Análise da CAN 2015: a África é laranja!

  • por Rogério Bibiano
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A 30ª edição da Copa Africana das Nações chegou ao seu final neste domingo (8), consagrando (enfim) a Costa do Marfim como campeã, após vencer Gana, nos pênaltis, em final reeditada 23 anos depois (quando a Costa do Marfim também venceu nas penalidades). A competição, disputada na Guiné Equatorial (após desistência do Marrocos em sediar o torneio devido à epidemia de ebola que assola a África Ocidental), teve surpresas, grandes decepções e jogos ruins, na maioria.

As Surpresas

Dentre as surpresas, tivemos, sem dúvida alguma, a passagem de fase do Congo, treinado pelo experiente Claude Le Roy. O treinador francês mostrou, mais uma vez, que conhece como poucos o continente e, com um futebol ajustado, passou para as quartas de final no Grupo A, à frente de Guiné Equatorial, Gabão e Burkina Faso.

A outra grande surpresa da competição foram os donos da casa. A Guiné Equatorial entrou na competição graças à desistência do Marrocos em sediar o torneio. Os anfitriões foram ajudados pela arbitragem nas quartas, quando passaram pela Tunísia (2×1), fato que gerou inúmeras críticas dos tunisianos à competição. Entretanto, poucos apostavam na seleção entre as quatro melhores da África, numa equipe que teve no bom Javier Balboa seu destaque individual.

Num nível mais abaixo, em comparação às citadas acima, a República Democrática do Congo, terceira colocada, pode ser apontada tranquilamente como uma das grandes surpresas. Os congoleses classificaram-se pelo número de gols marcados, após três empates na fase de grupos. No clássico contra os Diabos Vermelhos do Congo, a vitória por 4×2 colocou os congoleses na semifinal, quando foram eliminados pela Costa do Marfim. Comandados pelo artilheiro Diumerci Mbokani (9) e com Jeremy Bokila em grande fase, a República Democrática do Congo é atualmente, dentro do continente, uma escola que deve ser respeitada, especialmente pelos seus clubes TP Mazembe e AS Vita.

As decepções

Vice-campeã da África, Burkina Faso sequer venceu um jogo no grupo A, justamente o grupo na qual era considerada favorita absoluta. A seleção burkinabé conquistou um ponto, terminando na última colocação da chave e com uma má perspectiva para o futuro, sobretudo para um país pequeno, que não possui um bom trabalho de base (comandado durante anos pelo treinador português André Duarte, que saiu em 2012) e que vê a sua melhor geração envelhecendo.

Melhor seleção africana na Copa do Mundo e com um futebol plasticamente bonito, a Argélia seguiu fazendo jus a uma superstição dos últimos 20 anos (com raras exceções) na África, de que a melhor seleção do continente nunca consegue vencer a CAN. Os argelinos perderam um jogo nos acréscimos para Gana, situação que acabou colocando a seleção no caminho da Costa do Marfim, que soube ter frieza e eliminar nas quartas de final os argelinos.

Jogos sofríveis

A CAN 2015 tinha tudo para ser um torneio atraente, especialmente porque as seleções presentes na competição em sua fase final possuíam grande potencial ofensivo. Entretanto, foram 16 empates ao todo, com jogos monótonos e de baixo nível técnico, talvez por muitos treinadores estarem tentando manter seus empregos. Nesta CAN, tivemos uma grande renovação nos comandos técnicos das seleções.

Costa do Marfim campeã após 23 anos

Apesar de surpresas e decepções com algumas seleções, tivemos na final um confronto entre Costa do Marfim x Gana, seleções favoritas no papel, que passaram por uma fase de instabilidade durante a Copa do Mundo e que trocaram seus comandos para a CAN, buscando claramente novos caminhos.

Gana foi treinada pelo israelense Avant Grant, que manteve a mesma base, mas não contou com a experiência de Sulley Muntari, Michel Essien e Kevin Prince Boateng, que não foram convocados. Sua seleção começou a CAN sendo surpreendida pelo Senegal (derrota por 2×1), mas teve a experiência necessária para vencer a Argélia (1×0) e a África do Sul (2×1), avançando na primeira colocação do grupo D. Nas quartas de final, as Estrelas Negras venceram Guiné (3×0) e a Guiné Equatorial (3×0), com grandes atuações dos irmãos Ayew (Andre e Jordan) e de Christian Atsu, credenciando-se a favoritas na final.

