DOENTES POR FUTEBOL

Mea culpa, Neymar

“Eu jamais me engano. Só me enganei uma vez: quando acreditei estar enganado.”

Quem viu ou vê Chaves, lembra dessa frase do professor Girafales. Ela demonstra arrogância, uma dificuldade em reconhecer uma das grandes características humanas: a sujeição ao erro.

ODD Shark

Estamos, todos nós, sujeitos ao erro. Mas nosso dever enquanto seres humanos que buscam a evolução é reconhecer nossos erros e trabalhar para superá-los. Não importa quanto tempo demore, mas reconhecer um erro numa atitude ou numa opinião é algo libertador. E, como toda liberdade, essa capacidade de se reconhecer errado é difícil de ser conquistada.

Se você chegou até aqui, deve estar se perguntando se o site virou um portal de autoajuda. Não, não virou. Para entender o motivo desse texto, você deve continuar a lê-lo e, lá no final, se juntar a mim no reconhecimento do erro ou continuar a dar murro em ponta de faca. Afinal, cada um reconhece um equívoco a seu tempo.

Tenho quase 36 anos. Vi muito futebol na vida. Muito jogo bom, muita pelada horrorosa. Muitos craques, alguns gênios, outros que eram tratados como futuros gênios e não deram em nada, muitos que tinham potencial assombroso na base e no começo da carreira profissional, mas sucumbiram a vários fatores extracampo que não nos interessa listar e viram suas carreiras naufragarem e hoje são lembrados por meia dúzia de pessoas, se tanto.

Vi sete Copas do Mundo enquanto torcedor da Seleção Brasileira. Sei e procuro combater o mal que a CBF faz ao nosso futebol, mas na hora que a bola rola, não consigo torcer contra. Entendo que ganhar Copa do Mundo com esses caras no comando faz muito mal à bola jogada no Brasil, mas perder não resolve nada. Se resolvesse, a CBF teria sido fechada após o vexame contra a Alemanha.

E, como todos sabemos, já faz quase um ano e nada aconteceu. A pior derrota de uma equipe na história do futebol – quando olhamos as condições e o peso do time derrotado – foi tratada como uma derrota qualquer. Num mundo ideal, era para serem expulsos desde o presidente da CBF até a tia que serve café nas reuniões (perdoem o exagero).

Enquanto torcedor da Seleção Brasileira, vi muito título importante, muito craque chamando a responsabilidade e decidindo, fazendo o talento prevalecer sobre a bagunça. Romário, Ronaldo, Rivaldo, Taffarel, Dunga, todos gravaram seus nomes na história da Seleção Brasileira e nos corações de milhões de brasileiros, sendo eu um deles.

Com 14 anos, vi o Brasil quebrar o jejum e garantir o Tetra. Aquela conquista em 1994 mudou para sempre minha forma de ver futebol. Passei a amar de forma incondicional as decisões por pênaltis e querer que todos os capitães fossem como Dunga.

Em 1998, a emoção da vitória suplantou a dor física quando, com 40º de febre, sai às ruas para comemorar a classificação contra a Holanda. Até hoje, a dor da derrota na decisão contra a França ainda me assombra quando o assunto é Copa do Mundo.

A redenção veio em 2002, mas aí, já um adulto, deixei de lado a inocência infanto-juvenil e tratei a conquista como ‘’mais uma’’. Talvez pela forma ‘’fácil’’ que ocorreu, talvez pelos jogos serem de madrugada ou então por ter outras atribuições mais importantes que o ato de torcer, não curti a conquista como a de 1994.

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Na Copa seguinte, me preparei para ver um time que, em tese, teria tudo para entrar num seleto hall: dos que ganharam Copa do Mundo jogando bonito.

Não ganhamos e muito menos jogamos bonito, e isso me incomodou demais. Até hoje não consigo entender como aquele time que foi à Alemanha não chegou perto do título.

Em 2010, jogar bonito era detalhe. O importante era conquistar o caneco de volta. Mas duas infelicidades nos custaram a classificação na, ironicamente, melhor partida do Brasil em Copas do Mundo desde a final contra a Alemanha em 2002.

Chegamos a 2014 e eu, desencanado, não sonhava com título. Óbvio que gostaria, comemoraria, mas não acreditava. Minha aposta era que o Brasil passaria longe da decisão. E sigo com um espírito pessimista para 2018.

Você que chegou até aqui, deve estar se perguntando: “era autoajuda, depois passou a ser sobre Seleção, não estou entendendo nada”. Mas vai entender já já.

