A Copa das Copas

  • por Henrique Joncew
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A expectativa nascida em 2007, quando do anúncio do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014 parecia impossível de aumentar, quando as três vogais soaram em televisores e sistemas de som por todo o país. A mensagem que transmitiam era simples: “vai começar”. E então, qualquer sensor de ansiedade explodiu, a Copa das Copas começou e foi inesquecível da musiquinha de abertura ao gol do título.

Foram festas internacionais pelo país, em uma rica troca de experiências e cultura. As seleções chegaram e logo entraram na brincadeira. Visitas, passeios, fotos e tweets dos atletas foram comuns em todos os dias do torneio (Podolski que o diga!). O sentimento “brasileirinho” esteve à flor da pele e ouviram-se muitos cantos de “sou brasileiro”. Mas todas as nações puderam entoar seus cantos livremente, sem brigas, lado a lado com seus rivais. Foram raros os exageros, como o de brasileiros e argentinos em Belo Horizonte. Nos estádios, milhares de pessoas realizaram o sonho de ver um jogo de Copa do Mundo. O hino a capela voltou a ser marca da seleção canarinho. Já os argentinos assumiram papel provocador, cantando “Brasil, decime qué se siente”, que virou febre. Os demais sul-americanos também compareceram em grande número, criando uma atmosfera de Libertadores, e os simpáticos argelinos e costarriquenho conquistaram reforço dos anfitriões na torcida por seus escretes.

Dentro de campo, foi uma miríade de lances memoráveis para onde quer que se olhasse. A abertura foi discreta (o assobio da música-tema, entretanto, foi bastante contagiante) Nem todos foram bons. O primeiro gol foi contra, de Marcelo a favor da Croácia. O português Cristiano Ronaldo, baleado, manteve a escrita de que o melhor do mundo de ano anterior à Copa não faz bom torneio e foi para casa na primeira fase. Torcedores chilenos sem ingresso tentaram invadir o Maracanã na partida contra a Espanha. O colombiano Zúñiga deu uma joelhada perigosíssima em Neymar nas quartas-de-final, que acabou tirando o craque brasileiro da Copa. A arbitragem foi muito fraca e interferiu no resultado de diversas partidas. Para a Bósnia, foi pior: a estreante foi eliminada na primeira fase por causa do gol legal de Dzeko que o bandeira neozelandês Jan Hintz invalidou. E, claro, houve também a surreal mordida de Suárez em Chielini, que acarretou em uma pesada suspensão que tirou o craque uruguaio do restante da Copa, na partida que classificou a Celeste para as oitavas-de-final.

Camarões e Gana chegaram em crise com suas Confederações por causa do dinheiro de premiação pela participação no campeonato. As duas delegações foram eliminadas na primeira fase, sendo que os Leões Indomáveis acabaram sendo a pior equipe das 32, e foram embora com três derrotas, nove gols sofridos e a patética briga de Ekotto e Moukandjo na partida contra a Croácia.

Entretanto, a maioria das cenas da Copa de 2014 foi encantadora. A primeira talvez seja a goleada da Holanda sobre a Espanha por 5×1 (apenas a primeira chuva de gols na Fonte Nova), na reedição da final de 2010. O voo de Van Persie ao encobrir Iker Casillas, talvez seja a cena mais icônica da Copa. Robben também anotou um golaço, disparando em velocidade contra Sergio Ramos e em seguida colocando Casillas de joelhos, fazendo-o persegui-lo pedindo pela clemência de balançar logo as redes e colocar fim à humilhação. O camisa 11, aliás foi o melhor jogador da Copa de 2014. O golaço contra a Fúria foi seu segundo na partida. E o craque ainda marcou contra a Austrália, deu assistência contra o Chile e sofreu pênaltis decisivos nas oitavas-de-final, contra o México e contra o Brasil na decisão do terceiro lugar.

E houve muito mais. No mesmo grupo, o bem armado Chile de Jorge Sampaoli também bateu a então campeã, despachando-a para casa na primeira fase. Os espanhóis só venceram a Austrália, na despedida de David Villa da seleção, com direito a golaço de letra do maior artilheiro da história da Fúria. Os australianos perderam todas, mas despediram-se deixando o golaço de Tim Cahill contra a Holanda, com um voleio inspirado de pé esquerdo, e boas atuações.

