevalecendo e o destaque aparece naturalmente”, pontua.

“A tendência é vir mais”

Foto: Divulgação/AV Assessoria de Imprensa

Foto: Divulgação/AV Assessoria de Imprensa

O meia-atacante Juliano Mineiro – que tem “mineiro” só no nome, pois é carioca – está há pouco tempo na Tailândia. Desde junho de 2014, ele veste a camisa do Chonburi FC, time da Província de Chonburi, que fica a aproximadamente 100 quilômetros de Bangkok. O meia foi titular em 13 dos 15 jogos que participou na última temporada, marcando dois gols. O bom desempenho colaborou na ótima campanha de seu time, que foi vice-campeão nacional, terminando três pontos atrás do Buriram.

Juliano credita essa boa participação ao técnico japonês Masahiro Wada. “Tenho um grande treinador japonês. São treinos específicos para cada partida. Mas os times contratam sempre estrangeiros para comissão técnica. Os times se preparam muito bem para cada partida. Se você não estiver bem condicionado, não consegue jogar”, avalia.

Mas não foram somente as características do futebol tailandês que chamaram a atenção de Juliano Mineiro. O atleta, que defendeu o Metropolitano (SC) e o Paraná Clube em 2014, é a representação mais clara de como os brasileiros se sentem em casa na Tailândia. “Os brasileiros chegam aqui e não querem mais ir embora. O fato de receber em dia e ter um custo de vida baixíssimo é um grande incentivo. A tendência é vir mais”, avalia.

Mesmo em pouco tempo no país, ele já se mostra encantado com as belezas naturais do país. “A vida aqui é muito boa. Você tem acesso a tudo. Come bem, tem restaurantes do mundo inteiro aqui, praias lindas, hospitais estruturados com estrangeiros trabalhando. Você consegue comprar tudo o que você não teria no seu país”, conta Juliano.

Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.

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