Tendo visto e curtido as conquistas e sofrido com as derrotas em 2006 e 2010, me tornei um cético quanto ao talento dos jogadores brasileiros. Todos têm que provar muito, colocar a Seleção no lugar mais alto do pódio para ganhar algo próximo a um elogio de minha parte. E essa postura me custou alguns anos de admiração do talento puro e simples. Falo de Neymar.

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Vi o brasileiro surgindo. No começo, achei que fosse apenas mais um desses moleques franzinos que surgem aos borbotões no Brasil, mas que não dão em nada. E embora fosse nítida sua evolução, continuei achando praticamente a mesma coisa, com um ou outro elogio no que tange à capacidade de finalização. Por ter visto jogadores como Romário e Ronaldo, que não eram adeptos do ‘’malabarismo’’ – algo comum nos tempos de Neymar no Brasil -, eu não conseguia admirar o jogador quando ele estava de pé. É a tal da birra.

Algumas atitudes extracampo também interferiram no meu julgamento. Depois de ver muitos jogadores consagrados provocando e chamando torcida, acho extremamente chata e tediosa essa atual fórmula pronta para entrevistas, da qual Neymar é o maior expoente na atualidade. Mais uma vez, um fator de fora do campo interferiu na capacidade de análise da bola jogada.

Quando Neymar foi vendido ao Barcelona, fui contra. Nunca neguei seu talento, nunca falei que se tratava de um jogador comum. Mas tinha sérias dúvidas se brilharia na Europa, jogando contra os gigantes e ao lado de um dos maiores de todos os tempos. Estava errado.

Neymar não apenas se deu bem, como aprendeu com Messi e se transformou em um dos principais jogadores do mundo. E o talento estava lá desde sempre.

Faltava boa vontade da minha parte para reconhecer isso e ver apenas que as quedas acrobáticas eram fruto da bola jogada no Brasil, da forma que árbitros e torcedores veem futebol. Em vez de influenciado pelo talento, fui influenciado pela birra com certas atitudes que via em Neymar e nos seus fãs, que o comparavam a Messi e Cristiano Ronaldo.

A então insanidade dos fãs hoje já pode ser tratada como uma capacidade visionária, já que o brasileiro tem apenas um gol a menos que os citados na mais importante competição que disputam e média de gols por minuto melhor. Além disso, as atitudes de Neymar que eu considerava equivocadas dentro do campo começaram a desaparecer a partir do momento que ele chegou à Europa e hoje são apenas parte do passado. Fora de campo, o brasileiro continua com respostas prontas e atitudes politicamente corretas, mas ele é apenas fruto do seu tempo e não pode ser responsabilizado por isso.

https://www.youtube.com/watch?v=jlNMj5d_D3c

Voltemos, pois, nossos olhos para a bola jogada por Neymar. Atualmente, é imensa, fazendo dele digno de ser, sim, elencado entre os grandes jogadores da atualidade. Eu estava errado, Ney. Você é craque com potencial para gênio.

Boa sorte, e de vez em quando pegue leve para eu não ter que cornetar. Caso continue nessa toada, chegarei a 2018 com o coração cheio de esperança novamente e já não tenho mais idade para fortes decepções.

É tóis!

https://www.youtube.com/watch?v=7yoZwYS2-Ss

O conteúdo acima é de responsabilidade expressa de seu autor. O Doentes por Futebol respeita todas as opiniões discordantes e tem por missão promover o debate saudável entre ideias.

33 anos, morador do Rio de Janeiro. Rubro Negro de coração, apaixonado pelo Maracanã, tem no Barcelona o exemplo de clube para o que entende como futebol perfeito, dentro e fora do campo. Estudioso da memória do futebol, tem nessa sua área de maior atuação no site, para preservar a memória do esporte. Dedica especial atenção aos times mais alternativos, equipes que tiveram grandes feitos, mas que não são tão lembradas quanto as maiores do mundo. Curte também futebol do centro e do leste da Europa, com uma coluna semanal dedicada ao assunto. Um Doente muito antes de fazer parte desse manicômio, sua primeira memória acadêmica é uma redação sobre o Zico, na qual tirou 10 e a mesma foi para o mural da escola. Nunca trabalhou com futebol dessa forma, mas adora o que faz junto com o restante do pessoal e se pergunta o porquê de não ter começado com isso antes. Espera recuperar o ''tempo perdido''. Acha Lionel Messi o melhor que viu jogar e tem em Zico, Petkovic e Ronaldo Angelim como heróis.