Para algumas equipes, foi uma Copa de façanhas. A Colômbia, sem o lesionado Falcao, fez sua melhor Copa do Mundo, liderada por um dos melhores jogadores do torneio: o meia James Rodríguez, artilheiro do torneio com seis gols e autor de um dos gols mais bonitos da competição, matando a bola no peito fora da área e chutando-a sem deixá-la cair no chão, nas oitavas-de-final contra o Uruguai. Os colombianos caíram nas quartas, diante do Brasil.

A Grécia também se classificou e pela primeira vez chegou ao mata-mata, graças ao gol pênalti de Samaras no final da terceira partida, diante da Costa do Marfim (que, na despedida do Brasil, fez uma vaquinha e a doou aos funcionários do hotel onde se hospedaram). Nas oitavas-de-final, os helênicos caíram diante da…

Costa Rica! A seleção da América Central foi mais uma a ter seu melhor desempenho em Mundiais. Com destaque para o goleiro Navas, o zagueiro González e os atacantes Campbell e Ruiz, os costarriquenhos surpreenderam o mundo e passaram pelo grupo da morte no primeiro lugar, superando Uruguai, Itália e Inglaterra. Os Ticos só foram ser eliminados nos pênaltis, nas quartas-de-final contra a Holanda, na partida em que o goleiro Krul entrou apenas para as penalidades e defendeu duas cobranças.

A Argélia também conseguiu superar a primeira fase pela primeira vez. Os africanos devem isso um pouco à ajuda do goleiro russo Akinfeev, que falhou duas vezes em lances que acabaram determinando a eliminação precoce de seu time. Nas oitavas-de-final, os argelinos fizeram uma das partidas mais emocionantes da Copa, contra a Alemanha. Contra-atacando sempre com perigo, contando com milagres do goleiro Raïs e obrigando Neuer a jogar de líbero, a Argélia fez jogo franco. Apenas na prorrogação os germânicos conseguiram vencer.

Os mexicanos, jogando como nunca, fizeram boas partidas no grupo do Brasil e conquistaram o segundo lugar. Com boas atuações do goleiro Ochoa, do zagueiro veterano Rafa Márquez e do meia Herrera faziam grande Copa, teriam pela frente a Holanda nas oitavas-de-final. Os latinos abriram o placar, mas sofreram o empate aos 43 minutos do segundo tempo e a virada aos 49, em polêmico pênalti sofrido por Robben. Perderam como sempre.

A França valeu-se do primeiro gol validado nas Copas pelo uso da tecnologia de linha do gol, na estreia contra Honduras. Os franceses passaram de fase com tranquilidade, seguidos dos suíços. Aliás, contra a Suíça, Benzema ia marcando o sexto gol dos “Bleus” quando o juiz encerrou a partida. A França caiu para a Alemanha nas quartas-de-final. Já os suíços foram eliminados quase no final da prorrogação das oitavas pela Argentina, em arrancada de Messi, que desarmou a defesa da Suíça e rolou para Di María fazer o gol da classificação. Os argentinos chegavam de um grupo em que, apesar de três vitórias, não tiveram vida fácil. Messi teve que ser decisivo e marcou belos gols em todos os jogos da fase de grupos. Mas a mágica do camisa 10 argentino parou por aí.

Nas quartas-de-final, um gol precoce de Higuaín, o último da Albiceleste na Copa, que decidiu a vaga contra a Bélgica. Os belgas chegaram à Copa como sensação, mas não tiveram o brilho esperado. Sem grandes atuações, os europeus passaram na liderança de seu grupo e bateram os EUA na prorrogação das oitavas-de-final após grande atuação do goleiro americano Howard, que salvou sua equipe nada menos que 16 vezes durante o jogo. Os goleiros, aliás, protagonizando grandes momentos na Copa das Copas.

O Brasil passou pela fase de grupos sem grandes emoções e correu risco extremo contra o Chile nas oitavas-de-final, quando levou uma bola no travessão no último minuto da prorrogação. A classificação só veio nos pênaltis. Neymar era a grande figura da equipe, mas faltava à torcida um brilho que reafirmasse a esperança no hexa. Nas quartas-de-final, qualquer esperança se apagou. O Brasil venceu a Colômbia, no jogo do golaço de falta de David Luiz, mas perdeu Neymar e Thiago Silva. Sem seu craque e seu capitão, o time entrou em parafuso na preparação para a semifinal, que seria diante da Alemanha. Essa dependência exagerada mostrou a necessidade de amadurecer a Seleção.