Com a mesma base da Copa do Mundo do Brasil, mas sem contar com o astro Didier Drogba, os marfinenses, comandados pelo francês Herve Renard (que fez história ao conquistar a CAN 2012 com a Zâmbia e tentou, sem sucesso, remover a ideia de aposentadoria de Drogba), começaram a competição de maneira bastante burocrática. Foram dois empates em um gol contra Guiné e Mali, e, em ambos os jogos, os marfinenses saíram perdendo. Quando todos já colocavam em dúvida o poderio dos Elefantes, Max Gradel fez o gol da classificação na vitória mínima sobre Camarões, resultado que colocou a Costa do Marfim nas quartas de final, em um duelo que talvez tenha sido o melhor jogo da competição. Talvez pela primeira vez nas últimas cinco edições da CAN, a Costa do Marfim, não entrou como favorita, mas, em campo, soube utilizar a experiência a seu favor e, em grande atuação de Wilfried Bony, bateu a Argélia por 3×1. Nas semifinais, vitória tranquila sobre a República Democrática do Congo (3×1) e mais uma final para os marfinenses.

Na grande decisão, no Estádio de Bata, um jogo bastante disputado, com jogadas ríspidas em muitos momentos e que não foram devidamente punidas pelo árbitro Bakary Gassama (Gâmbia). Com as duas seleções Jogando em um ritmo lento, os ganeses tiveram a chance de sair na frente, com Christian Atsu acertando a trave do goleiro Barry Copa, em arremate de fora da área. A Costa do Marfim equilibrou e cadenciou o jogo, sempre buscando a velocidade de Gervinho e as escapadas pela direita do ótimo Serge Aurier.

O panorama de equilíbrio não se modificou nos 90 minutos nem prorrogação, e a monotonia só deu lugar à emoção na disputa por pênaltis. As duas primeiras cobranças foram desperdiçadas pelos marfinenses e aproveitadas por Gana. Quando tudo parecia definido em favor das Super Águias, começou a brilhar a estrela do goleiro Barry Copa. Reserva durante toda a campanha, Copa foi escalado somente para a final, pegou o terceiro penal de Gana e contou com a sorte ao ver a quarta cobrança chutada para fora. Seus companheiros converteram a partir da terceira até a décima cobrança. Coube a Barry defender a cobrança do goleiro Brima Razak e converter a sua para escrever o nome marfinense pela segunda vez na história, com a vitória por 9×8 (veja o vídeo abaixo, todas as cobranças).

Barry Copa (1) se torna o grande nome no jogo final e até que enfim a atual geração marfinense (sem Drogba) consegue conquistar a África. Uma conquista um tanto burocrática, sem grande brilho, especialmente se analisarmos outras edições em que os marfinenses perderam encantando. No entanto, desta vez a equipe soube utilizar a experiência de derrotas passadas para subir de rendimento no momento certo. Já Gana deixa no ar que a sua renovação, se bem conduzida por Avant Grant, tem tudo para trazer grandes resultados para o futuro futebolístico dos Estrelas Negras.

Quanto ao futebol africano, as perspectivas em termos de jogo coletivo seguem com as mesmas seleções de sempre, ou seja, Costa do Marfim, Gana e a própria Argélia, que só não avançou para as finais em função do cruzamento das quartas de final. A verdade é que a Guiné Equatorial chegou onde chegou contando com ajuda da arbitragem, por serem os donos da festa. As demais seleções não devem ter uma melhoria substancial em seus padrões de jogo, mas ainda não se sabe se tunisianos, egípcios, marroquinos, camaroneses, nigerianos (que sequer classificaram-se para a CAN), com seus jogadores experientes e que atuam em grandes centros do futebol europeu, irão assumir a condição de favoritos ou se seguirão com o futebol instável que temos observados nos últimos anos. É aguardar para ver.

Natural de Telêmaco Borba-PR e criado em meio à "boemia futebolística", com horas de papo sobre futebol, samba e cervejas na pauta. Influência do pai, que também adorava futebol, e da mãe, que sempre apoiou a iniciativa. Técnico em Eletrônica, formado desde 1999, e fanático por futebol, futsal, futebol de praia, society e todo esporte que tenha no futebol a sua essência.

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