Você lembra? Brasileiros Xeneizes do Século XXI

Arte: Doentes por Futebol

Arte: Doentes por Futebol

Você sabe o que Jorge Henrique Amaral de Castro, Pedro Iarley Lima Dantas, Dermival de Almeida Lima e Luiz Alberto da Silva Oliveira têm em comum? Breves passagens pela charmosa Buenos Aires. E é por aí que as coincidências acabam. Com um relacionamento histórico muito bom com jogadores brasileiros, dentre os quais é fácil destacar Domingos da Guia, Orlando Peçanha, Dino Sani, Paulinho Valentim e Almir Pernambuquinho, o time Xeneize apostou em quatro brasileiros na última década*, todos com trajetórias distintas no famigerado bairro de La Boca.

Jorginho Paulista, então um promissor lateral esquerdo, foi o primeiro deles. Destaque da Seleção Brasileira Sub-17 campeã mundial em 1997, o ala saiu do Brasil incrivelmente rápido, deixando o Palmeiras e partindo para a Holanda, onde praticamente não defendeu o PSV Eindhoven e de onde logo partiu, rumo à Udine, de onde sairia com igual velocidade para o Vasco da Gama. No Rio, conquistaria a Copa João Havelange de 2000. E foi pouco após a conquista que pintou a oportunidade no escrete boquense.

Ainda vinculado à Udinese, Jorginho sofreu um banimento na Itália em função de um escândalo de passaportes falsos. Assim, chegou ao Boca em junho de 2001 e lá permaneceu até maio de 2002. Da capital argentina, o lateral canarinho trouxe boas recordações, embora não tenha conquistado títulos. Do banco de reservas, viu o time Azul y Oro perder o Campeonato Intercontinental para o Bayern de Munique e ficar com a terceira colocação no Torneo Apertura. Apesar disso, uma crise econômica assolou a Argentina, desvalorizando o Peso Argentino e inflacionando o Dólar, moeda usada no pagamento dos vencimentos do brasileiro, que logo voltou à sua terra.

O segundo brasuca que pisou em solo Hermano na década foi Iarley, até então um jogador pouco conhecido do público tupiniquim, mas não do torcedor do Boca, que sofrera em suas garras.

O ano era 2003 e o Paysandu disputava a Copa Libertadores. Depois de liderar o Grupo 2 com propriedade (se superiorizando a Cerro Porteño, Sporting Cristal e Universidad Católica), o Papão teve a infortuna tarefa de eliminar o Boca Juniors nas Oitavas de Final e não esteve tão longe de lograr êxito. Com um gol de Iarley, os paraenses conquistaram uma histórica vitória em La Bombonera, 1×0, gol de Iarley.

Se o jogo de volta, em Belém, apagou a estrela do Paysandu, 4×2 para os Argentinos, a de Iarley persistiu, brilhando e carimbando seu passaporte para Buenos Aires. Envergando a camisa 10, aquela mesma que outrora Diego Armando Maradona e Juan Roman Riquelme vestiram, o brasileiro foi importante, mas não conseguiu a adaptação plena. Campeão do Apertura e do Intercontinental de 2003, participou decisivamente do gol que levou a partida contra o Milan para os pênaltis e acabou com o rival River Plate em uma ocasião.

“A torcida do Boca é algo diferente. Transmite uma emoção muito grande. A parte da organizada fica vazia no começo do jogo, eles só entram com 15 minutos. E ninguém ocupa o lugar deles. Quando eles entram, o estádio sente, o time vibra, o adversário se retrai. É um clima incrível,” disse à ESPN.

A passagem de Iarley pelo Boca terminou em 2004, com sua saída para o Dorados, do México.

Na sequência, em 2005, ano do centenário Xeneize, o lateral direito Baiano, marcado pelo fracasso olímpico de 2000, desembarcou no Boca Juniors, após boas passagens por Atlético Mineiro e Palmeiras, para substituir o argentino e ídolo Hugo Ibarra. Titular e razoavelmente destacado, Baiano sofreu com os reflexos de um incidente lamentável.

Quem não se lembra do afamado entrevero racista entre Grafite e o zagueiro Leandro Desábato, à época beque do Quilmes, na Copa Libertadores? O ato do argentino respingou no lateral brasileiro.

“Acabei disputando a Libertadores pelo Boca Juniors, marcando dois gols. Foi muito legal no Boca Juniors até acontecer o episódio do Grafite. O Desábato xingou o Grafite, de “negro”, alguma coisa assim. Ele foi preso dentro do Morumbi, e a minha vida que estava no céu… Eu tinha chegado no Palmeiras na Série B, conquistamos o título e eu fui eleito o melhor lateral do campeonato[…].

No final do ano, me transferi para o Boca Juniors, no centenário do clube, e fui morar em Porto Madero. Eu falei: “Cheguei no céu” porque um clube como Santos, Palmeiras, Atlético Mineiro e Boca Juniors, eu não preciso mais nada, né?! Então, é daqui pra voltar à seleção novamente. Infelizmente, após sete meses que eu estava lá, minha vida começou… saiu do céu ao inferno em pouco tempo, porque o Desábato ficou preso aqui sete dias. Todo mundo começou a me comparar com o Grafite, me chamavam de “negro dem…”, “negro disso”, “negro daquilo”, cuspiam na minha cara…,” disse em entrevista a Sérgio Settani Giglio, Marcel Diego Tonini e Katia Rubio, autores do artigo “Do céu ao Inferno: a história de Baiano no Boca Juniors e os racismos no futebol.”

Com esse quadro pintado, o natural aconteceu e Baiano retornou ao Brasil, onde voltou a defender o Palmeiras.

O último brasileiro Xeneize foi Luiz Alberto. Desprestigiado no Fluminense, clube onde foi durante um bom período o capitão, o zagueiro fechou contrato de seis meses com o Boca, em fevereiro de 2010. Apesar disso, pouco mais de dois meses depois, com sete jogos disputados, o experiente defensor teve seu contrato rescindido.

Segundo o Diário Olé, “assim como a chegada surpreendeu, também surpreende a rápida saída.” A má fase da carreira, algumas falhas e uma crise no Boca prejudicaram o desempenho do zagueiro.

* Além dos quatro, o Boca contou na última década com o desconhecido Edilio Cardoso, cuja carreira seguiu a obscuridade de sua passagem pelo time de La Boca.

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Advogado graduado pela PUC Minas, pós-graduando em Direito Desportivo e Negócios do Esporte, 24 anos. Admito minha preferência pelo futebol bretão, mas aprecio o esférico rolado qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Estou também no "O Futebólogo", meu blog, e no "Bundesliga Brasil".