1×7. Não só foi a maior humilhação do futebol que ocorreu no Mineirão na semifinal entre Brasil e Alemanha. Klose ainda marcou seu 16º gol e ultrapassou Ronaldo na artilharia dos Mundiais contra a seleção do próprio, que estava no estádio assistindo a tudo. O Brasil jogou mal, totalmente perdido e entregue. E a Alemanha foi muito bem, em uma das maiores atuações coletivas dos últimos tempos. O bizarro episódio, maior derrota da história da seleção brasileira, escancarou as mazelas do futebol nacional para o mundo. Mas, para os arrogantes dirigentes do esporte nacional, pareceu tudo apenas uma pane de meia hora.

Gol da Alemanha! Klose torna-se o maior artilheiro da história das Copas.

Na outra semifinal, a Holanda novamente se enveredou nos pênaltis, agora contra a Argentina. Dessa vez, Krul não entrou e foi Romero quem brilhou e parou duas penalidades. Messi, discreto durante a partida, correu aos prantos comemorando a classificação, numa das cenas mais marcantes da competição. Do outro lado, Robben, destaque individual do torneio, acabou frustrado. Restou o alento do terceiro lugar, conquistado contra o Brasil. No jogo, o treinador holandês Louis van Gaal tornou-se o único das Copas a utilizar todos os jogadores convocados para o torneio. A Laranja venceu por 3×0. Nunca uma seleção brasileira fora tão vazada em Copas. E a vergonha ainda se prolongou além do torneio. Basta lembrar da cartinha da Dona Lúcia.

A expectativa para a decisão entre a Alemanha do jogo coletivo contra a Argentina dos lampejos de Messi era enorme. Seria a terceira final entre as equipes, e o confronto também tornou-se o mais repetido dos Mundiais. Os germânicos também tornaram-se isoladamente os mais presentes em finais.

No dia 13 de julho, na disputa pela história, os alemães tentavam consagrar toda a revolução do futebol de seu país, mas esbarravam na defesa argentina, liderada por Mascherano, que fez grande Copa, e na trave, em cabeçada potente de Höwedes. Em um lance de disputa, Kramer chocou-se com Garay e saiu de campo totalmente desorientado. Os argentinos pouco criaram, graças às ótimas atuações de Schweinsteiger (que saiu ensanguentado de campo) e Boateng mas tiveram chances esporádicas, que Higuaín, Palacio e até Messi incrivelmente perderam. O camisa 10 foi eleito o melhor jogador do torneio pela FIFA, um prêmio que não mereceu (relembre aqui nossos melhores da Copa) e recebeu constrangido e frustrado, pois acabara de perder a oportunidade de apoteose no mundo do futebol.

A prorrogação da final foi a oitava dos dezesseis jogos de mata-mata. E quando Götze fugiu da marcação de Demichellis, Schürrle percebeu e mandou a Brazuca para o jovem matar no peito e completar com categoria para as redes. Dois jovens da Alemanha unificada decidiram a Copa do Mundo de 2014, um grande símbolo para o país. Ao lado de 1998, foi o Mundial com mais gols.

O troféu de campeã ficou com a Alemanha pela quarta vez. Foi merecido para a melhor equipe do torneio, que venceu dentro e fora do campo, esbanjando simpatia e carisma, sempre muito próxima da população que a acolheu. E com a imagem da festa dos jogadores, com direito a dança indígena, a Copa acabou. Tantos gols, jogadas, craques, defesas, festas, casos… Boas memórias que nunca irão se perder. E que a Rússia traga mais aventuras em 2018. Até lá, para recordar tudo que se viveu, basta repetir, como num passe de mágica, o som tão simples que carrega consigo tudo que aconteceu na história da Copa das Copas.

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Geólogo. Fã de futebol, Fórmula 1, paleontologia, astronomia e pirataria desde criança. Belo horizontino, cruzeirense e líbero, armador ou atacante canhoto. Tem Zidane e Velociraptor como grandes ídolos e modelos de vida. Gosta de batata frita, do espaço e de combater o crime à noite sob o disfarce de Escorpião Negro.

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